A MELHOR MANEIRA DE

Crônica de uma morte anunciada

 

Aproprio-me do título do livro do grande Gabriel Garcia Márquez, recentemente falecido, para concluir a trilogia de crônicas, iniciada com Vou pra rua e vejo a tempestade, seguida por, Cadranno mille petali di rose e encerrada agora com Crônica de uma morte anunciada, nas quais registro minha saída da então Fundação de Cultura de União da Vitória, em agosto de 2013.
Fui convidado pelo senhor Pedro Ivo Ilkiv para permanecer na presidência da Fundação de Cultura, ainda durante sua campanha eleitoral, no aniversário de meu amigo Ezimar Santos, na Associação da Madeireira Miguel Forte, em 21 de agosto de 2012, na presença de mais de100 pessoas. O senhor Ilkiv disse, “enquanto eu for prefeito, o Delbrai será o responsável pela cultura em União da Vitória”. Voltaria a reiterar isso, também durante sua campanha e também ao lado de seu vice, Jair Brugnago, em minha casa, para cerca de 20 pessoas. Essa fala do senhor Ilkiv, minha amiga e cunhada Rita Schwab ainda tem gravada em seu celular. O senhor Ilkiv voltaria a enfatizar que eu seria o responsável pelos rumos da cultura durante seu governo, no jantar de confraternização da Fundação de Cultura, em dezembro de 2012, novamente, na presença do senhor Brugnago, e, de cerca de 30 pessoas.
Depois de empossados a conversa do senhor Ilkiv e do senhor Brugnago, começou a mudar. Sob a justificativa de contenção de despesas até julho de 2013, não permitiram a continuação de dois importantes projetos: as aulas de grafite e consequente trabalho em diversos muros e paredes de prédios públicos, como por exemplo, o do IAP e as aulas de teatro, dissolvendo assim a Cia Estação de Teatro, que já existia há quase quatro anos.
Como em março é o aniversário da cidade, expus ao prefeito e seu secretariado a ideia que tinha para a programação cultural alusiva à data. Muita gente opinou e ouvi inúmeros despropósitos de pessoas que nada entendiam do fazer cultural. Comecei aí a perceber que a realidade era outra, bem diferente da vivida com os ex-prefeitos Hussein e Juco, que delegavam poderes e confiavam plenamente na capacidade de seus comandados.
E foi, exatamente, em março de 2013, que criei o projeto O Canto de uma Cidade, que dava voz a interpretes locais e ainda repatriava ilustres músicos da cidade que trabalham, profissionalmente, em outras cidades, como Sandro Guaraná, Marcos Saldanha e Murilo Damasceno. A primeira edição do projeto além de homenagear a cidade, prestava tributo ao centenário de nascimento de Vinícius de Moraes, e, aos 55 anos da Bossa Nova. O senhor Ilkiv em seu discurso de abertura do projeto enfatizou a necessidade da produção da chamada cultura popular, a mass Cult, quase não se reportando ao que ali estava acontecendo. Pensei com meus botões, que teria dificuldades em, naquele momento, promover a mass Cult, pois eu estava sem meus dois pilares para isso, Thiago Moreira e Edvone Cardoso, que, respectivamente, tocavam o Artetude e a Cia Estação de Teatro. Era o início da Crônica de uma morte anunciada.
O anúncio começou a tomar efetivo corpo durante a segunda edição de O Canto de uma Cidade, com Beto Bona Canta Roberto Carlos. Chamei o Beto e lhe propus a ideia, pois sabia que ele sempre gostou de interpretar canções de Roberto Carlos e o faria com maestria. Propus um repertório de coisas menos batidas do Rei e Beto propôs algumas pequenas modificações, chamou uma banda para acompanhá-lo, composta por Ricardo, no baixo, Paco, nas gaitinhas de boca e Joãozinho, na bateria e se pôs a ensaiar. Eu e Beto, com a total anuência da banda, decidimos transformar o valor arrecadado, em donativos para instituições de caridade locais. Mas quais seriam tais instituições? Pedi auxílio para a secretária municipal de Ação Social, senhora Mônica Barcelos do Amaral, esposa do senhor prefeito. Após alguns dias recebi um ofício da aludida senhora, enumerando as principais instituições de caridade de União da Vitória. Encabeçavam a lista a Acardi e o Abrigo Santa Clara. Após a memorável apresentação de Beto e sua banda, coadjuvado na bela, alegre e ao mesmo tempo melancólica, Jovens tardes de domingo, por Sol Kasteller e Sara Côrrea, nos baking vocais, entrei, pessoalmente, em contato com os dirigentes dessas instituições e verifiquei que na Acardi as preferências recaiam em aquecedores e, no Abrigo Santa Clara, em aquecedores e uma secadora de roupas. Fizemos um levantamento de preços nas lojas locais e marcamos a data da entrega, quando Beto também faria uma pequena apresentação aos internos das instituições. Convidei o senhor prefeito e seu vice e também a senhora secretária de Ação Social para nos acompanhar, nenhum deles foi, e, nem sequer se pronunciou a respeito.
Na Acardi, fui eu, Beto Bona, Alessandra Krenski, servidora da Fundação, que fez o registro fotográfico e Beto Rosa, que na época também trabalhava na Fundação, e, que logo após minha saída foi demitido. Apresentação emocionante, encerrada com a emblemática O Homem, que também havia encerrado a apresentação no teatro. Após o término da breve apresentação, Frei Pedrinho nos brindou com um delicioso café. Ficamos ainda mais emocionados e saímos gratificados. No dia seguinte foi a vez do Abrigo Santa Clara. Novo convite às mesmas autoridades, nova ausência.
Desta vez, fomos os mesmos do dia anterior, acompanhados pelo repórter da TV Milenium, Antônio Budal. A apresentação foi ainda mais emocionante, com Beto, num momento de inspiração e fina sensibilidade interpretando a canção de Roberto Carlos em homenagem a Nossa Senhora, cujo refrão foi acompanhado também pelas internas. Belíssimo e um dos momentos mais emocionantes em meus 10 anos, de Fundação. Beto como que ungido, terminou a apresentação, homenageando todas as mulheres, com Lady Laura. Nenhum de nós resistiu à comoção daquele instante mágico e somos tomados por lágrimas. A música, realmente, liberta, tanto que algumas das internas que no início nem sequer queriam ser filmadas acabaram de forma espontânea, concedendo entrevista a Budal. Saímos ainda mais gratificados e no caminho de volta lamentamos a ausência do senhor Ilkiv e das demais autoridades convidadas.
Estava aí mais uma vez, a Crônica de uma morte anunciada.
Oportuno lembrar que em abril daquele ano havíamos lançado no CEEBJA, o projeto Primeiras Leituras, que consistia em levar uma pequena biblioteca, naquele caso cerca de 70 livros, para determinados locais, objetivando estimular a leitura e criar novos leitores. Convidei na época o escritor curitibano, Luis Felipe Leprevost, para vir debater naquela noite, seu então mais recente livro, E se contorce feito um dragãozinho ferido e a dramaturga e diretora de teatro, Nina Rosa Sá, conhecedora da obra de Leprevost, para mediar a discussão. Ambos aceitaram o convite e vieram importante frisar, sem nenhuma espécie de cachê. Novamente convidei os senhores Ilkiv e Brugnago, que mais uma vez não foram. O senhor Ilkiv designou para representá-lo, o senhor Célio Kalikoski, secretário de educação do município. O senhor Kalikoski se absteve de fazer uso da palavra, alegando que não havia preparado nada. Será que é preciso para um educador, mais do que isso para um gestor educacional, preparar algo para falar da importância da leitura? Aí também já era a Crônica de uma morte anunciada.
No dia 17 de agosto, exatamente, uma semana após o falecimento de meu tio, meu grande amigo e um pouco meu pai, René Linhares Augusto, promovemos, mais uma vez no Cine Teatro Luz, a terceira edição de O Canto de uma Cidade, desta vez com Elas Cantam Chico Buarque. Elas eram: Luciana Bonato, Lenize Mielke, Sara Côrrea, Sol Kasteller e Jô Nunes. Dediquei três meses à pesquisa do repertório do Chico menos contestador e com um olhar mais dirigido às mulheres e cheguei às canções que compuseram o antológico espetáculo, cujos arranjos foram de Murilo Damasceno e Sandro Guaraná. Mais uma vez nem sinal dos senhores Ilkiv e Brugnago e o título do livro do grande Gabo, continuava a me perseguir.
Mas é preciso voltar ao falecimento de René Augusto, totalmente, ignorado pelo senhor Ilkiv, dirigente máximo do município. É de notório conhecimento que minha família nunca foi simpatizante do PT. Meu avô Dídio Augusto era um histórico udenista, assim como todos os meus tios. Mas independente de cor partidária, primeiro René Augusto era membro da família de um secretário municipal do senhor Ilkiv, e, segundo, envergava mais de 50 anos, no jornalismo local, em nosso sexagenário Caiçara. Enquanto o prefeito de Porto União, Anízio de Souza, também do PT, compareceu ao velório, e no dia seguinte ao sepultamento, e também enviou à nossa família Voto de Profundo Pesar, assim como a Câmara Municipal de Porto União e a Câmara Municipal de União da Vitória e aqui é preciso salientar que proposto, pelo vereador Daniel Rocha. O senhor Ilkiv e o senhor Brugnago, se mantiveram em silêncio, ignorando dois princípios basilares da vida humana, o respeito e a solidariedade, isso sem falar no reconhecimento. Respeito e solidariedade, porque eu presidia uma Fundação Municipal, e, reconhecimento porque René ao contrário de alguns ilustres desconhecidos que compuseram o primeiro governo do senhor Ilkiv e de quem nunca mais se ouviu falar, tinha, como já disse, dedicado 50 anos de sua vida, ao jornalismo local.
Uma semana depois de Elas Cantam Chico, foi a vez do Tributo a Dark Side of the Moon, mítico disco da banda Pink Floyd, que completava 40 anos. Teatro lotado, iluminação e vídeos psicodélicos e uma fantástica banda de 11 músicos da cidade, fizeram um show antológico, claro que sem a presença dos senhores Ilkiv e Brugnago.
Minha morte que vinha sendo anunciada, provavelmente, desde o primeiro dia do governo do senhor Ilkiv, estava quase decretada, o que aconteceria na manhã do dia 27 de agosto, quando eu em meu último ato como gestor cultural, estava na Escola Pedro Stelmachuk ao lado do maestro Marcelo Storck e seu quinteto, em uma apresentação didática que marcaria o reinício dos projetos Primeira Audição e Estação da Música. Recebo uma ligação do gabinete do senhor Ilkiv, solicitando minha presença. Explico que estou em meio a um concerto e solicitam então para que eu vá às 13h30.
Vou e recebo, finalmente, o que se anunciara desde 1º de janeiro, minha morte como gestor cultural, contrariando o que o senhor Ilkiv havia dito por três vezes e em diferentes lugares, provavelmente, inspirado não por Garcia Marquez, mas por Alberto Roberto, personagem criado por Chico Anysio e que dizia: “palavras são palavras nada mais do que palavras”.
Quanto a mim, encerro, definitivamente, esse assunto, admitindo minha escolha no mínimo precipitada, ao acreditar no senhor Ilkiv. Cabe como mero consolo, evocar o adágio popular, errare humanum est pois eu, ao contrário do Ulisses na Odisseia de Homero, não estava acorrentado a meu barco e fui atraído pelo canto das sereias.

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