A filósofa frente à barbárie

 

A cena é digna daqueles rincões de ignorância e barbárie que se tornam, dia após dia, cada vez mais raros no planeta. Enquanto uma filósofa mundialmente reconhecida, catedrática de uma das mais prestigiosas universidades da civilização ocidental, caminha cercada por seguranças fisicamente avantajados armados, uma multidão ensandecida vocifera palavras incompreensíveis entremeadas de saliva mal contida nas bocarras descontroladas, no momento unicamente utilizadas para exteriorizar um ódio extremo. Pretendendo apresentarem-se como defensores da moral e dos bons costumes, cidadãos pretensamente exemplares, ciosos de seus deveres e de seus lares, emitem palavras de baixo calão enquanto buscam expulsar do “seu” país uma das mentes reconhecidamente mais brilhantes de nosso tempo. Afinal de contas, é altamente duvidoso que qualquer daquelas pessoas possua capacidade intelectual suficiente para garantir aprovação nos rigorosos exames admissionais de Berkeley. Entretanto, senhores daquele tipo de verdade apenas admitida pelos néscios que rejeitam a simples possibilidade de estarem errados, batem-se, gritam, ofendem a figura que, à sua vista, tornara-se pecadora pelo simples fato de pensar e apresentar o fruto desta atividade que, para esta turba, com certeza deve parecer sumamente estranha, incompreensível, coisa do demônio. “Assassina de crianças” pode ser ouvido no áudio do vídeo. Tivessem algumas tochas à disposição, e estes viventes do século XXI certamente armariam uma fogueira para queimar o objeto de sua profunda aversão.Do outro lado, palavras não menos decorosas. Palmas. Ofensas ao grupo oposto. Vivas à desnorteada filósofa. Do embate, quase miraculosamente, não se contaram mortos, apenas um boletim de ocorrência por injúria racial. Palavras racistas formuladas, repito, em pleno século XXI. Centúria da tecnologia, da comunicação na velocidade da luz, e de racismos, teorias que contrariam a subversiva ciência que afirma que a Terra é redonda, de vampiros que tentam ressuscitar a escravidão, e de seres que ofendem pessoas pelo simples fato de postularem ideias diferentes das suas. Não importa que o ser supostamente pecaminoso tenha um título de doutor que os membros da choldra ignóbil que o ofende de modo algum teriam capacidade de conquistar. Possuem “a verdade”, e isso basta. Me imagino, cúmulo da presunção, no lugar da renomada filósofa. Sou convidado a dar uma palestra sobre democracia em um país longínquo, mas de modo algum desconhecido. Possui um grande território. Alguma fama esportiva. Há pouco tempo era conhecido por sua economia pujante e, veja só, por sua democracia desenvolvida. Não há o que dar errado. Se o pagamento não for bom, pelo menos terei a chance de dormir em um bom quarto de hotel e conhecer novas pessoas. Nada há que possa dar errado. Certo? Pois então. Pobre filósofa. Lançada sem meias palavras em um país que nunca foi lá muito avançado, justamente em um dos momentos mais retrógrados de sua não tão longa história. De um lado os que se acham no direito de ofender a tudo e a todos, não importa o mérito do oponente. Aqueles que querem falar, escrever, sem pensar por um segundo sequer que opinião pressupõe responsabilidade e reflexão prévia. Que a qualquer palavra emitida deve preceder uma pesquisa, mínima que seja. E que o repasse de asneiras também denota ausência de inteligência naquele que o pratica. De outro lado os que não entendem que a ignorância basta a si mesma, e que a justeza de motivação nunca é um valor acima de qualquer julgamento. O que é certo para mim, afinal de contas, pode não ser correto para outrem. E que a liberdade pressupõe, inclusive, a convivência com opiniões, na melhor das hipóteses, duvidosas. Em comum entre ambos, uma profunda incompreensão do significado mais simplório do termo “debate”, e um desprezo profundo pelos elementos mais banais de qualquer democracia, por mais mediana que seja. Que deve ter pensado a filósofa do que presenciou por estas terras? Terá voltado para casa classificando os brasileiros entre os mais avançados e intelectualmente capazes povos do mundo? Certamente não. Mas não é isso que me incomoda, particularmente. Todos são livres para formular suas próprias opiniões as quais, contudo, em lugares civilizados não são base para ofensas verbais ou físicas a quem quer que seja. O que me incomoda, na verdade, é o que este contexto de completo desprezo pela racionalidade humana gerará para toda uma geração. Não pode ser positivo que uma doutora renomada seja ofendida em espaços públicos por defensores fanatizados de uma determinada visão de mundo, qualquer que ela seja. Vivemos em um tempo no qual comportamentos que há dez anos seriam dignos de vergonha se tornaram rotineiros, e as pessoas parecem ficar felizes com isso. Que múmias trancadas há tempos nos armários de vez em quando sejam retiradas para ver a luz do sol é algo normal e até desejável, mas quando estas múmias se tornam mais barulhentas que os vivos, isto é algo que deve gerar alguma preocupação. Tenho escrito muito sobre retrocessos lamentáveis nos últimos tempos. Tenho carregado bastante em minhas investidas contra aquele que reputo, dentre todas as múmias retiradas do armário, a maior e mais malcheirosa: Nosferatu. Mas, em defesa do malfadado vampiro sou obrigado a reconhecer que sua existência e suas ações não constituem um fenômeno isolado. São, antes, reflexo de toda uma parcela da sociedade que parece feliz em trazer o pior da Idade Média para o tempo presente, completamente indiferente ao ridículo de sua proposta. Está cada vez mais difícil pensar em um país que ofende filósofas de alto gabarito. O fanatismo parece atingir a todos, se imiscuir em todos os espaços, todas as conversas. À direita e à esquerda. Não é mais possível discordar. Problematizar, então? De modo algum. A aderência é cobrada a todo segundo, por pessoas que nos importam e por aquelas que mal notamos a presença. O ar sufoca, o clima pesa. As relações se tornam penosas. Não estamos em um momento agradável. Mas é o momento no qual Judith Butler foi convidada a vir ao Brasil, e aceitou. Uma pena. Em nome dos seres realmente pensantes do país só posso pedir desculpas à eminente filósofa e afirmar que, sim, mesmo aqui existimos. Espero que um dia possa voltar e encontrar as coisas em um estado um pouco menos medieval. Até lá, contudo, só resta a vergonha. E a esperança em cada vez mais improváveis tempos melhores. Até a próxima.

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