A febre do Oscar – parte 2

Eu, Tonya é uma comédia inspirada na história real da patinadora artística Tonya Harding, mais especificamente a partir do episódio em que as coisas saíram de controle e ela tentou aleijar uma de suas concorrentes, a também patinadora, Nancy Kerrigan. O filme bem poderia ser um drama, mas os tons sarcásticos e o clima de comédia de erros que o diretor Craig Gillespie imprime à película, bem como o não se levar a sério fazem dele o mais divertido, sem sombra de dúvida, de todos que assisti até aqui. Impossível não criar empatia com a personagem de Harding, por mais falcatrua que ela possa ser ou parecer. E há nisso muito mérito da atriz Margot Robbie, que prova a cada sequência de Eu, Tonya que realmente merecia coisa muito melhor que Esquadrão Suicida.
O primeiro ato do filme é inteiramente baseado na relação de Tonya com a mãe, LaVona, que a pressiona ao ponto da agressão para que ela seja não só uma excelente patinadora, mas a melhor patinadora. É possível que esse seja o melhor ato do filme, justamente por contar com a presença de Allison Janey, no papel de LaVona. Em uma atuação inspirada, Janey estende os limites do tolerável para uma vilã. LaVona é uma mãe abusiva, que agride a filha fisicamente, verbalmente e psicologicamente, algo que piora consideravelmente quando o marido vai embora. O brilhantismo de Janey está em construir, com pouquíssimas expressões, um monstro complexo, com contornos de humanidade e humor.
Os dois atos do filme se desequilibram um pouco, ao intensificar a comédia de erros, num caso real que virou um circo midiático à época de seu acontecimento. Após uma relação conturbada com a mãe, Tonya acaba por se casar com um marido também abusivo. Em uma relação de idas e vindas ele acaba tentando provar seu amor ao tirar de competição a maior rival da esposa. Nisso o que era pra ser um susto acaba virando uma agressão física que destrói o joelho de Kerrigan e todos eles, Tonya incluída, vão à julgamento. O filme é um pouco solto com a realidade dos fatos. Jornalistas que cobriram o evento quando tudo aconteceu afirmam categoricamente que o filme é pouco fiel. Mas esse não é o objetivo do filme que, novamente, não se leva a sério em momento algum, exceto no trabalho do elenco. Além de Janey roubar a cena, Margot Robbie carrega o filme todo nas costas, o que lhe rendeu uma indicação à estatueta de melhor atriz. O resto do elenco, apesar de não ter indicações, faz um bom trabalho de suporte à criação de Robbie.

E por falar em elenco, não tem como deixar de lado o franco favorito Três Cartazes Para Um Crime. O filme vai levar com quase absoluta certeza os troféus de melhor atriz e melhor ator coadjuvante. Merecidamente. Os trabalhos de Frances McDormand e Sam Rockwell são impecáveis. Além disso, Woody Harrelson – que também apresenta uma performance irretocável – concorre com Rockwell à estatueta de coadjuvante. O filme levou o prêmio de melhor elenco no SAG Awards. Existe uma lenda que diz que filmes que ganham melhor elenco não ganham o Oscar. Isso nem sempre é verdade e é provável que Três Cartazes Para um Crime prove isso. O único outro filme que tem chance de levar a principal estatueta da noite é A Forma da Água, mas isso não deve acontecer, com Guillermo del Toro levando o prêmio de consolação na forma do Oscar de melhor direção – o que já é um excelente prêmio. Os dois filmes concorrem diretamente em diversas categorias, como roteiro original, atriz, ator coadjuvante e filme.
Três Cartazes tem uma história simples, de uma mãe em luto e indignada por nunca terem pego o homem que sequestrou, estuprou e matou sua filha. Revoltada com a polícia local ela aluga três outdoors na saída da cidade e cobra justiça, fala da morte da filha e se dirige diretamente ao xerife local. Esse evento vai provocar uma série de outros, que nos mostram o quanto os seres humanos são criaturas complexas, capazes dos atos mais terríveis e ao mesmo tempo dos mais variados tipos de redenção.
Se Frances McDormand brilha como Mildred, a mãe, Harrelson e Rockwell fazem um belo trabalho de apoio, criando o primeiro uma figura mais empática, de um xerife que está morrendo de câncer e se sente mal por nunca ter conseguido prender o bandido que destruiu a vida de Mildred; e o segundo uma espécie de vilão com problemas mentais e um temperamento explosivo. Mas o fato é que o filme não se prende numa caçada por justiça, tampouco centra sua trama em personagens bons e maus. Em Três Cartazes todos são vilões e mocinhos em algum momento, uns nas histórias dos outros. A beleza do filme é nunca perder de vista o desenvolvimento de seus personagens, e tratar muito mais de ética e sentimentos humanos do que de justiça. O final aberto deixa mais clara ainda essa opção. Mérito do roteiro original, um trabalho precioso do também diretor Martin McDonagh.
Se Eu, Tonya foi o filme mais divertido que vi até aqui, com certeza Três Cartazes para um Crime é o mais bem construído, com roteiro, direção e elenco incrivelmente afinados. Vai sair como o grande premiado do Oscar 2018. E vai ser mais do que merecido.

 

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