A clínica do clichê

A clínica do clichê

23 de junho de 2017 // 0 Comments

A clínica deve manter a necessária distância do clichê. Ouvíamos que isto marca uma diferença do senso comum, lá atrás, de nossos professores, e depois, quando os testemunhos tornaram-se públicos, publicados, das pessoas que submeteram-se, por assim dizer, a um tratamento psicológico. O clichê, as frases prontas, o estereótipo, o cachimbo, o olhar compenetrado, todos os elementos que o psicólogo em formação imagina serem atributos, infelizmente, são vestidos posteriormente, e [...]

Um erro epistemológico da psicologia científica

16 de junho de 2017 // 0 Comments

A suposição de duas realidades distintas é bastante cara. A psicologia resolveu-se como ciência quando articulou esse tal mundo interno, mesmo Freud acabou por reforçar esta tese. Nós estaríamos, então, situados entre duas realidades: uma externa, o mundo, e outra interna, nosso campo inobservável ao outro. A primeira consequência disso é que ao outro é negado, ou atribuído elementos pertencentes ao sujeito. Assim, por exemplo, a teoria sexual infantil que diz ao menino que todos [...]

Estabilidade

16 de junho de 2017 // 0 Comments

Em um futuro não muito distante, o Reino da Banânia será citado como “O lugar em que tudo era feito pela estabilidade”. Aqui funciona assim: Gilmar Mendes julgou pela responsabilidade do judiciário, e não pela gravidade dos fatos. Ele e sua turma ignoraram as provas da ilegalidade da chapa Dilma- Temer pela estabilidade política. A fragilidade dos argumentos foi o contraponto perante provas massacrantes. Foi um julgamento político, mas justificado pela estabilidade do país. Não [...]

Funções contar e nomear

9 de junho de 2017 // 0 Comments

Wallon foi um psicólogo francês que se ocupou do desenvolvimento humano. Lá pelas tantas, em torno do oitavo mês, a criança, ele dizia, reconhece-se no espelho. Este estádio do espelho foi posteriormente apropriado por Lacan para trabalhar a formação do eu, e portanto, responder a uma teoria do narcisismo. Reconhecer-se ao espelho é um indicativo que a ciência utiliza quando pesquisa a consciência em animais: o elefante, os golfinhos, alguns macacos, gozam dessa qualidade. Hegel, [...]

A Um o que é de dois

24 de maio de 2017 // 0 Comments

O simbolismo carrega consigo a história, e não é à toa que o termo inconsciente coletivo, nomeado por Jung, caia tão bem. Há saber nos símbolos, e onde houver seus resquícios, suposto sujeito. A natureza fornece o significante, basta olhar para o céu, cabe ao sujeito interpretá-los. Onde se assenta o litoral do real ao simbólico existe um insabido fundamental, cujo intérprete se interroga, a respeito das origens, dos fins, dele mesmo, enfim; é onde se insere um significante [...]

A função contar

14 de maio de 2017 // 0 Comments

Supondo que você parta de algum ponto e siga por uma trilha. Ainda que essa trilha se converta num círculo, como saber que chegou ao ponto de partida? O único meio é ter deixado uma marca, um signo, no qual possa reconhecer de onde partiu. Só que ao reconhecê-lo você já estará na segunda volta, e contará a primeira em retrospecto. Da segunda à terceira poderá supor uma primeira, e no limite se reportará àquela volta que fez a trilha. Há então um a mais, ou a menos, que inaugura [...]

A pulsão e seus destinos

4 de maio de 2017 // 0 Comments

Freud definiu quatro destinos à pulsão. A pulsão é na economia libidinal aquilo que tem uma fonte: ela surge de uma zona erógena; tem um objeto: ela se dirige a contornar um objeto investido; uma finalidade: sempre a satisfação; e uma tensão (pressão): no sentido de uma moção que impele e a move. A pulsão difere de um instinto em muitos aspectos, ela funciona de modo a responder à linguagem, a satisfazer-se nela. Ela também alude a satisfações sexuais e ressoa no corpo. É [...]

O luto e a receita

28 de abril de 2017 // 0 Comments

O luto não é um processo patológico, no entanto, não há qualquer impedimento para o uso de medicamentos psiquiátricos nestes casos, e ademais, seu uso é trivial. O conceito de luto nunca foi na direção de algo a ser combatido, pelo contrário, as práticas ritualísticas convergem para uma economia que o intensifica e o promove. Por exemplo, o ritual de velar o corpo do ente querido funciona de modo a intensificar os laços com ele, operando como uma preparação para a despedida: a [...]

Topos do dito e dizer

7 de abril de 2017 // 0 Comments

Há, ao longo do tempo, muitas hipóteses concernentes ao sofrimento, às doenças. Desde a antiguidade se acreditou que forças divinas operariam em desfavor dos sujeitos ou coletivos. Ou então que espíritos causariam males. A medicina de Hipócrates explicava as doenças pela desregulação de fluídos corporais. Na idade média se perfurava a cabeça das pessoas para que esses fluídos evaporassem. Gall, notável neurologista, mapeou o cérebro conforme os contornos do crânio, atribuindo [...]

Mas há também outro tipo de gozo

30 de março de 2017 // 0 Comments

Não normalmente nos damos conta da precisão da linguagem. Por exemplo, quando Saussure fala que o signo sofre uma dupla articulação e o exemplifica numa superfície como uma capa d’água tendemos a imaginá-la como metáfora. Mas se o levarmos a sério, isto é, se o lermos literalmente, perceberemos que essa superfície é necessária à inscrição do signo, e que sem a qual, não há, precisamente, signo algum. É necessário então que o signo se inscreva em algo; não basta que [...]
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