(anti)Antilógica

Tomei de Freud o lucro secundário da doença no ônus obtido pela fé para designar uma operação cujo resultado previsível só pode recair no prejuízo e que ainda assim é praticada, mas repare, não pela via do prazer, pelo contrário, pela categoria do gozo, cuja crença precipita um desejo projetado no outro, que é seu objeto de sadismo. São delírios de massa e são constituídos de paixões intensas. Ainda que sejam apresentados vários elementos contraditórios, a persistência da crença (não se trata de religião) ou seja, o julgamento de existência, falha e reafirma, apesar da realidade, o caráter obstinado da fantasia. Segue o caminho da alucinação negativa de desejo, e isto demonstra, claramente, que o processo simbólico de mediação entre a não identidade do objeto, e um substituto qualquer, foi estancada num ponto messiânico, narcísico, e que de fato seria possível reavivá-lo. Esta obstinação é sustentada em vários pontos, mas estes pontos não parecem ter o caráter indecidível que a angústia vem acompanhar, são, em verdade, pontos de pequena oposição linguística, fundam-se em ambiguidades, e exploram pelo oposto da poética a potência de significância das palavras. São perversões significantes que trabalham no sentido de regressar o fluxo de pensamento sempre para o fantasma, e operam instalando-se no lugar do ideal. A maneira absurda e incoerente de sustentar o encadeamento desse discurso que se imprime à nossa época me parece acomodar-se bem ao nome antilógica. Por exemplo: o brasileiro é isso (um qualificativo). Na proposição o sujeito, também brasileiro, ao sentenciá-la, de algum modo, julga excluir-se dela. E ele recai justamente no (eu)ideal, ou seja, recalca o fantasma. Tal procedimento além de alienar o falante da sua fala, favorece a projeção do fantasma no outro, seu avesso. A operação seguinte consiste em eliminar o outro visando a restauração de um estado, sempre suposto, de gozo (mesmo no sentido jurídico). A repetição desse discurso (ele não se limita ao exemplo) reforça o caráter regressivo da percepção. Neste sentido a lógica, que visa em última análise a verdade, é contrariada em favor de um gozo autista, embora coletivo. A estrutura psíquica facilita a incrementação de um objeto no lugar da falta constituinte, mas a mágica da psicologia das massas é dar forma ao fantasma pelo medo compartilhado, e o medo só ouve a razão do mestre. O mestre nada mais é que o discurso daquele que é alçado ao lugar do ideal do eu. O discurso do falante, então, é subvertido a seu desejo no fato dele ignorar que é ele mesmo seu objeto. Note-se que a escolha do prefixo anti tem sido tão largamente difundida.
Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

 

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