Aí ela pegou e disse… – Que construção é essa?

Considere o seguinte trecho de uma história: O cara foi chegando […] aí o colega dele falou assim: Ih, sujou […] e ele pegou e saiu correndo. “Ele pegou e saiu”é uma construção muito utilizada na fala, ao contarmos histórias informalmente. Ela forma uma perífrase; ao invés de usar apenas o verbo principal “sair”, usamos uma expressão da qual ele é parte.
Por que essa frase é diferente de, simplesmente, Ele saiu correndo? Nessa construção o verbo “pegar” não tem mais significado em si mesmo, não significa que ele agarrou alguma coisa, mas adquire outras funções, todas diretamente relacionadas ao verbo que o segue, “sair”: Ele pode indicar o início repentino da ação de sair, demonstrando que o sujeito saiu de repente, sem motivo aparente, que ele tomou uma iniciativa; ele serve também para realçar esse evento, a saída, na sequência narrativa, dramatizando-o e criando uma expectativa no ouvinte a respeito da ação que vem a seguir. Por isso, apesar dos dois verbos indicarem o mesmo evento, não é a mesma coisa dizer apenas que ele saiu correndo.
Devo a sugestão dessa temática ao meu amigo e colega Josoel, que apresentou sua dúvida com relação ao verbo nessa situação. O verbo “pegar” sofre aí uma alteração de sentido, pois não significa mais concretamente “pegar/segurar algo ou alguma coisa”, passando a ter um sentido mais abstrato, e sofre também uma alteração na sua estrutura. Como verbo pleno, ele constitui o centro do predicado, o verbo principal da oração, e é ele que determina seu sujeito e seus complementos: Quem pegou o quê? E determina, por conseguinte, o sentido e a estrutura da situação expressa pela frase. Como verbo auxiliar, porém, nessa construção perifrástica, esse papel passa a ser exercido pelo outro verbo que o segue, que é o verbo principal. Os dois verbos, “pegar” e “sair” concordam em tempo, modo, número e pessoa.
Outro papel assumido pelo verbo “pegar” como verbo perifrástico é o de sequenciador, apresentando-se no desenrolar de eventos. Muitas vezes, nesse caso, é precedido por “aí”. Veja-se a descrição dos passos para seguir uma receita: Eu ponho o azeite na panela, aí eu pego e frito a cebola um pouquinho. Nesse sentido, o verbo “pegar” liga eventos anteriores aos subsequentes.
Isso quer dizer que a gramática também muda? Apesar de se saber que as línguas mudam com o tempo, há certa ilusão ou crença de que, no tocante à gramática, as formas são estáveis; acredita-se que as estruturas, uma vez adquiridas, não se sujeitam mais a intervenções, e apenas os significados mudam. Mesmo que numa proporção inferior à do léxico, é certo que a gramática também muda, pois o discurso ao qual ela se molda muda primeiro. As regras ortográficas, por exemplo, não são fixas; há duas gerações escrevia-se “assúcar” ao invés de “açúcar”. O contexto, que é o que mais determina o uso da língua, exerce pressão sobre os processos gramaticais, e é na fala que se origina a maior parte das inovações. Nesse sentido, o verbo “pegar” da construção acima passa por um processo de gramaticalização, tornando-se um novo verbo auxiliar. Ele sofre uma alteração em seu uso, em que, além de apresentar um sentido lexical concreto significando “tomar com as mãos ou com outro instrumento”, forma, agora como verbo auxiliar, uma perífrase.
Essas expressões, é bom salientar, não se formam apenas com o verbo “pegar”. Usamos o futuro perifrástico, com o verbo auxiliar “ir”, o tempo todo: Eles vão chegar às 18h, quando poderíamos usar uma palavra só: Eles chegarão às 18h. Com o mesmo verbo “ir” formam-se expressões como: Nós fomos e fizemos as pazes, sem que tenhamos ido a algum lugar específico; o foco encontra-se em fazer as pazes, e fomos apenas reforça isso.
Tendo iniciado um processo de gramaticalização, a tendência é que o verbo “pegar” apresente sentidos cada vez mais abstratos. Então agora a gente pega e espera pra ver o que vem por aí!

 

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