A História paralela dos mal-intencionados

Juro que tentei. Juro! Havia prometido a mim mesmo que não mais falaria do governo federal, enojado que me sinto a cada vez que penso, leio ou escuto alguma coisa sobre esta sombra negra que se abateu sobre o país graças à vontade soberana da nação. Minha relação com a sociedade na qual nasci sofreu sérios abalos nos últimos meses, tão graves que, confesso, deixaram feridas que nunca mais serão curadas. Minha ideia para esta semana era outra: falaria da bela história de nossa região, de exemplos bem-sucedidos de educação em nossas cidades, comentaria sobre interessantes projetos de pesquisa e extensão desenvolvidos a pleno vapor. Mas não vai ter como. Meus planos terão que ficar para depois. Preciso escrever, mais uma vez, sobre os governantes que, quando se propõem a falar de História, atentam contra sua própria imagem. Não é possível qualifica-los de ignorantes. As asneiras indecentes que estes senhores – presidente incluído – tem a coragem de gritar aos quatro ventos são indignas de tal qualificação. Ignorantes não falam tamanhas sandices! Ignorantes cometem erros, não deturpações crassas que envergonham todo um grupo de intelectuais que vive, presentemente, a prova suprema de fazer parte de um povo representado por estes senhores. Sim, porque estudamos História por vinte anos com a preocupação máxima de apenas afirmar o que pode ser comprovado; utilizando-nos do mais estrito rigor científico na redação de livro, artigos e comunicações; tomando o máximo cuidado para narrar somente o que documentos e testemunhos nos contaram. Tudo isso para sentirmos a mais absoluta vergonha quando amigos estrangeiros comentam sobre as afirmações dos que governam o país em que nascemos em tom de espanto e deboche. Verdadeira prova de fortaleza emocional, esta a que estamos submetidos. Ou nos desvinculamos completamente, ou sofremos a dor da humilhação. Como escrevi acima, as feridas são profundas, doloridas, e provavelmente incuráveis.
Vamos direto ao que interessa, pois meus sentimentos pessoais contam pouco neste momento. É um pós-doutor em História que se vale destas linhas para, atônito, afirmar coisas óbvias colocadas em xeque por um grupo de mal intencionados. Em primeiro lugar: o nazismo não é e nunca foi um movimento de esquerda. Que os amigos leitores desculpem a franqueza, mas apenas seres que nunca sequer sentiram o peso de um livro sobre o tema – dentre as centenas já escritas em todo o mundo – podem defender tal absurdo. Amigo de historiadores alemães, é realmente doloroso constatar o modo como estes estudiosos pertencentes ao povo que sofreu com as atrocidades de Hitler e sua trupe encaram a simples formulação de tal ideia. Entre risadas e piadas, abundam questionamentos no mesmo sentido: “como vocês deixaram esse tipo de gente chegar ao poder?” Um pouco mais tarde, uma frase cirúrgica resume o ridículo da situação: “quer dizer que o seu ministro e o seu presidente querem saber de nazismo mais do que nós, alemães? Patético!” Óbvio que concordo plenamente com meu colega de profissão. É realmente patético. Mais do que isso: é vergonhoso. Que uma instituição como o Itamaraty, universalmente respeitada pela excelência intelectual de seus servidores, tenha de ser dirigida por um cidadão capaz de defender tal ideia, chega a ser uma afronta. Fico imaginando como ele se portará caso precise ir à Alemanha em missão oficial. Teria coragem de repetir tamanha sandice em plena Berlim? Sinto arrepios só em formular tal pergunta.
O chefe do grupo, de Israel, endossou o absurdo. Questionado sobre se também pensava que o nazismo foi um movimento de esquerda, disparou: “não há dúvida, não é? Partido Socialista, como é que é? Da Alemanha. Partido Nacional Socialista da Alemanha”. Lógica perfeita! Assim sendo, então, teremos de lembrar que o partido do preferido por setenta por cento do eleitorado brasileiro denomina-se Partido Social Liberal. Social? Como é que é? Descobrimos, assim, que os governantes do Brasil são, também, comunistas, segundo seu próprio raciocínio – ou falta de. Mas não para por aí. Claro que há, também, as pérolas sobre o golpe de 1964. Sim: golpe. Quebra da ordem institucional, regime de exceção, atos institucionais, desrespeito a direitos individuais básicos, perseguição, tortura, morte… Isto é ditadura. Não há outro nome. Uma mancha na história nacional, instrumento valioso de aprendizado para que a sociedade, unida, jamais permita que tal crime aconteça novamente. Crime comemorado pelo chefe de um governo que, insensato ao extremo, utilizou-se de veículo de comunicação institucional para divulgar vídeo enaltecendo o indefensável. Se é até difícil entender o que quer o presidente e seu ministro quando mostram a cara para afirmar sua teoria espúria sobre o nazismo (atacar a esquerda eu até entendo: afinal ela fez por merecer os ataques que recebe, inclusive de mim; mas fazer isso passando vexame em nível internacional é de uma falta de inteligência monstruosa), a trupe do Alô Criançada nem tenta esconder qual é seu objetivo toda vez que se manifesta sobre a ditadura civil-militar iniciada em 1964. Diminuir o peso de tamanha atrocidade e, deste modo, abrir caminho para a retomada de suas práticas e métodos.
O atual governo nunca escondeu a vontade de seguir este caminho; aliás (e aqui a ferida dói mais forte, lancinante, tirando a esperança ao coração) foi assim que ele foi eleito pela esmagadora maioria dos brasileiros. Os mesmos brasileiros que, como a História o mostra, efetivamente apoiaram o golpe desfechado em 31 de março. Neste ponto o vídeo institucional lançado pela Presidência da República está correto. O golpe não foi obra exclusiva dos militares, e defender tal ideia é igualmente tendencioso e mal-intencionado. Na verdade, se o Brasil gozou de um regime democrático entre 1946 e 1964, deve agradecer aos oficiais que garantiram a posse de Vargas em 1950, de Juscelino Kubitschek em 1955, e de João Goulart (pois é!) em 1961. Historiador de verdade não vira o barco para o outro lado, apenas conta como estão as ondas. Uma ditadura só pode sobreviver por duas décadas quando conta com o apoio, ao menos, de numerosos setores da sociedade sobre a qual se abate. No Brasil não foi diferente. A responsabilidade pelo ocorrido, portanto, é de todos os brasileiros, e não apenas dos militares. Por isso que se diz: ditadura civil-militar. Ainda assim, ditadura. Violenta. Absurda. Reprovável. Sem possibilidade alguma de revisionismo. Afinal de contas, fatos passados não podem ser mudados. A vida seria muito mais fácil se pudessem, convenhamos. O que obriga qualquer pessoa minimamente atenta a questionar-se sobre os objetivos daqueles que tentam mudar a visão que temos destes fatos imutáveis. O problema, contudo, é que a mesma sociedade que apoiou 1964 e elegeu o atual governo não está atenta. Ou prefere fingir que não está. Vai ver é como dizem: ele não está falando sério. Não é racista. Não é homofóbico. Não é misógino (afinal ele “escuta até a Damares”, vejam só). E os alemães, obviamente, não sabem tanto quanto nossos governantes sobre o período mais traumático de sua própria trajetória. A insanidade é tão grande, os absurdos são tão numerosos, que começo a me questionar sobre quais substâncias andam colocando na água que bebemos. Sua contaminação seria, ao menos, uma resposta racional entre tanta irracionalidade. Tomara que na próxima semana eu possa escrever sobre amenidades e História regional. Pequenos e simples desejos, tão significativos e valiosos em tempos caóticos. Voltarei a ler Franz Kafka. Até a próxima!

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