A política do ódio toma conta da nação

Tiros. Eis que acordo hoje, quarta feira e, ao pegar o jornal, me deparo com a notícia um tanto óbvia – ao menos para mim – de que a caravana de um conhecido líder político foi atacada com dois tiros na saída da cidade de Quedas do Iguaçu, Paraná, aonde até então havia desfrutado de um momento de tranquilidade raro na tumultuada campanha que faz pelo sul do país. A coisa não para de piorar. E ainda estamos muito longe do fundo do poço.
Quem acompanha assiduamente esta coluna sabe que pelo menos desde o final do ano passado estou prevendo um ano muito difícil para todos nós no campo político. Detesto afirmar que, mais uma vez, as previsões se mostraram corretas. Mas nem tem como não serem. Tudo apontava então, e agora mais que nunca, para uma radicalização completamente incompatível com qualquer valor democrático mais elevado, e a tendência continua sendo de piora. O conhecimento da história do país é algo que todos os cidadãos conscientes deveriam cultivar. Ou não temos cidadãos conscientes em nossa sociedade, ou estes simplesmente estão ocupados demais para se preocupar com coisas tão sem importância. E, com isso, mais uma vez os erros vão se repetindo não por culpa da história, que não se repete jamais, mas sim daqueles que insistem em bater a cabeça na parede inúmeras vezes. O resultado deste processo é simples de prever, e como estou confiante por meus acertos anteriores, lá vou eu brincar de Mão Dinah de novo para prever o óbvio: caminhamos a passos largos para uma situação impossível de se resolver nas eleições de 2018. A democracia encontra-se cada vez mais acuada, sem ter quem a defenda e sem armas para fazê-lo sozinha. E por defender a democracia, deixa eu explicar com calma para que não me façam amigo de ninguém sem meu consentimento, não quero dizer defender partidos, políticos ou ideias em particular. Não, participar de caravanas e paralisações ordenadas pelo PT não é defesa da democracia. É defesa do PT. Não, jogar ovos e dar tiros na caravana do PT não é defender a “moral e os bons costumes” (seja lá o que este termo infeliz queira dizer), é assinar um atestado claro de barbárie e falta de valores cívicos básicos, um crime, quando se trata dos tiros. Defender a democracia é defender o diálogo e o debate franco no qual não há imposição de valores nem tentativas de conversão; o respeito ao próximo enquanto ser pensante. Defender a democracia é defender, acima de tudo, a moderação e o bom proceder. Um fanático jamais pode ser democrático. Um desprovido de inteligência jamais pode ser democrático. Eis a dificuldade do momento atual: estamos cada vez mais acossados por fanáticos e desprovidos da mínima inteligência.
Tentarei ser claro para que não me entendam errado. Hoje, ao contrário do que comumente faço, não me divertirei caso os ditos de direita lerem nestas linhas um manifesto de esquerda e os ditos de esquerda enxergarem nele uma prova contundente de que sou reacionário. Dar tiros em veículos tripulados, sejam eles ônibus, carros, vans, aviões, bicicletas, camelos ou chinelos, é um absurdo. É um crime. E não adianta afirmar, como vários farão – ainda não fizeram enquanto escrevo estas linhas, mas é, de novo, óbvio que farão, como óbvia é a gravidade do momento que vivemos – que os tiros não foram para matar, foram apenas na parte de baixo do ônibus, que estão fazendo uma tempestade em copo d’água. Tais argumentos apenas demonstram a falta de inteligência a qual me referi anteriormente. Atirar em veículos tripulados é um absurdo inominável. Ponto. Não interessa o motivo. Agora, atirar em veículos baseado nas ideias defendidas por seus ocupantes, é crime contra a democracia. Tratam-se de pessoas que, ao contrário do que pensam, não são honestas, não são bons pais de família, não são dignas de respeito. São criminosas dignas de cadeia, como elas próprias gostam de dizer. Jogar ovos nos outros recebe o atenuante de não provocar ferimentos, não machucar ninguém. Mas é, no mínimo, mal-educado. E também é um ataque à democracia.
Do mesmo modo, ao contrário do que vários gritarão aos quatro cantos – estes já começaram a fazê-lo, rápidos que são – não foi um ataque homicida. Não se trata de uma caçada para matar o salvador do país. Não estamos diante de um ataque coordenado das forças reacionárias, lideradas pelos Estados Unidos (sempre!) para acabar com o único movimento defensor da soberania nacional. Foi, sim, um ataque à democracia, como escrevi acima. Foram sim, uma sucessão de provas da falta de educação e de valores elevados de nossa sociedade, os ataques à campanha realizada na região sul do país. Mas transformar isso em uma guerra civil, clamar contra a sanha assassina dos adversários, apontar mais uma vez um cidadão condenado como a inocente vítima de verdugos cruéis e sanguinários tampouco é defesa da democracia, mas ataque à mesma. Leva à radicalização de lado a lado. Não ajuda, definitivamente. Aliás, ainda me lembro claramente dos discursos do então presidente da república cravejados de frases como “a classe média não aceita que pobre ande de avião”, e não consigo segurar um sorriso quando vejo os defensores desta agremiação política apresentando-se como as supremas vítimas de uma radicalização política causada única e exclusivamente pelas ações de seus adversários. Triste. No limite, patético!
Por tudo isso e muito mais, caros leitores, segurem-se: estamos muito longe do fundo do poço! E, a continuarem as coisas como estão, não serão as eleições que nos tirarão do lamaçal no qual estamos, voluntariamente, nos afundando. A menos que surja um candidato capaz de acalmar ambos os lados – e ele não surgiu até o presente momento, que fique claro – não consigo ver como, no atual estado de coisas, a democracia possa sobreviver a tantos e tão reiterados ataques. Ela agoniza, desde 2016. Quando os ditos defensores da moral e dos bons costumes levaram a cabo uma das manobras mais imorais de que tenho memória. Após anos de comprovada corrupção dos até então campeões do combate à malversação dos cargos e recursos públicos. Assim, de fato, fica difícil a democracia resistir. Tomara que, pelo menos desta vez, eu esteja errado. Até a próxima!
EM TEMPO: Parabéns União da Vitória, por seus 128 anos de história. A coluna de hoje seria, originalmente, sobre esta cidade que tão bem me acolheu e que já conta com meus mais ternos sentimentos, mas, novamente, os atropelos do trágico cenário nacional impuseram outros temas. Mas tudo bem, outros aniversários virão. União da Vitória existirá ainda por muitos séculos, sempre deslumbrante e bela. Minha justa homenagem à sua gente ainda resta por ser feita, constituindo dívida que não será jamais esquecida! Parabéns, meus queridos vizinhos!

 

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