Autumn leaves

Estive a alguns dias na Califórnia, mais especificamente, em San Francisco, onde fui para o casamento de minha filha, Mayara. Estive também em Berkeley, onde Mayara faz mestrado em Direito, na prestigiosa Universidade daquela cidade. Passei por Oakland, San Mateo, por algumas de suas belas praias, como San Gregório, Half Moon Beach e Pescadero, onde foi a festa de casamento de Mayara e Bradley. Terminei a viagem em Los Angeles. Em San Francisco ao me deparar com as calçadas cobertas por folhas amarelecidas fui remetido de imediato a Autumn leaves, uma de minhas canções preferidas e de autoria do compositor húngaro, Joseph Kosma, com letra do francês, Jacques Revért.

A beleza outonal se harmonizava com a arquitetura de San Francisco, principalmente, em seus bairros mais residenciais onde predomina a arquitetura Vitoriana. Seus principais prédios públicos, entretanto, pertencem à arquitetura Art Deco, movimento surgido no entreguerras. A cidade além de ser um dos principais palcos do movimento hippie, também abrigou grandes estrelas do rock’n roll, como Janis Joplin, Jefferson Airplane, depois Starship e Greatfull Dead, a lendária banda que fez seu último concerto em cima de um caminhão pelas ruas da cidade. As casas do Airplane e do Dead ainda estão lá, como o teatro onde Jimmy Hendrix fez vários shows. Acho que San Francisco começou a ganhar sua aura libertária no final dos anos 50, atraindo ícones da Beat Generation, como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Gregory Corso e Lawrence Ferlinghetti. Este último mais que um grande poeta criou a mitológica editora City Lights, que publicou várias obras Beat. A editora existe até hoje e sua homônima livraria está lá impávida. Me emocionei quase às lágrimas na referida livraria e no Beat Museum, que preserva objetos dos integrantes do movimento que viveram na cidade. Visitei Castro, libertário bairro onde nasceu o movimento LGBT. Dali surgiu a voz de Harvey Milk, um dos principais líderes da causa e que pagou com a vida suas reivindicações pela igualdade de gênero, infelizmente, até hoje refutada pela idiotia conservadora. De Castro fomos andando até o bairro vizinho, Mission. Lá conheci apresentado por meu genro, Bradley, o famoso Mission Dolores Park. Lotado em uma tarde de domingo por integrantes das mais variadas tribos, me causou admiração pela diversidade daquela harmoniosa convivência. Comentei isso com Bradley, que me respondeu que embora ali predominasse a diversidade, com o boom econômico da cidade, o bairro que abrigava integrantes da classe média baixa e do proletariado foi, paulatinamente, se transformando em um bairro burguês. Em San Francisco estão escritórios do Google, Twitter, Uber, entre outras milionárias corporações, que transformaram a cidade em uma das mais caras dos EUA.

A desigualdade social é enorme e há um imenso número de homeless, o que comprova que o capitalismo não deu tão certo assim como preconizam os defensores do estado mínimo. Em San Francisco drogas leves, como a maconha, são vendidas em lojas especializadas, mediante cadastro e apenas para cidadãos americanos e o aborto é legalizado, o que comprova o viés libertário da cidade. Entretanto, há uma legislação bastante rígida quanto a venda de bebida alcoólica. Existem estabelecimentos que vendem apenas vinho, outros que comercializam vinho e cerveja e são raros os bares que vendem destilados, pois a comercialização destes em bares é, altamente, tributada. São avanços que o Brasil do atraso até hoje não percebeu ou não quer perceber. Raramente, se ouve falar em crimes ou acidentes de trânsito motivados pelo uso de maconha, não ocorrendo o mesmo com a ingestão de bebidas alcoólicas, vendidas por aqui de forma indiscriminada.   

Estive na Amoeba, a maior loja de discos da Califórnia. Lá você encontra desde vinis raros, usados e novos até CDs e DVDs dos mais variados gêneros. Enquanto eu e Nina Rosa procurávamos alguns dos mais importantes discos da história do jazz, do soul e do rock, ouvi nos alto falantes da loja uma música que me agradou muito. Perguntando a um dos vendedores quem era aquela cantora, tive o prazer de descobrir Rosanne Cash, uma espécie de nova Jony Mitchell. Há vinis usados com preços acessíveis e vinis novos com preços, extremamente, salgados para o nosso pobre real.

Nos vários dias em que estive na Califórnia meus ouvidos foram poupados da maldição do tal sertanejo universitário.

Em San Francisco, nas lojas, bares, restaurantes e em veículos da Uber, a trilha sonora era composta por clássicos do rock, velhas canções dos anos 70, e, 80 e jazz. Em Los Angeles, jazz e clássicos da canção norte americana, com muito Sinatra e Ella Fitzgerald.

Na Via Rodeo Drive em Beverly Hills, todo o quarteirão que compõe a via é sonorizado e nos cerca dos 45 minutos em que lá estivemos, tocou, exclusivamente, canções interpretadas por Frank Sinatra. Uma maravilha!

Los Angeles não tem a metade do glamour de San Francisco, é uma cidade, totalmente, voltada ao turismo e à indústria cinematográfica. Na Hollywood Boulevard, onde fica a Calçada da Fama, encontrei o Capitão América, Batman, Super-Homem, Mulher Maravilha, Mickey, Pateta entre outros, que se oferecem para tirar fotos com você e é claro, cobram por isso. No Hollywood Center, que também fica na rua que menciono acima estava acontecendo a gravação de uma etapa do programa  American Idol e vi chegar Lionel Ritchie, Kate Perry e mais um cantor da música country, que são os jurados do programa. É também no Hollywood Center que fica o Dolby Theatre, local onde é realizada a cerimônia da entrega do Oscar.

O Pier de Santa Mônica é bem bacana, já Venice é meio sem graça.

O bairro de Burbank é bacana, pois é ali que estão os grandes estúdios de cinema.

É isso, estamos longe de ser os EUA, mas como disse, lá também há profundas desigualdades sociais. Na Califórnia, especialmente, em San Francisco, os democratas são maioria, fruto certamente, do viés libertário da cidade, a mais charmosa e atraente que conheci até hoje.

 

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