A ciência e a escrita do real

Há escritas não fonéticas, o chinês e os hieróglifos são exemplos disso. Freud também postulou um tipo de escrita que antecede a fala, uma vez que ela seria uma escrita da pulsão no aparelho psíquico, e que marcaria, portanto, em relação às diferenças de resistência, as possibilidades da memória escrever-se a partir do traço. Nós reencontraremos este tipo de escrita na linguística de Saussure, por exemplo, quando ele dota o signo de três dimensões: significante, significado, e barra. Esta barra, portanto, é da ordem dessa escrita. Lacan ao longo de seu percurso também se utiliza de recursos deste tipo: há esquemas, grafos, superfícies topológicas que servem a este fim. De um lado, portanto, ao definir o campo psicanalítico como o da linguagem e da fala, é inevitável que se recaia na presença da voz como um objeto, o que se coaduna bem a uma fonética, ou melhor, ao sujeito do inconsciente, e mesmo a um saber que não se sabe. No entanto, ao isolar o traço e circunscrevê-lo no limite da linguagem, não há razão mais em sustentar uma voz, conforme Derrida, mas sim um pensamento do traço. Deste modo, a escritura: aquilo que é não-fonética, é, em termos lacanianos, tomados emprestados certamente de Frege, ao modo de funções: “Função vem a ser esse algo que entra no real, que nele jamais havia entrado, e que corresponde não a descobrir, experimentar, cingir, destacar, deduzir, nada disso, e sim escrever – escrever duas ordens de relações.” Ora, de que se trata na ciência senão disso? Só que, aqui está a questão, a primeira ordem de relações não está na natureza, como se supõe, mas na matemática, para a qual a segunda é a língua materna. A matemática é, assim, uma escrita não fonética, para a qual Nilson José Machado reservou um ambicioso livro, onde a relaciona à língua materna. Ele, matemático, supõe que ela, a matemática, é a linguagem primeira, e portanto, deve ser traduzida para a língua materna. Estas ordens de relações, portanto, constituem o sentido. Mas por que parar aí? Ora, de um ponto de vista epistemológico, visto que a matemática de modo algum seria da ordem da existência, mas do campo da verdade, e do falso, a questão se renova, portanto, respondendo a uma lógica. Nestes termos, por mais coerente e rigoroso que seja, o discurso da ciência é tão mais próximo do real, quanto mais abster-se de sentido, ou seja, quanto mais for da ordem de uma escrita, feita, contudo, para não ser lida. Insisto nisso, é mais que evidente, basta que se tome a função do real, nos termos acima, como aquilo que é impossível de formalizar, o que dá, em outro tom, o nome da pulsão freudiana. O número é aplicável ao contexto, certamente, porque o contexto é relacionado ao número, e assim, desde Newton, se escreveu a natureza. Mas esta escrita, não há como ser de outro modo, é ela objetiva pela razão de ter sido tornada traduzível, pela função do pensamento (lógica). Se temos, por um lado, o limite da escrita do real no campo que definimos ser aquele da ciência, e portanto, embora ela negue, restrito ao traço, ao que chamaríamos de limite da função fálica, de outro, para além da transmissibilidade da língua materna e o sentido, a exemplo de Joyce, há lalíngua, modo fonético de exploração da não fonética, pois a deixa plenamente à deriva, isto é, denuncia pela negativa o limite de seu alcance, embora servindo-se dela. São plenamente concebíveis campos distintos da fala e da escrita, do real e do simbólico, da ciência e da natureza, por que não (pergunto à ciência) do traço e do sujeito? Não seria desejável que o cientista reconhecesse a variável na qual ele fosse a parte inconsciente do experimento? Não seria este reconhecimento, uma nova modalidade do fazer científico?

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

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