Azul Royal I/II

O ano chegando ao fim, mais uma década se encerrando. Na verdade um século termina e um novo milênio inicia. Estamos em 1999, e, o 3º milênio se apresenta. Para fugir a regra, prometi a mim mesmo: nada de retrospectiva, muito menos lista de resoluções de ano novo. Me nego à rotina. No máximo me permito uma análise simples e percebo que tenho muito mais passado que futuro, mas isso é somente um som que ecoou em minha mente, rápido flash. De antiga estante apanho uma caixa, remexo papéis e encontro uma carta, com carimbo dos Correios da França de 11. IV. 2024 borrando artísticos selos. Lindos, uma obra de arte.

Viro o envelope e não tem remetente. Desviro de novo e um sorriso irônico toma conta de meu semblante. Um susto! Terei visto direito? 2024? Quem está brincando comigo? Lógico, um erro no datador do carimbo.  Examino bem o envelope e lembro que em plena era tecnológica, com fax em toda empresa e os próprios correios utilizando-os em larga escala, como alguém ainda escreve cartas? Estamos entrando no ano 2.000 e Uma Odisséia no Espaço filmado e lançado ainda em 1968 mostrou 32 anos atrás um super computador, HAL 9000, capaz de pensar, raciocinar e até talvez possuir sentimentos e alguém ainda escreve cartas!

Coisa maluca, saudosismo, sei lá. Resolvo examinar com mais cuidado e percebo a textura do papel um pouco diferente do que estou habituado manusear, caligrafia de caneta tinteiro em Azul Royal, a mim endereçada e cuja letra penso conhecer, mas não consigo identificar. Ao pensar na tinta Azul Royal a imagem de uma antiga Parker 51 brilha a minha frente, que logo desaparece. Duplo delírio: 2024 em Azul Royal e eu acreditando ter sido a carta postada no futuro. No futuro? Sim, 2024 é futuro e claro, caio na real, estou viajando! Vou dormir.

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Sábado, ainda sonolento preparo o café, corto frutas, coloco as torradas, as gatas falam comigo e se enroscam em minhas pernas, sobem na pia e pedem para abrir a torneira. Bebem água e pulam no parapeito da janela para buscar o sol. Meu celular está em cima do balcão; apanho e vejo que são quase 8 horas. Olho a data. As mensagens, depois vejo. Abro a geladeira, apanho o doce, queijo e manteiga. Paro. De repente paro. Coloco tudo na mesa e apanho o celular de novo olhando a data: 19 de agosto de 2018. Tudo bem, 2018. 2018??? Celular? Começo a rir. Antes de ir dormir era quase final de 1999. Claro, foi um sonho. Olho em volta e reconheço o lugar. Estou em casa! Fecho e esfrego os olhos. Foi um sonho ou é um sonho? Sei não. Talvez tenha sido o efeito de ontem no deguste do belo Vin Domaine de La Mordoree Côtes du Rhône Rose, cheirando ainda a primavera de 2017 em Paris. Como sentir no olfato a primavera de 2017 em Paris se ainda estamos em 1999? E a data no celular? Por sinal não encontro mais o celular, mas não deixei a cozinha em momento algum. É muita data, que foi, é, ou vai ser, numa dança mágica do calendário, com números voando, virando fumaça, algarismos romanos bailando no ar. Claro, foi um sonho. Rio de mim, para mim mesmo. Volto à mesa e tomo o café. Lógico que as torradas queimaram, esqueci de novo. Como assim, de novo? Não me lembro de ter esquecido alguma vez, mas enfim…

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Nevou a noite inteira! Frio, mas nem tanto, pois o sol mostrou seus raios e foi aquecendo e alegrando o dia. Ela ficou dormindo, aninhada no quarto aquecido. Queria que tivesse ido junto comigo, mas confesso, ela estava tão linda e feliz que parecia ronronar sorrindo no meio das cobertas. Sai quieto deixando um bilhete (e um beijo!), contente para buscar uma baguete e apanhar o leite. Aproveitei para escolher uma geléia de amora. Aqui em Eguisheim é assim, anda-se pelas ruelas para sentir o frio e entra-se nas pâtisseries, fromageries e vinícolas para aquecer a alma, na busca do croissant perfeito.

Para acompanhar o tiramisu que ela adora, vou levar uma pequena garrafa de Vin Muscat de Beaumes de Venise Vidal Fleury. Voltando para casa refaço os contatos confirmando os amigos e amigas que passarão o natal conosco. A Luly vai gostar, pois seu amigo Jajá virá! Vamos percorrer a Alsácia, indo a Colmar e Strasbourg no festival de natal mais fantástico da Europa, navegando pelos trens e festejando nas gares e praças ao encontro dos Noéis mais alegres da França.

O Coral de Natal na Cathédrale de Strasbourg vai maravilhar a todos e sei que será impossível não se emocionar, mas as lágrimas da felicidade são doces e macias. De três a cinco dias nesse circuito e claro, depois daremos um pulo a Paris para ver as luzes na Champs Elysées e Torre, navegando no Bateaux Mouche pelo Sena. Serão pouco mais de duas horas de trem de Colmar a Gare de l’Est, a 320 km por hora. Quem sabe visitar o Domínio de Maria-Antonieta no château de Versailles em um dia de sol, na casa do Rei Sol. Esse dezembro de 2024 vai ser lindo, pois aqui nessa época arma-se o Christmas Market Eguisheim no espaço bem em frente da Boulangerie Patisserie Marx, no 39 da Grand Rue, nossa Poulaillon preferida. Maravilha!

 

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Outra manhã, outro dia, então espanto a preguiça coçando a cabeça, bocejando escandalosamente. Calor, sol alto e farto, acho que dormi demais, mas domingo tudo se permite, até um gostoso ócio e um nada pensar. Vou fazer o café, muito mais para saborear o cheiro. A manteiga derretendo na torrada quente, lembro de repente da carta. A carta de 11.IV.2024!

Como lembro a data, não o sei, mas lembro. Pego o celular de novo e antes de ver a hora, olho a data: 18 de novembro de 2019. Começo a rir, mas agora um riso nervoso. Reviro uma, duas, três e todas as gavetas. Não encontro a carta, sequer encontro a caixa onde ela estava. Nem sei se existe alguma carta. Acredito estar delirando. Corro até a janela e abro buscando saber onde estou e vejo que realmente estou em casa, no pé da Serra.

Na verdade me sinto um nômade, quase como um cigano ou um escocês errante, ou seria um viking… sei lá, há tempos não conheço nem reconheço fronteiras e geografias. Acho que estou levemente amalucado e prefiro pensar que o lance da carta não passou de sonho, mas que foi muito real isso foi.  O dia passa, nem sei o que fiz, não lembro por onde andei e antes de deitar procuro o celular e não o encontrando verifico no calendário a data: é 30 de dezembro de 1999. Vou dormir, afinal amanhã será o último dia do século XX.

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Acordo com o cheiro delicioso de puro café que flutua pelo ar e escuto a máquina apitar avisando que o pão está pronto… hummm vou comer uma bela féta ainda quente com manteiga. Levanto, vou ao banheiro e após avanço cozinha adentro. Sento a mesa e procuro a geléia de amora; não encontrando pergunto a ela: onde está a geléia de amora que comprei ontem?” E ela responde: que geléia de amora? Faz tempo que não vejo uma por aqui!”. Então explico: trouxe quando fui pegar a baguetee ela começa a rir dizendo: Baguete? Pensa que está aonde? Na França?” e dando tchau vai trabalhar, rindo muito. Tomo o café sem pensar em nada e também me arrumo para ir trabalhar. Antes passo os olhos pelo calendário na parede e vejo que é 31 de dezembro de 1999. Então me lembro da carta e abro uma, duas e na terceira gaveta a encontro. Olho o destinatário e confirmo: Mr.Carraro, Flávio – 12, Place Charles De Gaulle – 68420 Eguisheim – FR . Então no futuro não moro em Paris? Tudo bem, pelo menos moro na França! Ainda não abri o envelope, vou fazê-lo agora.

O telefone toca, é Artur convidando para tomarmos um café, agora, ali perto mesmo, na XV e de repente sinto uma brisa movimentar as páginas do calendário e percebo estar em Curitiba, fevereiro de 2017. Coloco a roupa, pego os óculos e chave, e saio ao encontro unilateralmente marcado, sim, porque tem que ser assim. Leio a carta outra hora, se é que existe o que ler e sem muito pensar ao passar pela sala abro uma gaveta e a jogo dentro.

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Amanhã é véspera de natal e não temos compromisso algum, a não ser com um bom vinho, um pequeno pernil, uma farofa natalina como só ela sabe fazer e strognoff de nozes como só ela faz! Estamos felizes! Vamos viajar logo em seguida ao natal e mais uma vez buscar lugares nunca vistos e andar por caminhos outras vezes já percorridos.  Viagem no espaço, ao infinito do infinito.

De novo me vem à mente o filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, de 1968. Bela ficção, uma das melhores que já vi. Gosto de ficção e sempre considerei toda ficção como a antecipação do futuro. Futuro, 2024, a carta… A carta! A Carta!!!  Olho o celular e tenho medo de abrir e checar a data. O que faço? Paro e sento. As datas bailam em minha mente, flutuam como gaivotas no mar, se viram e reviram como cabeças de corujas, números que se misturam, vão e voltam mais ou menos luminosos. Tudo escurece e de repente uma explosão de fogos! Não acho o celular, mas encontro o calendário e estampado lá está: dezembro 1999. Busco e encontro também a carta. Vou abrir! Sento na cama, encosto-me no travesseiro, as mãos tremem, rasgo com cuidado o envelope e tiro de dentro o papel, desdobrando-o vejo a mesma caligrafia em tinta Azul Royal.

Está datada: Edinburg-UK, 06.IV.2024. É um convite para nos lembrar que ficamos de ir à Escócia e assistirmos juntos com ele o Festival Internacional de Edimburgo, que acontece em vários pontos como o Castelo de Edinburg e no The Hub, uma impressionante torre gótica no topo da Royal Mile, durante as três últimas semanas de agosto. A Europa inteira marca encontro por lá. Nem pensamos duas vezes, pois a última vez que estivemos juntos foi em 1992. Está resolvido, vamos para a Escócia em agosto e depois voltaremos para receber os amigos no natal em casa e de trem percorrer a Alsácia. Claro que ele também estará nesse grupo. Quando comecei a ler a carta reconheci aquela letra e lembrei que a Parker 51 sempre foi carregada com tinta Azul Royal, afinal é A Caneta de Meu Pai!

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