A espera…

 

Tenho escritório no centro da cidade e durante todas as semanas, os meses, os anos, quando venho para o trabalho, ou quando retorno para casa, percorro o mesmo caminho.
Hoje cumpri a mesma jornada. Dia quente de verão, a procura de lugar mais fresco para inibir os efeitos do calor é o natural. Noto que os cidadãos quando trafegam pelos passeios públicos, sempre procuram as eventuais sombras, sejam de árvores, sejam de marquises ou outras.
No meu trajeto de retorno à casa sempre me utilizo da rua Ipiranga, famosa via que serviu de pista de pouso para o famoso Capitão Kirk, primeira vítima de acidente aéreo nacional. Essa rua também é estigmatizada por iniciar na Avenida Getúlio Vargas e concluir aos portões do Cemitério Municipal na rua Clotário Portugal, à frente a estátua de Nosso Senhor Jesus Cristo de braços abertos tal qual a famosa que encima o morro do Corcovado na bela Rio de Janeiro. Certamente tanto uma quanto a outra com os braços abertos estão a acolher os fiéis.
Defronte ao Cemitério há uma frondosa árvore, próximo à entrada, há uma frondosa árvore e na sombra, um banco eventualmente destinado ao conforto de pessoas que participam de velórios de falecidos e outros, pois muito próximo à Capela mortuária.
No fim das tardes das semanas quando é findo o expediente, percorro toda a via e ao final ingresso na Clotário Portugal para ir para casa. E, quando me aproximo do final da rua, observo que sentados no banco na frente do Cemitério, próximo à Capela Mortuária, desfrutando da sombra da árvore, gozando das benesses da refrescante brisa que se desloca pela Clotário Portugal em direção ao São Cristóvão, estão três velhinhos, sentados sempre na mesma ordem. Apesar de passar rapidamente pelo local, observo que nas faces dos velhinhos, talvez pelo peso dos anos, pelas desilusões sofridas, estão patentes os sinais de tristeza, desânimo, desalento, de ausência de perspectiva de futuro. São fundos os vincos marcados pelo cansaço, pela tensão, pela preocupação dos muitos anos vividos.
Penso: três anciãos desalentados, sentados no mesmo banco, sempre na mesma ordem, defronte ao Cemitério, próximos à Capela Mortuária, estariam quem sabe em fila no aguardo?
Hoje, quando retornei do trabalho para casa, observei que dos três que se utilizam do banco, desfrutam das benesses da sombra e da brisa, apenas dois lá estavam sentados. O mais da ponta do banco e próximo da entrada do Cemitério, o primeiro da fila, estava faltando. Subitamente fui assaltado pelas questões: estariam os velhinhos sentados ao banco dispostos em ordem de saída? E no caso, aquela vaga no banco estaria para ser preenchida? Qual a condição essencial para preencher a vaga? São questões que não tenho interesse nas respostas, aliás pretendo ficar longe da fila! Amanhã espero conferir se a fila andou …

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