Aniquilação

Depois de uma imersão de semanas em filmes reflexivos e de personagens históricas na corrida do Oscar a gente volta à programação normal, olhando pras coisas novas lançadas na Netflix e, especialmente, para uma mescla de gêneros favoritos dessa coluna: ficção científica e terror. Estreou essa semana o filme novo do Alex Garland, Aniquilação, com Natalie Portman capitaneando um elenco predominantemente feminino. Garland ficou conhecido pelos roteiros de filmes como Extermínio e Dredd, mas atingiu fama maior com seu primeiro longa na direção, Ex Machina, que foi indicado ao Oscar de roteiro original (também assinado por Garland) e ganhou o prêmio de efeitos visuais.

Ex Machina trata de um mundo em que a inteligência artificial chegou a níveis máximos de evolução, tornando-se consciente de sua própria existência, logo, de seu aprisionamento por um bilionário de tecnologia. Ava, a inteligência, parece adquirir sentimentos humanos e ao longo da narrativa descobre-se que o funcionário que estava nas instalações milionárias para testá-la, na verdade está sendo testado, pelos graus de manipulação da máquina.

Se no filme anterior Alex Garland se valia da relação humano x máquina para investigar as complexidades da nossa existência, em Aniquilação ele parte do best-seller de mesmo nome de Jeff VanderMeer, para criar uma interação entre o humano e o alienígena, expondo nossas fragilidades. A estória é tão ou mais complexa do que a de Ex Machina. Uma bióloga professora acadêmica ainda vive o luto 12 meses depois de seu marido ter desaparecido em missão militar. Ele reaparece muito doente e ambos são levados a uma instalação de pesquisa, num lugar conhecido como área X. Lá ela descobre que a ninguém da missão dele havia voltado, bem como nenhuma outra missão, animais ou drones enviados ao mesmo local. Em seguida ela é apresentada ao objeto da missão, o Brilho. Uma espécie de campo de força meio lisérgico que ninguém sabe ao certo o que é (alienígena, divino, outra dimensão). Decidida a encontrar a cura para o marido ela se junta a missão de investigação que vai entrar na área. A missão é formada inteiramente por mulheres cientistas, uma paramédica (Gina Rodriguez), uma física (Tessa Thompson), uma geomorfologista (Tuva Novotny), além da já citada Ventress (Jennifer Jason-Leigh). Dentro do campo a fauna e a flora não são iguais ao que temos, tudo que vive sofreu algum tipo de mutação e genes começaram a se mesclar em diferentes espécies, algo impossível no nosso mundo. O filme rende então, além de bons sustos, uma discussão sobre DNA, os limites entre a vida e a morte, as razões da existência humana. Tudo permeado por uma atmosfera multicolorida de mutações genéticas, tão assustadoras quanto bonitas.

Aniquilação se divide em três tempo narrativos: o presente, em que a bióloga responde às questões de uma equipe de cientistas; um flashback de pouco tempo atrás, quando a expedição da qual ela faz parte entra no terreno além do Brilho, este o de maior duração; e um outro flashback que volta mais ainda ao passado e explica as motivações das personagens. A mescla do três tempos deixam o filme mais difícil de decifrar, mas faz sentido para entendermos as reais motivações por trás das ações de Lena, a bióloga, só no último ato. Diga-se de passagem o último ato é o mais frágil do arco narrativo. Nele se acentuam referencias aos clássicos de ficção científica dos anos 80, tanto de som quanto de imagem. Tendo os últimos 15 minutos de filme ganhado o apelido de clipe da Björk em fóruns da internet, dada sua estranheza. A verdade é que a estranheza é completamente referencial. E que poderia soar meio descabido ou mal feito, uma homenagem de Garland aos que vieram antes dele. E nisso é que há o abismo com seu filme anterior, que criava uma realidade alternativa de modo extremamente realista. Aqui, Garland cria uma realidade fantástica, em que as regras da física e da biologia do nosso mundo não se aplicam. É bonito, mas exige um exercício um pouco maior de suspensão da descrença.

O ponto alto do filme é se centrar num elenco de mulheres, o que não é comum para o gênero, com personalidades bem delineadas e complexas. Não apenas elas são cientistas, mas seres humanos com problemas reais que desesperançadas de algo partiram em uma missão quase suicida. Não só isso, o filme também aposta num desenvolvimento lento, cheio de dados científicos ou da contestação deles, criando um filme de terror com poucos sustos, apoiado numa tensão muito mais interior.

 

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