Aos poucos ouvidos moucos que virão, falaremos da escuridão

Há cerca de 30 anos, assisti no Teatro Novelas Curitibanas, no Festival de Teatro de Curitiba a peça, Aos poucos ouvidos moucos que virão, falaremos da escuridão.
A peça imbricava a filosofia com a física quântica e os atores circulavam em meio ao público, com ele interagindo. Em determinado momento um dos atores parou em minha frente e perguntou: Para você o que é a escuridão? Respondi: É a ignorância.
Ao assistir a sabatina de Jair Bolsonaro, na Globo News e ao debate com os candidatos à presidência da República, na Band, de imediato fui remetido a peça que menciono acima.
Ao ouvir as respostas estapafúrdias e preconceituosas de Bolsonaro, aliadas ao seu despreparo intelectual, mais uma vez tive a certeza de que a escuridão é sinônimo de ignorância. Fico perplexo ao continuar ouvindo, após as aparições de Bolsonaro na TV, manifestações em seu apoio.
Igualmente estarrecedor foi o pronunciamento de seu vice, general Mourão, quando disse há alguns dias, que nossa indolência é oriunda dos indígenas, e, nossa malandragem dos povos africanos. Abertamente racista e preconceituosa a declaração de Mourão deve ser e foi, repudiada com veemência.
O general tentou se justificar alegando que se apoiava em teóricos consagrados, porém se esqueceu de dizer que tais teorias têm mais de 100 anos, já foram, devidamente, refutadas e que depois delas, surgiram teóricos como Gilberto Freyre e Darci Ribeiro.
Fico assustado com aquilo que chamaria de o voto silencioso a Bolsonaro, isto é, aqueles que nele irão votar, mas que envergonhados de tão esdrúxula opção, não a manifestam.
Nos últimos dias recebi dois indícios que me levam a suspeitar do tal voto silencioso. Em um deles um político da velha guarda me disse que não vota em Bolsonaro, entretanto, manifestou sua indignação com os jornalistas do programa Roda Viva da TV Cultura, dizendo que eles promoveram verdadeira caça a Bolsonaro. Na outra, um jovem universitário disse que vai votar em branco para presidente e que não vota em Geraldo Alckmin porque ele é muito de esquerda. Caramba, o PSDB é eminentemente neo liberal e como tal defensor de privatizações, uma das principais bandeiras da cartilha tucana. Se o jovem não vota em Alckmin por ele ser, em seu entendimento, de esquerda, quem é o principal representante da direita no atual processo eleitoral, senão Bolsonaro? Esquecendo-se aí dos caricaturais Cabo Daciolo e Levir Fidelix. Talvez esteja neste jovem mais um voto silencioso em Bolsonaro.
Por outro lado, cresce nos setores menos conservadores e mais progressistas a ojeriza a misoginia, homofobia e resquícios racistas de Bolsonaro.
Gostei bastante da fala de Ciro Gomes na sabatina da Globo News. Inteligente, articulado e irônico, Gomes foi bastante convincente, porem, seu discurso caiu por terra, quando escolheu Catia Abreu para sua vice. Tentando cooptar votos mais à direita, ele perdeu a eventual simpatia dos progressistas, que repudiam Catia Abreu, legítima representante das oligarquias rurais, do atraso, do conservadorismo e das agressões ao meio ambiente.
Minha intenção de voto contínua recaindo em Guilherme Boulos, do PSOL. Caso a candidatura de Lula seja indeferida, quem deve substituí-lo é Fernando Haddad que também se constitui em uma opção, pois fez um governo de vanguarda no município São Paulo e talvez por isso não foi compreendido, já que o ser humano costuma não entender o novo, como um dia disse Marshall MacLuhan. A vice de Haddad deverá ser Manoela d’Ávila, do PC do B, cujo ideário, também me identifico.
Mas como no Brasil, com raras exceções, os partidos são ideologicamente incipientes, é preciso verificar as performances individuais dos candidatos. Aí aparece o nome de Álvaro Dias, um dos melhores senadores brasileiros, de conduta ilibada e com uma experiência positiva no executivo, sendo um excelente governador do Paraná. Mais ao centro, Álvaro também é uma das melhores opções para presidir nossa República.
Não vejo na direita uma única possibilidade da diminuição das imensas desigualdades sociais existentes no Brasil, como também não vejo na direita a mínima possibilidade de cortes dos estratosféricos privilégios dos Poderes Legislativo e Judiciário, assim como de uma mais que urgente reforma eleitoral, insisto, sem falar nas chamadas reformas de base, que se introduzidas, de imediato reduziriam as desigualdades sociais.
Cabe a nós mudar o Brasil ou deixar como está.

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