Aqui jaz o último fio de esperança

O fogo arde em meus olhos enquanto escrevo estas linhas. Estes, impossibilitados de segurar as lágrimas provocadas por tamanha dor, ameaçam impossibilitar a conclusão da difícil tarefa à qual me dedico hoje: falar sobre a morte do último fio de esperança na recuperação de uma sociedade que assiste indiferente, à perda irremediável de mais de vinte milhões de itens únicos e insubstituíveis. Que mal parou para pensar nos danos que, por culpa sua, a história e a cultura mundiais sofreram neste fim de semana. Que mal conhece o sentido da palavra “responsabilidade”. Responsabilidade para consigo mesmos. Responsabilidade para com o país. Responsabilidade para com as gerações passadas e futuras. Sim, caros leitores, rompeu-se neste fim de semana o último fio de esperança, derretido pelas chamas criminosas que consumiram o quinto maior acervo do mundo em uma noite qualquer do inverno carioca.

Volto, uma vez mais, à questão da culpa. Já ouvi pessoas afirmarem com uma indiferença aviltante que coisas assim “acontecem”, que foi uma “fatalidade”, e que ninguém foi culpado pelo fato. Enquanto ouço tais imbecilidades me segurando para não voar no pescoço do sujeito, apenas fico pensando porque tais “fatalidades” acontecem apenas no Brasil, que já havia perdido o meu querido Museu da Língua Portuguesa e sofre com o fechamento do Museu do Ipiranga que já dura cinco anos, à espera dos valores capazes de fazerem frente à sua necessária reforma. Aliás, eu disse “sofre”? Será que sofre mesmo? Será que alguém sabe que o Museu do Ipiranga está fechado há tanto tempo? Será que, sei lá, pelo menos 30% dos brasileiros sequer sabem o que é o Museu do Ipiranga? E aqui reside o indicador da culpa a que acima me referi. Ontem, ainda tonto pelo desfecho do trágico drama, saí para caminhar aqui mesmo, em nossas cidades. Fui até o recentemente restaurado monumento a João Pessoa, jóia de nossa história que após décadas finalmente voltou, em toda a sua glória, a ocupar seu lugar de direito nas margens do rio Iguaçu. Lá chegando, o que encontrei? Garrafas de cerveja por toda parte. Lixo. Vidro quebrado. Tinta branca nas placas cor de cobre. E muito, muito descaso. Sentado em um dos bancos, um senhor de seus quarenta anos fumava calmamente seu cigarro. Perguntei sobre a bagunça. “Ah, isso é a molecada que faz todo domingo”. Sobre o incêndio do Museu Nacional. “Vi no Fantástico. Mas nem sei onde fica, então não ligo muito, não”. Terminei a conversa e, vencido pelas obviedades da observação, fiz o caminho de volta para minha casa.

Eu poderia continuar falando do descaso de nossos concidadãos com sua própria história citando a abandonada casa do coronel Amazonas, prestes a ruir na primeira chuva mais intensa que atingir nossas cidades. Lembrando, mais uma vez, do deplorável estado de abandono que vitima nossa ferrovia, cada dia que passa mais próxima do estado de impossibilidade de restauração. Mas vou me ater a uma frase dita pelo senhor que encontrei no monumento: nem sei onde fica, então não ligo muito, não. Eis aqui, caros amigos, a causa da morte de minha esperança no futuro deste país. No conjunto do Museu Nacional o que queimou foi o museu, mas o que foi realmente incinerado foi a nação. Não que as chamas tenham efetivamente queimado qualquer resquício ainda existente de orgulho nacional, de ideal de pertencimento a uma comunidade que extrapola os limites de nosso círculo pessoal. Mas elas, isto sim, descortinaram todo um antigo processo de erosão dos laços que nos tornam brasileiros, e nos fazem formular ideias bem concretas acerca do que significa esta simples palavra. Afinal, o que é pertencer a uma nação, senão sentir-se parte de um mesmo grupo? De compartilhar os mesmos valores, conceitos e objetivos que milhões de pessoas que sequer conhecemos? De fazer parte de uma mesma trajetória histórica, trajetória esta que justamente pode ser conhecida e contada em locais sagrados como o já não mais existente Museu Nacional? Em última instância: para que serve uma nação que não venera sua própria história, e para que serve um Estado que não consegue sequer preservar os vestígios de sua própria formação? Minha resposta pessoal é: para nada. Rompeu-se, deste modo, o último fio de esperança.

O orçamento de manutenção do Museu Nacional era de quinhentos mil reais anuais, que não são repassados pelo governo federal desde 2014. Acha muito? Então considere isto. Apenas o estádio do Maracanã, estrela máxima do campeonato mundial de futebol ocorrido naquele ano, e que não recebeu sequer uma partida do selecionado nacional, custou um bilhão e duzentos milhões de reais. Faça as contas. Agora, adicione às cifras alcançadas os valores gastos com todos os demais estádios, muitos deles abandonados enquanto escrevo estas linhas. Some, ainda, os gastos astronômicos despendidos com as olimpíadas de 2016, ocorridas na mesma cidade do agora extinto museu. Deu para perceber o tamanho do absurdo? Da insanidade? Da completa falta de nacionalidade? Perdemos o quinto maior acervo do mundo, repito. Desculpem, mas se hoje eu achasse um fóssil raro, preferiria entregá-lo a qualquer museu estrangeiro a deixá-lo, mais uma vez, sob os cuidados de tão despreparada nação. Porque “fatalidades” como esta, tão recorrentes a ponto de já estarem presentes nesta coluna duas vezes no espaço de tão poucos anos, simplesmente não acontecem em outras nações. Não é apenas o Museu Nacional. É também o monumento a João Pessoa, restaurado pelo poder público, mas abandonado e vandalizado pela população. É também a casa do coronel Amazonas, abandonada aos cupins por falta de quem possa mantê-la. É, ainda, a ferrovia, que desaparece sob mato, árvores e charcos que em breve serão impossíveis de drenar. É toda uma sociedade, uma nacionalidade inteira que queima sob as chamas de suas próprias incompetências.

E que não se diga, como já começa a acontecer, que a culpa é do atual governo. É de todos. O Maracanã foi inaugurado em 2013, e o Museu Nacional não recebe a totalidade de sua verba desde 2014. Todos sabemos quem estava no poder, então. E que não se diga que é apenas dos governos. Se a nação brasileira se importasse, haveria cobrança por conservação. Haveria cuidado com os monumentos já restaurados. Haveria carinho com a trajetória que nos une enquanto povo. Das chamas que extinguiram o museu de todos nós, nada emergiu. As lágrimas venceram, não consigo mais escrever. Fica o luto por sarcófagos, múmias, fósseis, dinossauros, insetos, documentos, que nunca mais serão consultados. Fica a raiva pelo fato de eles pertencerem a uma sociedade que prefere futebol a cultura. Fica o asco por décadas de governantes corruptos, ineptos e caras de pau, vermes que ainda possuem coragem de comparecer em nossa frente pedindo votos com cara de bons moços. Aqui jaz, caros leitores, o último fio de esperança de um historiador no futuro da nação que habita a terra que o viu nascer. Até o próximo… incêndio.

 

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