Amigo bem amado

XVIII – Setembro/1971

Edição nº 216

Não sei quando foi que ele veio para cá. Lembro-me apenas, que já o conheci meio maltratado pelos anos, ou talvez pela própria vida. A verdade é que, apesar de judiado, ele proporcionou momentos de indizível satisfação, principalmente às crianças que lhe eram mais chegadas. E quantas crianças passaram por ele… a quantas crianças ele encantou, ele embalou com o seu espírito infantil. Eu fui uma dessas crianças que tive a felicidade de conhecê-lo, de senti-lo, de ouvir a melodia que emanava de dentro de si.
Aprendi a cantar o hino nacional ao seu lado. No jardim de infância, onde aprendi as primeiras letras, ele era o nosso companheiro dileto. Estava quase sempre calado. De vez em quando – saia do seu mutismo, então acompanhava as crianças, cantando junto os hinos cívicos. Com ele, aprendi através de sua voz, a amar o Brasil “Ó Pátria amada idolatrada salve”…
Depois com o passar dos anos, foi devagar me afastando do velho amigo, que me ensinou a amar a música, até que me afastei completamente dele. Assim também, outros que o conheceram antes que eu – e que se beneficiaram de sua melodiosa presença e que talvez neste momento, estejam ocupando cargos elevados no governo, no exército, na vida pública, no alto comércio, na medicina etc., como eu, o esqueceram. Houve muitos anos que eu até ignorei a sua existência… ingratidão, para aquele que acompanhou a minha infância, a minha vida escolar… É sempre assim, quando a gente vive bem, aqueles que nos serviram um dia, são atiradas ao esquecimento. Quantas vidas infantis passaram por ele… quantas.
E o tempo rolou sobre os anos… Até que há bem pouco tempo, eu soube novamente dele, por intermédio de uma nota triste divulgada através de uma emissora local. Reviveu em mim, toda aquela doce ternura que eu sentia por ele nos meus felizes tempos de menina. Senti então meu coração bater mais forte quando me falaram dele… E aquele tesouro que minha alma infantil guardou aquela melodiosa sabedoria reascendeu meu coração. Só então pude sentir que ele nunca esteve esquecido para mim. Que eu o carreguei comigo, desde a minha infância. E vi meus olhos brilharem novamente, como nos tempos de menina, cheios de sonhos e de beleza. Ele que foi o meu acompanhante na infância, agora era relembrado com carinho. Então, senti novamente necessidade de ouvir a sua voz macia, melodiosa, foi como que se alguém desatasse asas em volta de mim e impulsionasse o meu vôo às regiões maravilhosas do meu tempo de jardim. Senti um aperto no coração, quando voltei à realidade e soube que ele havia desaparecido… Foi essa a notícia… meu fiel amigo havia desaparecido. Ninguém sabia do seu paradeiro… mais tarde veio a notícia mais chocante; fora encontrado. Mas em que estado Santo Deus! Sem os intestinos, sem coração, estava quase que completamente oco. Alguém manda dizer que é para alguém ir buscá-lo e lhe dar o fim de direito! Leitor, você já viu um dia, num cardo em flor, seu coração sangrento? Foi assim que eu me senti. E ainda um pouco responsável pelo mal que ocasionou o seu desaparecimento, porque o releguei as calendas gregas. Ignorei sua existência… Soube mais tarde que ele partiu daqui, apenas para fazer um tratamento em alguma parte de seu corpo que não estava bem… agora dizem que vai voltar inutilizado…
Eu lhes falo meus senhores, do piano do Grupo Escolar Prof. Serapião. Ele precisa voltar ao seu lugar que merece por tradição e por direito. Sabe-se que a fábrica, para onde ele foi para conserto, propôs à então diretora, Dona Cotinha, uma troca por um piano menor, o que não foi aceito porque dona Cotinha Araújo Ribas,disse que ela não poderia resolver tudo sozinha, pois devia obediência à Secretaria de Educação.O meu amigo, foi até a Capital, para um tratamento apenas. E lá ficou há mais de 4 anos. Mas os ex-alunos do Serapião hoje adultos, exigem a volta do seu amigo de outros tempos. O seu lugar é aqui e aqui deve ficar. Portanto, hoje que, graças á revolução de 64, quando respiramos um ar de moralização, não podemos cruzar os braços e deixar o nosso piano de cauda, jogado num canto de uma fábrica. Vamos ao governo, à polícia se preciso for – mas vamos trazer de volta ao nosso convívio, aquele que foi o responsável pela educação musical e cívica de muitas e muitas crianças aquele que despertou nas crianças, o espírito de civismo, com o seu ritmo, com a sua cadência que até hoje nos acompanha em nossas caminhadas.
Lulu Augusto

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