As cores da língua portuguesa

Neste final de ano circula nos grupos de WhatsApp a seguinte piada: “Já passaram o setembro amarelo, o outubro rosa e o novembro azul; estou morrendo de medo de chegar o janeiro vermelho com todas aquelas contas pra pagar…”. É sabido que os três primeiros exemplos referem-se a grandes campanhas nacionais de prevenção, respectivamente: ao suicídio, ao câncer de mama e ao câncer de próstata; a brincadeira fica por conta da relação entre o mês de janeiro, quando vencem diversos impostos e também é hora de pagar matrículas e outras despesas escolares, com a cor vermelha, indicativa de dívidas, ou “estar no vermelho”.

As cores da saúde são reconhecidas em muitos países, e com elas obteve-se bastante sucesso nas campanhas. Interessantes também são, nesse e em outros contextos, as relações que criamos entre as cores e o que passam a significar. O rosa do outubro e o azul do novembro caracterizam claramente os gêneros feminino e masculino; já o amarelo do setembro relaciona-se à cor do carro com o qual um jovem americano tirou a própria vida no episódio que inspirou o início da campanha em 2003.

O uso das cores pode ser extremamente simbólico. Em outros contextos, que sentidos assumem as mesmas cores das campanhas? Vejamos:

O amarelo apresenta muitas vezes conotações negativas: um sorriso amarelo é forçado, falso; a imprensa amarela (ou marrom) é sensacionalista; e amarelar é acovardar-se, fugir. Mas a cor também representa luz, calor, descontração, otimismo e alegria.

O rosa, porém, representa apenas flores: ver a vida em cor-de-rosa é ser otimista, mas também ingênuo. É a cor relacionada ao romantismo e à ternura.

O azul pode ir de oito a oitenta: por vezes indicativo de nobreza, no caso do sangue azul, pode significar algo terrível, como receber o bilhete azul, ao ser demitido. Se está tudo azul, porém, está tudo em ordem, pois a cor representa tranquilidade, serenidade e harmonia.

Além das representações que assumem visualmente, os nomes das cores combinam-se em expressões que constituem parte importante da nossa comunicação informal, assumindo significados que ultrapassam aqueles das palavras isoladamente. Vamos considerar algumas expressões coloridas da nossa língua, lembrando que outras culturas podem construir relações diferentes das nossas com as mesmas cores:

Branco: Culturalmente associado à pureza e à inocência, à paz e à higiene, no Brasil; já na China a relação com essas ideias faz-se com a cor vermelha, sendo que o branco representa a morte, o luto e a má sorte. A bandeira branca indica trégua; ao dar carta branca a alguém, autorizo-o a fazer o que for necessário; há magia branca e greve branca, que se propõem a não causar danos; e podemos ficar brancos de medo ou de susto. Na Itália, a arte branca refere-se à do padeiro.

Verde: Cor da esperança, da natureza e da juventude. O sinal verde é a autorização para prosseguir; a manga pode estar verde mesmo quando já está amarela; e ficamos verdes de inveja. Há franceses que nunca dirigiriam um carro da cor verde, mas não é porque a associam ao Palmeiras; é porque a cor se relaciona a emoções negativas, como a raiva. Aliás, somente 1% dos compradores de carros escolhe a cor verde, e os carros dessa cor são considerados de azar nas pistas de corrida.

Preto: É a cor da noite, da morte e da tristeza¸ mas também da elegância. A magia negra, ao contrário da branca, sempre é usada para prejudicar alguém; também assumem conotações negativas a lista negra, o câmbio negro, a ovelha negra; já o ouro negro, que é o petróleo, assume valor positivo. O que para nós é um olho roxo, em inglês é um olho preto.

Vermelho: Relaciona-se à nobreza, ao alto clero, ao sangue e à paixão. Estender o tapete vermelho para alguém é recebê-lo com pompa e honra; o telefone vermelho é a ligação direta entre as autoridades; mas por outro lado ficar no vermelho é estar devendo, e levar o cartão vermelho é ser expulso. Na língua inglesa, pegar alguém com a mão vermelha é pegá-lo em flagrante, fazendo algo errado.

Outras cores: Uns têm muita e outros têm pouca massa cinzenta, que representa o cérebro ou parte dele; podemos ficar roxos de vergonha e ser torcedores roxo de um time de futebol. Em português, os ricos nascem em berço dourado, enquanto que em inglês eles nascem com uma colher prateada na boca.

Tantas expressões dão um colorido especial ao que falamos, buscando transferir para a língua o que vemos e percebemos à nossa volta. E quando se trata de lugares e costumes diferentes, assim como os gostos, as cores não se discutem. Depois do novembro azul, que venha um dezembro com muitos passarinhos verdes, e que as nossas amizades e relações familiares não passem em brancas nuvens. São permitidos branquinhas e pretinhos básicos. Mas cuidado: Para evitar o janeiro vermelho, não gaste uma nota preta.

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