Antônimos que podem ser sinônimos

Aprendemos que sinônimos são termos que possuem significado ou sentido semelhante, como brado e grito, e que antônimos são, ao contrário, termos que significam o oposto, como amor e ódio. Isso quer dizer que palavras que são antônimas não podem ser sinônimas, certo? Errado.
As palavras não significam isoladamente. Para significar, elas precisam estar inseridas num contexto linguístico, e relacionadas a um contexto social e cultural. O contexto refere-se ao ambiente linguístico em que utilizamos as palavras e as frases, à situação social em que elas ocorrem e à experiência dos interlocutores. Por esse motivo, mesmo tendo estudado uma língua estrangeira formalmente por anos, haverá casos de incompreensão dessa língua devido ao desconhecimento de particularidades do uso daquela língua pelos seus falantes em seu contexto habitual. Em italiano, por exemplo, podemos dizer “Ciao” tanto para significar “Olá!” como para significar “Adeus!”.
Vamos, então, ultrapassar um pouco a definição mais simples do primeiro parágrafo, para entender melhor os sinônimos e os antônimos. Sinônimos são termos que, apenas em determinado contexto, podem substituir-se umas às outras, sem que se altere o sentido da frase. Assim, um coração endurecido pode ser substituído por um coração empedernido, mas um pescoço endurecido não pode; porque o endurecimento de que se trata aqui não é literal. Da mesma forma, a frase Contratamos uma empresa aérea pode ser substituída por Contratamos uma empresa de aviação, mas não podemos fazer o mesmo com a frase Ela sempre fica um pouco aérea depois das reuniões.
A mesma ponderação vale para os antônimos, que em determinados contextos, possuem significados opostos, enquanto que a oposição não se sustenta em outros contextos. Em Cometer uma falta grave entendemos grave como o oposto de leve,porém, o mesmo não ocorre em Ele canta com uma voz grave; aqui o oposto não é mais leve, mas aguda.
E quanto a um antônimo poder ser usado como sinônimo? Como é possível um termo de sentido oposto poder substituir um termo com o mesmo sentido sem que a frase sofra alteração na sua significação? Veremos alguns exemplos: Normalmente sair é o oposto de entrar, e Entrar em casa e Sair de casa indicam ações opostas; mesmo assim, dizemos, com o mesmo sentido, às vezes Entrei em férias e às vezes Saí de férias. A frase Quantas coisas eu poderia fazer com esse dinheiro equivale perfeitamente a Quantas coisas eu não poderia fazer com esse dinheiro, apesar de fazer e não fazer serem antônimos. A resposta ao pedido Você pode me passar o seu contato? é prontamente Pois não, que na verdade quer dizer Posso, sim. Por outro lado, se alguém quiser se aproveitar da situação e lhe perguntar se você aceita vender o seu carro por um valor bem inferior ao que ele vale, você dirá Pois sim…, significando Claro que não! Vida e morte constituem um par de antônimos, que nas expressões Risco de vida e Risco de morte adquirem a condição de sinônimos. Ao dizermos que Devem-se reduzir os custos ao máximo estamos dizendo que os custos devem ser reduzidos ao mínimo, mesmo que mínimo e máximo tenham, em geral, sentidos opostos. Se, ao final de tentativas frustradas, dizemos Não consegui emprego algum, estarei dizendo a mesma coisa com a frase Não consegui emprego nenhum, ainda que algum e nenhum sejam considerados antônimos. Finalmente, alguém pode licenciar-se do trabalho por motivo de doença ou por motivo de saúde, mantendo-se o mesmo sentido.
A explicação para essas possibilidades revela-se através da análise da significação. No caso do primeiro exemplo, em entrar em férias a ideia é de começar a desfrutar as férias, enquanto que em sair de férias a ênfase recai sobre o verbo sair, significando deixar o local de trabalho. A oposição de sentidos não se encontra mais entre sair e entrar, mas entre descanso e trabalho. Em risco de vida entende-se o risco de perder a vida, ao passo que em risco de morte subentende-se o risco de encontrar a morte; portanto, a contraposição não se concentra mais em vida e morte, mas em perder e encontrar. E no caso de algum e nenhum, quando algum é usado após o substantivo a que se refere (neste caso emprego), assume o mesmo sentido de nenhum.
Todos os exemplos mencionados acima, seja utilizando um termo ou o outro, considerado por vezes seu oposto, são considerados legítimos e adequados para a boa comunicação. Longe de considerá-los oponentes ou sugerir a escolha de um em detrimento do outro, quero defender aqui a sua coexistência pacífica, cabendo a escolha a cada usuário.

 

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