Ainda sobre a cultura do estupro

No site da BBC Brasil, li na última semana a notícia de que uma petição que pediu o afastamento de um magistrado escolhido para julgar um caso de estupro na prestigiosa universidade de Stanford, Estados Unidos, chegou à impressionante marca de 1 milhão de assinaturas em todo o país. Como justificativa para o pedido esteve a alegação de que o juiz atribuiu uma pena branda demais ao agressor, devido ao fato de ser branco (o que traz à tona, também, todo o peso da questão racial naquele país) e atleta (o que remete à sua condição social, privilegiada quando comparada à maioria dos estadunidenses). De fato, quando se considera que a pena atribuída a alguém que estuprou uma jovem inconsciente nas dependências do campus foi de seis meses de prisão, fica difícil não concordar com o principal ponto levantado pelos peticionários…
Na mesma página, ainda nesta semana, ganhou projeção a notícia de que, na Índia, cinco homens foram condenados à prisão perpétua após serem considerados culpados da acusação de serem autores do estupro coletivo de uma dinamarquesa, em 2014. Nos comentários à notícia abundaram afirmações que se diziam invejosas da “seriedade” da justiça daquele país, que puniu com rigor os autores de um crime bárbaro cometido contra uma pessoa que não teve a menor possibilidade de se defender da agressão sofrida. Comentários que, como não poderia deixar de ser, quase sempre vieram acompanhados de intensa crítica ao Brasil e à sua sociedade. No meio dessa corrente exultante alguns comentários levantaram a importante questão sobre a origem étnica da vítima: teriam sido os ofensores tratados com o mesmo rigor caso tivessem estuprado uma indiana? Após rápida pesquisa pelos noticiários do país, encontrei várias menções a este tema, levantando exatamente a polêmica de que inúmeros casos semelhantes ocorrem com frequência sem que os criminosos sejam punidos com a mesma “seriedade”. A condenação, assim, seria mais um esforço para dar satisfação à comunidade internacional do que um reflexo fiel do modo como o sistema judiciário indiano trata a questão da violência sexual no seu dia a dia. Os poucos comentários em inglês postados abaixo desses questionamentos pareceram endossar essa visão. Sem dúvida alguma, o tema também provoca discussões acaloradas naquele populoso país asiático.
Enquanto isso, no Brasil novos casos de violências repugnantes promovidas contra mulheres continuaram a vir à tona ao longo dos últimos dias. No jornal O Estado de S. Paulo do último domingo, uma reportagem sobre o uso de fotos e vídeos produzidos sem consentimento por sites pornográficos revelou detalhes de como essa operação ocorre, e do ponto a que pode chegar o completo descaso acerca das consequências enfrentadas pelas mulheres retratadas nestes materiais, tanto por parte daqueles que os produzem e distribuem criminosamente, quanto daqueles que os disponibilizam em seus sites e cobram pelo acesso aos mesmos. Nas fotos e vídeos encontrados sem dificuldade pela reportagem estão retratadas menores de idade e jovens que, ao descobrirem que “caíram na net”, pouco puderam fazer para defender sua própria imagem. Sem dúvida alguma se tratam dos mesmos arquivos que proliferam livremente nos grupos de WhatsApp formados por homens “honestos” e “pais de família”, as quais certamente possuem também suas crianças e jovens bonitas que, potencialmente, podem se tornar os próximos alvos da “brincadeira”. Mas lembra-los deste fato desagradável inevitavelmente gera discussão, cara feia, no limite até mesmo agressão física. “Minha filha, jamais!”, é a frase repetida em alto e bom som, enquanto continua a orgia mental alimentada pelas imagens das filhas e irmãs dos outros. Bem ao gosto daqueles que dizem abominar a corrupção, mas não deixam de pagar a contadores hábeis para que obtenham abatimentos ficcionais na declaração do imposto de renda de todos os anos. Ou que negam com veemência que sejam racistas e criticam abertamente quem o seja, mas não abrem mão de contar piadas supostamente engraçadíssimas sobre negros, índios e, porque não, loiras. Deixemo-los, assim, com sua consciência tranquila típica dos pacatos cidadãos ciosos de seus deveres como pais, trabalhadores e cristãos, e continuemos analisando o site do conhecido noticiário paulistano.
Uma notícia sobre o estupro seguido de morte e da remoção do coração de uma vítima de dez anos, ocorrido em Minas Gerais, chama a atenção. O criminoso ainda está foragido, e a investigadora afirma que o crime aconteceu, provavelmente, porque a menina se recusou a manter relações sexuais com o pedófilo que a assediava. Os pais da garota estão desolados, e a população da pequena cidade está mobilizada para encontrar e, se possível, punir com as próprias mãos tão impiedosa criatura. Enquanto leio e me choco com a narrativa uma ideia fugidia me vêm a mente: será que naquele lugar, e entre aquelas pessoas revoltadas, não há ninguém, nem um só homem, que também participe dos ridículos grupos de WhatsApp e tenha, em seus celulares, fotos e vídeos de meninas como aquela? Ou, menos grave dirão (como se houvesse gradação possível para tal absurdo), de mulheres maiores de idade filmadas sem sua permissão em imagens de sexo que rapidamente “viralizam” na internet sem que possam fazer nada para impedir? E se há, será que ao menos conseguem entender a contradição de sua atitude? Será que ao menos conseguem enxergar que a cultura do estupro nasce exatamente do hábito de considerar a mulher um mero objeto dos desejos masculinos, do cotidiano inocente de frases e comportamentos que ignoram as recusas femininas travestindo-as de “charme”, de “fazer-se de difícil” (como se todas as mulheres apenas pudessem ser, por definição, “fáceis”), que valoriza o homem másculo que aborda belas mulheres na rua pelo simples fato de serem… belas? Passa pela cabeça deles, talvez, que uma roupa bonita pode ser usada apenas por ser bonita ou confortável, e não porque a mulher que a utiliza esteja procurando por homens sedentos de procriação sem a responsabilidade dos filhos?
Enquanto o pensamento viaja por tais questionamentos, minha atenção foi novamente desviada, desta vez para uma propaganda na televisão. Uma mulher atraente, em roupas sensuais, com o nome de uma estação do ano que sequer consigo lembrar como deve ser, mergulhado que estou no frio cortante dos últimos dias, serve cerveja em um bar lotado de homens que quase literalmente a devoram com os olhos, câmeras devidamente focadas neste ato. O mais interessante é que estes homens estão acompanhados, por sua vez, de outras mulheres, também bonitas, mas em roupas não tão sensuais, que não parecem ligar para a atitude de seus amigos e companheiros. A garçonete recebe as cantadas e brincadeiras de conotação sexual com inabalável bom humor, um sorriso imperturbável no rosto, e encerra a peça publicitária com o slogan da campanha que, francamente, nada tem a ver com o produto anunciado – uma bebida alcoólica muito apreciada em dias quentes – mas carrega em si e direciona às belas mulheres em geral os velhos jargões de sempre. Mulheres sempre gostam de receber cantadas. Mulheres bonitas devem receber cantadas, e devem gostar disso. O verão é a época do ano em que as belas mulheres mais ficam suscetíveis a estas cantadas. A menos que estejam acompanhadas, mulheres bonitas não recusam cantadas bem executadas – por vezes as aceitam mesmo que estejam acompanhadas. Não há qualquer cabimento em belas mulheres não gostarem de cantadas. Se não gostam, é porque as cantadas não são boas ou os homens que as executam não são atraentes. Qualquer comportamento que fuja disso não é digno de belas mulheres. Mulheres que criticam isso, que não gostam de fatos “tão inocentes”, só podem ser “feminazis”. Ou ter problemas com sua própria sexualidade…
Estas questões realmente me intrigam, me incomodam. Porque a dificuldade em aceitar que mulheres tem exatamente os mesmos direitos dos homens, em todos os sentidos e lugares sociais? Porque elas não podem ser donas de seus próprios corpos? Porque precisam se tornar objeto de consumo em uma sociedade capitalista que transforma tudo em mercadoria, mas que retira somente às mulheres o direito de decidir sobre sua própria vida amorosa, sobre sua sexualidade, sobre suas roupas, sobre seu comportamento? Enquanto isso, com argumentos vazios, um colunista do jornal Folha de S. Paulo se esforça em defender que a cultura do estupro não existe, e que afirmar o contrário disso só pode ser resultado da mentalidade distorcida de “militantes petistas” alienados (como se seguir partido ou ideologia política fosse ofensa, uma questão também séria da qual tratarei em alguma ocasião futura). Realmente falta muito, ainda, para termos uma sociedade democrática e igualitária. Mas é no primeiro passo que começam as mais longas caminhadas… Até a próxima!

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