2017 – O ano de Stephen King

 

O ano está acabando e se tivéssemos que apontar agora o grande nome de 2017 seria praticamente impossível não dizer Stephen King. Foram muitas adaptações e há planos para muitas outras em 2018, dado o sucesso (de público, crítica ou ambos) das adaptações desse ano. Mas deixa o ano que vem pra quando ele chegar e vamos nos debruçar sobre o que já rolou, que acabou de estrear ou que já está aí há bons meses. Pelas minhas contas aqui foram seis adaptações: quatro filmes e duas séries. Dois desses filmes são produções originais da Netflix e já estão disponíveis no catálogo. Além dos filmes, a série O Nevoeiro também está disponível. Essa semana vamos deixar de lado a adaptação de maior sucesso do autor (IT- A Coisa), bem como os dois grandes fracassos, o filme A Torre Negra e a série Mr. Mercedes. Vamos ficar no meio do campo (mais próximo ao sucesso no caso dos filmes e mais próximo ao fracasso no caso da série) e focadinhos na sempre democrática Netflix. Vamos do pior ao melhor.  O Nevoeiro já foi adaptado ao cinema e agora volta com subplots diferentes nessa versão estendida. Unânime, a crítica diz que esse alongamento faz com que a série perca o fôlego. O que, de fato, acontece. A premissa da série é muito boa: um tipo de neblina esquisita invade uma cidadezinha, matando quem se aproxima dela, sem deixar claro que o que as pessoas vem são alucinações ou sobrenatural, se é um experimento do governo ou intervenção divina, ou ainda a mãe Natureza cobrando nossas dívidas. Mas o esforço de fazer uma estória até certo ponto simples durar por temporadas faz com que a graça ou mesmo o pânico do desconhecido se esvaia.  Pelos primeiros três episódios a série funciona bem, mas a enrolação sem fim para se chegar a qualquer tipo de revelação sobre o que está acontecendo desgasta a atenção do público. Não que não se tenha revelações razoavelmente boas – o mesmo pode ser dito para os surtos de loucura ou grandeza de algumas personagens. O problema está em gastar tempo demais para se chegar a elas, o que de algum modo acaba gerando um foreshadowing, ou seja, os acontecimentos vão sendo telegrafados e a audiência os desvela muito antes do que deveria. Desgastada e com e a esperança de uma renovação para segunda temporada o final em aberto é outro balde de água fria. Se você não estiver a fim de conferir algo inacabado nem comece. O Nevoeiro não foi renovada. No final de setembro a Netflix lançou Jogo Perigoso, adaptação do livro Gerald’s Game, de King. Os dois primeiros atos do filme são genuinamente bons. A premissa: casal viaja a lugar afastado para testar novas fantasias sexuais, porém, no meio do jogo de sedução, com a mulher algemada a cama, o homem tem um ataque cardíaco fulminante. E é isso, Carla Gugino presa à cama sem saber como escapar, com a certeza de que morrerá de desidratação ou comida por um cachorro que entrou na casa. O cachorro, aliás, no melhor estilo Cujo, já entra comendo partes do marido morto. Presa à cama a mulher começa a alucinar diálogos com o marido morto e com ela mesma. Nisso somos apresentados tanto ao comportamento abusivo do marido, quanto a quem a personagem é. O desenrolar do momento traumático leva a personagem ao confronto com situações do passado, contadas em flashback, o ponto alto da narrativa. Boa parte do segundo ato é sobre o reavivamento do abuso sofrido na infância e a maneira como o abuso reverbera em todas as relações, inclusive com o falecido carcomido aos pés da cama. O confronto com os traumas do passado também servem como motor de força para que ela se livre das algemas. O último ato é a resolução dos conflitos. Independente da conclusão, Jogo Perigoso é um filme sobre abuso, sobre relações entre mulheres e homens abusivos, da infância à idade adulta. O problema do filme, o que não o deixa ser excelente, é o final, que dura cerca de quinze minutos a mais do que devia, lançado numa cafonice sem fim. Uma dica para a próxima tentativa do diretor: edição. O que nos leva ao ponto alto do mais recente universo de Stephen King na Netflix: 1922. A estória é a mais simples de todas, um homem assassina a mulher com a ajuda do filho, para impedi-la de vender a fazenda onde vivem. Mas o ritmo de 1922 é completamente diferente, é um filme de terror psicológico solar, com uma direção de fotografia bonita e interpretações incontestáveis, com destaque para o protagonista, Thomas Jane. Em última análise o filme fala sobre as consequências de cometer um crime terrível, um pecado.  Narrado em off pelo próprio protagonista, nos primeiros cinco minutos já fica claro que um crime foi cometido e nos primeiros dez ele declara que matou a esposa. A narrativa evolui para a destruição da relação com o filho, até que esse vá embora e chega ao clímax na loucura da personagem. O que a princípio e a julgar pelo trailer, poderia ser um suspense sobrenatural, se mostra um terror psicológico incrivelmente bem estruturado. O espiral de loucura que o mal gera, a presença violenta de ratos (reais ou imaginados), a culpa. Isso gera um filme que é muito mais estudo de personagem do que um festival de sustos, ainda que os sustos aconteçam em momentos pontuais e apropriados. Não vá esperando sentir medo e você terá uma das experiências mais interessantes com terror psicológico.

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