A substância gozante

Descartes propõe duas substâncias: res cogitans e res extensa. Assim como Aristóteles nos soa intuitivo, algo que parece que sabemos sem nunca o ter lido, é difícil pensar fora destas categorias que nos foram transmitidas, indiretamente ou não, pois elas alicerçam os saberes dos mais diversos campos. As duas substâncias cartesianas distinguem-se de modo análogo ao entendimento relativo à alma e ao corpo: uma é pensante enquanto a outra é sua extensão, espacial se poderia dizer. Fica pouco evidente à primeira vista que para se conhecer a matéria, res extensa, necessariamente é preciso o intermédio da coisa pensante, pois o que está em questão em seu método é o conhecimento verdadeiro, e o conhecimento verdadeiro só se dá através da dúvida. É pela dúvida, portanto, que se tem certeza de se estar pensando. O sujeito suposto em Descartes é epistemológico, seu interesse é no conhecimento, logo, não há uma interrogação referente senão a isso. O encaminhamento freudiano segue as mesmas linhas: Freud enxerga um sujeito (um desejo) justamente onde ele tropeça, se trai, fica em dúvida. Nesta divisão, seu método se distancia do cartesiano, e seu interesse se desloca do sujeito do conhecimento para o sujeito do inconsciente, posto que ele deseja, e o que deseja, revela não saber. É neste fio que a clínica postulara um método que favorecesse esse surgimento, Freud o chamou de associação livre, e consistia, segundo ele, em dizer tudo o que vem à mente do analisando. Só que, disse Lacan depois, não se pode dizer tudo. Com efeito, a verdade não pode ser dita, toda, é constituinte do sujeito o limite ao saber. Neste sentido, o discurso do analista, se situa de modo diverso: seu agente é um objeto que o causa, operando no outro, sujeito dividido, de modo a produzir significante mestre (S1), para efeitos de nomeação são seus ditos, ditos que remetem ao objeto, e que resultam num saber no lugar da verdade, mas um saber que não se sabe. A partir desse saber opera uma repetição, posta à prova na análise, atualizando ali um gozo, não um conhecimento. Este gozo, Freud buscava suas raízes na fantasia, e compreendia que, uma vez tornada consciente a frase que o arma o sintoma decorrente desaparecia. Como não se pode dizer tudo, e ainda mais tudo o que se pensa, fica desvelado que o método freudiano não visava o pensamento, e portanto, não é seu objeto a res cogitans. Muito embora ele afirme que o inconsciente pensa, a exemplo do sonho, seu interesse é no significante, e não na coisa em si, sonhada. Logo, se a causa material do gozo não é o pensamento, mas o significante, é necessário postular uma terceira substância, chamada de gozante, por Lacan. Lembremos que Freud, de saída, nos três ensaios sobre a sexualidade, compara a libido à fome. A libido tornou-se sinônimo de energia sexual, em Jung de energia mental, porque a pulsão já estava inscrita no aparelho como um traço. Entretanto, se lermos a pulsão como um dado de ordem biológica, estaremos procurando num quarto escuro, um gato preto, que não está lá, como se referia Voltaire à metafísica. Mas, se seguirmos o campo aberto pela psicanálise, compreenderemos que a pulsão, sua definição o exige, conhece a gramática, causa formal do gozo. Então isto implica que o corpo simbolize, – e aqui a fantasia, a repetição, a transferência, a pulsão, e o recorte sob os modos de objeto a (o olhar/ser olhado; o invocante/ser invocado; o reter/expulsar; e o incorporar/ser incorporado) – simbolize o gozo do Outro, inaugurando uma dimensão completamente diversa daquela que postula os cinco sentidos aristotélicos por onde o conhecimento é apreendido, numa dialética que permite à clínica operar, justamente, porque ao falar ao analista (objeto a) o falante materializa este gozo no lugar do Outro.

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

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