A greve acabou. Completa-se mais uma volta na caixinha

E a greve acabou! Neste início de semana menos fria que a anterior, já está estampado nas primeiras páginas de todos os grandes noticiários do país e de alguns do exterior, em letras de triunfo, a notícia tão ansiosamente aguardada por todos os envolvidos. Nosferatu, acuado, cedeu a todas as pressões dos caminhoneiros que lograram paralisar o país. O diesel estará mais barato nas bombas já no próximo carregamento. Empresas do setor receberam incentivos variados, a depender de suas necessidades. Em alguns estados, como São Paulo, políticas de preços dos pedágios foram renegociadas – para caminhões, apenas e tão somente. Foi acelerada no Congresso Nacional uma lei que determina valor mínimo para os fretes. E… é isso! A greve acabou.
Antes de partir para minha breve análise, permitam-me afirmar, de saída, que estou feliz pelos caminhoneiros. Sim, eles merecem aplausos, palmas e apertos de mão por mostrar ao país como se faz para atingir os próprios objetivos. Como deve atuar todo aquele que veja seus interesses mais fundamentais atacados. Por ensinar à sociedade como deve agir todo aquele que se importa, que se afeta. Parabéns para eles. Poucas vezes vi um movimento grevista tão bem organizado, tão bem executado e, ao final, tão bem sucedido. Foi realmente uma aula, nada menos que isso! Suas conquistas foram mais do que merecidas! Políticos – inclusive de nossa região, empresários, população civil, muitos abraçaram sua causa. Atuaram a seu favor. Organizaram manifestações, doações, missas, piquetes. Foi realmente bonito de se ver. O exemplo dado deve ser gravado e assistido algumas vezes. Digo algumas, porque não tardará até a sociedade ter a chance de provar se aprendeu algo nos últimos dias.
Por falar em sociedade… Ah, a sociedade brasileira! Aqui entro no cerne de minha análise de hoje. Que ganhou com sua própria mobilização, a sociedade brasileira? O país mudou? Nosferatu foi varrido, como deve da vida pública? A corrupção diminuiu? Tá, vamos lá, ao menos o preço da gasolina e do álcool, combustíveis utilizados por todos aqueles que não possuem caminhonete, caminhão ou carro importado, foi diminuído na mesma proporção do óleo diesel? O que melhorou, neste fim de greve? Quem ganhou, enfim, com o término das manifestações? Qual foi o prêmio da mobilização de grandes setores da sociedade, inclusive de nossa região, em prol dos caminhoneiros? Mais uma vez, como em tantas outras, construíram-se heróis. Elegeram-se vilões. Muitos saíram em uma cruzada um tanto mal definida, para lutar por interesses que não eram os seus – a menos que fossem familiares de caminhoneiros, claro, e para estes estendo minhas congratulações dadas acima. Passada a tempestade, eis que as vidas voltam ao normal. Bandeirinhas de volta aos armários. Camisas amarelas de volta às lavadoras e secadoras – devem estar impecáveis para o início do mundial de futebol. E vida que segue. Exatamente como na metáfora por mim utilizada na semana passada, completa-se desse modo mais algumas voltas em círculos dos ratinhos na caixinha. Passada a apoteose, atingido o objetivo, hora de voltar ao normal.
Se tem uma coisa básica que a história nos ensina é que neste mundo não existem heróis e nem, tampouco, bandidos. O que há são bilhões de pessoas tentando atingir seus objetivos, viver do melhor modo possível, com os recursos que lhes é dado acessar. Toda e qualquer tentativa de eleger salvadores da pátria e párias exemplares que devem ser punidos exemplarmente só pode resultar em conquistas efêmeras e sem maiores efeitos, em larga medida beneficiárias de apenas alguns poucos que logram, com maestria, fazer com que muitos trabalhem e se manifestem a seu favor. Conquistado o objetivo dessa minoria tudo volta ao normal, como se nada tivesse acontecido. Os dias voltam a ser monótonos e aborrecidos. E os menos iludidos estarão se questionando sobre o porquê, afinal, de terem lutado tanto. Não podem ver os resultados da vitória, porque a luta não era, no frigir dos ovos, deles. Quando recebem algo são apenas migalhas do grande banquete. Eis o momento no qual se percebem manipulados, e precisam escolher entre duas possibilidades: ou tentam esquecer para não se aborrecer, ou se revoltam contra os aliados de outrora, isolando-se da grande e homogênea marcha nacional ditada pela ordem imposta a todos, em nome do progresso devotado a alguns. Benditos caminhoneiros que, ao conseguir dobrar esta lógica às suas necessidades ofertaram generosamente ao povo brasileiro mais uma valiosa lição de cidadania. Claro que contando com um tanto de manipulação por parte dos empresários do setor e dos sempre solícitos veículos de comunicação. Resta saber se, desta vez, a sociedade aprenderá alguma coisa com a aula dada. Baseando-se exclusivamente em sua trajetória histórica, sou levado a acreditar piamente que não…
Não se iludam, contudo, os incautos. O preço do óleo diesel foi diminuído à força. Valorosa conquista de uma classe profissional. Mas a conta ainda precisará ser paga. Dez bilhões de reais será o custo, já adiantam os economistas. Este dinheiro terá de sair de algum lugar. A famigerada PEC dos gastos públicos já foi aprovada, novamente com o aplauso de muitos que giraram em suas caixinhas até que a votação no congresso fosse favorável. Eis a lição de matemática ministrada por um historiador: em termos de cálculo não existe milagre. Não existem heróis que nos salvem. Se o número aumenta em algum lugar deve, forçosamente, diminuir em outro. Até porque os gastos públicos possuem, agora, limite (e ouço comemorações ao fundo todas as vezes que digo esta frase). Novamente, pela análise da história de nosso país, ouso dizer que já consigo prever com clareza onde estes valores serão compensados. Apenas me pergunto se, quando os professores entrarem em greve como acabam de fazer os caminhoneiros, receberão o mesmo entusiástico apoio da sociedade brasileira. Será, então, o momento de saber quais são as reais prioridades da nação. Sou historiador. Já vi e estudei numerosos momentos idênticos no passado. Infelizmente, acho que já sei qual resposta terei, na ocasião mais do que previsível, certa. Até a próxima.

 

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