Admiráveis mundos novos!

Caros leitores. Começarei nossa conversa pedindo sinceras desculpas pela incomum euforia que se apossa de mim enquanto escrevo estas linhas, mas é que hoje, finalmente, entendi que vivemos em uma era única. São dias maravilhosos, fantásticos, francamente incomuns os que correm atualmente. Tempos nos quais um dos maiores sonhos da humanidade foi alcançado, nos quais podemos dizer que, finalmente, podemos ser o que quisermos, e moldarmos a realidade ao nosso redor ao nosso bel-prazer. Sim, inapelavelmente vencido pela força irresistível dos fatos, eis que me curvo humilde as suas expressões mais gloriosas, me confesso completo ignorante das características mais comezinhas dos desígnios superiores que regem a existência humana e, estupefato, me deixo ficar boquiaberto, surpreso, absorto a contemplar o singular espetáculo da construção incessante e incansável de realidades alternativas, moldadas sob medida para os desejos, as virtudes e, principalmente, para os defeitos mais inconfessáveis de grande parte da sociedade. Certamente nunca fomos tão felizes. Nunca fomos tão completos. Agora sim, é possível afirmar, o mundo nos pertence. Atingimos a plena realização de nossos esforços multimilenares para tornar o planeta digno de nossa presença. E de um modo que – suprema maravilha! – não requer qualquer esforço físico, nem mesmo um simples impulso de raciocínio livre e inovador. Ao contrário, exige dos felizes habitantes deste início de século XXI uma capacidade ímpar para desativação temporária das ligações neurais responsáveis pela crítica e pela observação responsável.
Sim, amigos leitores, as boas notícias parecem não ter fim! Finalmente nos tornamos capazes de transformar sem pensar. Não mais escolas. Não mais livros. Matemos sem dó nem piedade todos os mestres, os intelectuais, os doutores. Não são mais necessários! Nos tempos que correm podemos ser o que quisermos e viver na realidade que desejarmos nos valendo apenas e tão somente de nossos computadores. Que estejam em mesas, sofás, colos, bolsos ou mãos ávidas a tocar pequenas telas de vidro curvado não importa. O central é que estejam ativos. Estejam conectados. E sejam capazes de replicar rapidamente. Textos, fotos, vídeos, memes… não importa. É preciso replicar. O mais rapidamente possível. Quanto mais contatos atingidos por nossa realidade alternativa, melhor. Nosso mundo se tornará maior. Nossa realidade se tornará mais forte. Teremos mais amigos, e eles nos serão fiéis. Se não concordarem com nossos termos, não são nossos amigos. Vivem em outros mundos, outras realidades. Que sejam abandonados, esquecidos, virem alvo de nossas piadas maldosas, o cimento fundamental para consolidação de nossa comunidade depurada. Não precisamos de pessoas que chamem a atenção para o absurdo de nossas certezas, não queremos pessoas incapazes de desligar seus cérebros, não gostamos de contestações a nossa realidade tão ciosamente criada e tão rapidamente distribuída. Isso vai contra nosso ideal de casa perfeita. Macula os tempos maravilhosos em que vivemos. Viva o Facebook! Viva o WhatsApp! Realmente não sei como não havia percebido antes o poder transformador destas ferramentas que, virtuais, quando ciosamente utilizadas podem transformar nosso mundo de um modo tão real. Benditos dias que correm!
A coisa toda é tão maravilhosa, na realidade, que finalmente podemos dizer que chegamos a um novo patamar da democracia política e social (infelizmente a democracia econômica ainda não é possível, a despeito dos esforços incansáveis de devotadas comunidades em criar e disseminar realidades alternativas nas quais ela está a apenas um passo de nós, quase a tocar a ponta de nossos narizes, na verdade). Sim, com certeza chegamos! Afinal, como classificar tempos nos quais temos a chance não apenas de escolher a realidade na qual queremos viver, mas mesmo de criar a nossa própria oferecendo-a nas prateleiras intermináveis de universos relativos das redes sociais? Os passos são realmente simples, qualquer um pode segui-los. Primeiro, é preciso saber escrever. Sim, pequeno incômodo dos tempos modernos que o desenvolvimento posterior do sistema certamente se encarregará de eliminar. Não se preocupe com correção ortográfica ou gramatical, contudo. Elas não são necessárias! Afinal, lembre-se, queremos eliminar os mestres e doutores, aqueles insuportáveis que pensam e escrevem corretamente. Seu mundo é só seu, neste momento. Escreva, portanto, do modo que bem entender e com erros que serão sua marca registrada. Na descrição de sua realidade alternativa, ponto central, é preciso que alguém seja o responsável por males reais ou imaginados que o afligem. Não importa que não haja meios de provar a culpa. Se ela é apontada obviamente existe, pois sua realidade estará, em breve, no Facebook ou no WhatsApp e, portanto, não poderá ser contestada. Culpe sem dó nem piedade! Aquele barbudo sem dedos foi o responsável pela extinção dos dinossauros! Aquele juiz sem vergonha manobrou vergonhosamente para condenar Jesus e de quebra soltar Barrabás, parceiro inseparável de suas falcatruas! Hitler? Mero personagem criado por aquele canal de televisão inventor, também, da febre amarela e da torcida do Flamengo! Enfim, solte sua criatividade, afinal esta realidade é só sua, pelo menos até começar a ser consumida por seus amigos e pelos infelizes amigos de seus amigos, que serão obrigados a receber seu mundo concebido com o esmero de um bêbado de botequim como um presente indesejável em sua timeline ou naquele grupo do qual adoraria sair, mas não o faz por receio de magoar aqueles que importam – entre os quais você não se inclui. Em breve seu texto ganhará o mundo! E você terá contribuído para os tempos maravilhosos nos quais vivemos. Ah, como fui inocente, ignorante e arrogante! Se eu tivesse previsto há vinte anos o que viria, teria desobedecido minha mãe e abandonado os estudos. Assim seria também capaz de, hoje, criar minhas próprias realidades alternativas e torná-las reais através do incrível poder transformador da internet mal utilizada. Bem, agora não há mais o que fazer. O erro já está feito. Só resta assistir e esperar. As eleições se aproximam. Que outros mundos maravilhosos descortinarão ante nossos olhos? Se esta coluna possuísse som, o leitor me ouviria suspirar neste momento… Até a próxima!

 

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