Aurora da alma Por: Cineclube Agulheiro 310

 

Texto sobre o filme exibido dia 26 de agosto de 2017, na Secretaria de Cultura (Estação de União da Vitória).

Talvez eu não devesse ousar falar, talvez esse seja um filme perfeito demais para colocá-lo em linhas, muitos outros já ousaram melhor do que eu e falaram, mas considere isso apenas como vagas impressões do melhor filme do mundo:

Aurora é, de fato, aquela sensação catártica de quem vê o nascer do sol e nele deposita todas as suas esperanças, de quem assiste a pessoa amada com a certeza de que fez de tudo para vê-la sorrir, Aurora representa a humanidade em sua mais plena consciência de si.

Murnau, sem dúvida alguma, soube depositar em cada cena desse filme um aspecto poético irretocável, mas para a maioria das pessoas de hoje, ininteligível. Em meio às reflexões pós-filme surgiu essa indagação: quantos de nós estamos realmente preparados para assistir e verdadeiramente compreender o que foi apresentado? Aurora trata do recomeço de um casal após uma traição, fala de um homem transtornado pelo pecado da carne que se arrepende e pede perdão, mostra uma jovem esposa piedosa que realmente conhece o sentido do casamento e o faz valer novamente. Sinceramente, a nossa atualidade apresenta o reverso de tudo isso, as pessoas assistem Aurora com desdém e realmente acreditam que a mulher não deveria ter perdoado o seu esposo.

Mas nem sempre foi assim, quando o filme foi produzido, em 1927, aquilo realmente fazia parte da vida das pessoas como uma verdade, nesse momento perguntas inevitáveis nos vêm à mente: por que mudamos tanto? Por que perdemos a capacidade de sinceramente perdoar? Com a ascensão das coisas terrenas o divino foi perdendo seu espaço e consequentemente as pessoas passaram a ser descartáveis. O filme deixa isso em evidência quando em uma igreja, em pleno casamento de outrem, esse casal se reconcilia renovando os votos do casamento. A importância de um casamento não está na comodidade de unir-se a alguém, um casamento requer coragem e sabedoria de que sozinhos não remamos o suficiente para presenciarmos o nascer do sol, é preciso fé para encarar os desafios das noites tempestuosas e não desanimar. As noites tempestuosas podem ser uma metáfora para todos os problemas diários que um casal passa, o amor entre homem e mulher por si só não vence os defeitos que cada um tem, é preciso Deus, é preciso amar o Amor para compreender os mistérios da eternidade e assim amar também os defeitos alheios que nos fazem sábios.

Aquele que assiste Aurora e compreende essa verdade não sai o mesmo da sala de projeção. Aqui a arte transpassa a alma e nos faz mais distantes das coisas terrenas.

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