Antártida

A euforia cresceu no salão do navio Ushuaia na manhã de sexta-feira, 18 de janeiro de 2019. Todas as 80 participantes da expedição, só de mulheres à Antártida tinham algo a dizer sobre as últimas horas de travessia pela temida Passagem de Drake, onde as águas do Atlântico e dos mares do sul se encontram.

Ondas de doze metros de altura lavaram o navio. Ventos com rajadas de até 70 nós nos chacoalharam de um lado para outro. Algumas ouviram alarmes soarem durante a noite – eu mesma corri pra pegar meu colete salva-vidas e checar se havia emergência. Eram apenas sensores de combustível ficando loucos com a inclinação do barco. Outras pessoas viram as cadeiras voando dos quartos para o corredor.

Medo? Não.
Sabíamos que enfrentar o mar agitado era apenas um pequeno preço a pagar pela experiência extraordinária de conhecer esta “outra parte do planeta”. Estávamos preparadas e nosso navio era forte. Havíamos feito a passagem na ida e agora ela nos trazia de volta.

Confesso que na primeira perna, de 31 de dezembro a 2 de janeiro, eu estava tão ansiosa com a passagem de Drake que me coloquei no modo “dormir” por 2 dias. E dá-lhe Dramin, adesivo e pulseira anti-enjoo, além de erguer uma proteção de ferro na cabine para evitar que eu rolasse da cama pro chão. O mar não se revoltou tanto quanto o esperado.

Acordei em águas calmas com uma bruma dominando o convés. A primeira visão da Antártida é algo que nunca vou esquecer: um iceberg gigante despontava em frente ao navio. No horizonte, a camada de montanhas de gelo se unia às nuvens, formando um paredão de brancura. Foi certamente a sensação mais mágica que experimentei na vida – e que durou 21 dias.

A majestade da Antártida se fazia a cada pouso em terra ou em gelo, a cada passeio de bote pra “caçar icebergs”, a cada vez que examinávamos o horizonte tentando encontrar vida selvagem. Os primeiros pinguins, as primeiras baleias, as primeiras orcas. Os dez dias iniciais foram de descobertas e lágrimas de alegria. Que privilégio o meu estar aqui e viver isso.
Na metade da viagem, bateu uma ponta de desespero: já havíamos visto tantas coisas incríveis. Não achei que seria possível extrapolar e temi o tédio. A líder da nossa expedição – uma alemã-argentina – me disse: calma que agora vem a melhor parte.
E ela tinha razão: quando os pinguins deixaram de ser “estranhos” e passamos a visitar canais mais estreitos e mais ao sul da Peninsula Antártida, o que vi foi assustadoramente bonito. Muito mais bonito.

A experiência de “ver pela primeira vez” foi substituída pelo “apreciar a natureza em seu estado de natureza”, como o dia em que cerca de 20 orcas vieram até nós. Foi uma emoção difícil de conter. Ou o dia em que uma baleia jubarte dançou em frente a uma montanha que havíamos escalado, como querendo dar algum recado. Ou quando dei um mergulho em águas gélidas e meu corpo demorou 4 horas para se estabilizar.

Os dias foram passando e eu percebi que essa exploração era de um tipo diferente – de navegar por um espaço que a humanidade se esforça para reservar para a ciência e para a paz. Essa missão não é fácil: há um esforço ativo e consciente de manter a Antártida “viva” e inclusive de reparar os danos passados, como vazamentos de contaminantes.
Havia um paralelo disso com a minha própria experiência a bordo, convivendo com 80 mulheres até então desconhecidas, por um longo período, sem chance de fugir em caso de briga ou tédio.

Eu tive que fazer um esforço consciente para cultivar comportamentos construtivos nesta jornada. E todas as demais também se comprometeram com esse mesmo desafio.
Conseguimos criar um ambiente colaborativo, em que houve 0 brigas, 0 drama, 0 problemas não resolvidos.
Foi gratuito? Não. Foi forçado? Não. Teve fofocas? Poucas.
Houve um esforço constante de calibrar respeito, confiança, julgamentos e aprendizados.
Talvez pela primeira vez na vida, eu experimentei um ambiente tão construtivo quanto esse.

E o que vou levar daqui? O que outros podem aprender?
Lição 1: Reconhecer limites. Quanto mais claras as nossas “barreiras”, maior o nível de empatia e compaixão de uns pelos outros. Se alguém botava o fone de ouvido na viagem, era a senha para não chegar perto. Qual o meu espaço? Qual o do outro? Como eu respeito os meus limites e o dos outros? O que eu não vou fazer porque sei que vai aborrecer os outros?
Lição 2: Ser íntegra. Você não vive uma grande aventura se estiver despreparada. Construir confiança em si mesma é um pré-requisito para enfrentar o deserto ou a maravilha com outras pessoas. Como ser coerente e confiável para si mesma? Como cumprir com aquilo que eu prometo para os outros e para mim?
Lição 3: Pedir ajuda e pedir desculpas. Fácil, né? O silêncio é um grande aliado. O que funcionou para mim nesta viagem foi afastar-me da minha inclinação natural para conduzir conversas e ouvir ativamente as pessoas ao redor. Confiar que eu poderia assumir esse papel foi fundamental para perceber quando eu precisava dos outros. E quando eu havia errado, como poderia consertar.
Lição 4: Não julgar. Acreditar na boa fé. Se nós estigmatizamos pessoas ou as classificamos em isto ou aquilo, criamos divisão. Nós também perdemos a confiança delas.
Lição 5: Dizer aos outros o que se pensa sobre eles, sim. De qualquer jeito, não. Em tempos de polarização, é preciso se esforçar ativamente para suspender o julgamento, melhorar o tom de voz e aumentar a humanidade; não o contrário. Não é fácil nem natural, mas é absolutamente possível e gratificante.

Finalmente, como o mundo pode se tornar um lugar melhor depois dessa viagem?
Há uma missão maior agora.
Muito poucas pessoas neste planeta terão o privilégio de conhecer diretamente a Antártida em suas vidas. Ainda assim, aqueles de nós que tiveram, ou terão essa honra, têm a responsabilidade de conectar os demais à importância da Antártida para os bens comuns globais e para os climas locais e globais.
Aqueles que foram à Antártida várias vezes, como Amyr Klink, costumavam dizer que a paisagem mudava pouco de uma expedição para outra e que o clima é que era extremo e abrupto. Isso não é mais verdade. A mudança tem sido rápida e intensa na paisagem e no clima.
Seis graus Celsius foi o aumento da temperatura média registrado nos últimos 50 anos na estação de pesquisa americana (Palmer). Isso explica em parte que vários dos glaciares antárticos estejam recuando, ano a ano, com o efeito do aquecimento.
Quanto mais fundo íamos em nossa jornada física; mais profundamente eu reconheci que estávamos lá, em 80 mulheres, para agir intencionalmente em prol de uma cultura de paz e de respeito.
Não me refiro só à natureza, ainda que esta esteja clamando por isso.
E sim à nós, humanos.

Natalie Unterstell,
Viajou a bordo da expedição australiana Homeward Bound, como parte de um programa de desenvolvimento de lideranças femininas pela melhoria de vida das pessoas e do planeta

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