Beat a geração dos desvalidos

Escrevi esse texto em novembro de 1984. Ele foi publicado em minha coluna no Jornal Caiçara e também no jornal, Canto Geral, do Diretório Acadêmico da FAFI, hoje Unespar.
Como agora em San Francisco, vi de perto lugares e coisas da Beat Generation, decidi republicar o texto, o único antigo, que deverá fazer parte de meu livro, Breves histórias.
Foi com Jack Kerouac, o enfant terrible da Geração Beat, com seu livro On The Road, lançado no Brasil, em fevereiro de 1984, pela Editora Brasiliense, que começaram a aparecer no Brasil, com mais de 30 anos de atraso, os livros daqueles que foram os precursores dos rebeldes sem causa (rebels without a cause) da década de 50, e, do movimento hippie surgido nos anos 60. Kerouac é ao lado de Willian Burroughs (Almoço Nu e Junky entre outros), o papa da prosa beat, enquanto na poesia o principal expoente do movimento é Allen Ginsberg, considerado por muitos como um dos maiores poetas americanos vivos. Merecem ainda uma menção especial os poetas Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso e Gary Snyder.
O termo beat foi criado pelo próprio Kerouac, juntamente, com outros termos muito usados na época, como hipster, por exemplo, foram extraídos da linguagem jazzística. A tradução literal do termo beat, é batida, daí sua ligação com o jazz, com a batida dos músicos de jazz, com o ritmo e o movimento deste. O termo beat também está intrinsecamente ligado ao modus vivendi das pessoas in daquela geração, marcadamente isenta de normas fixas, tanto na vida, quanto na escrita, ambas eram cheias de improviso e contestavam o status quo burguês.
A Geração Beat foi sem dúvida uma geração em movimento, extrapolando os limites de um simples movimento artístico e intelectual e atuando muito no campo existencial. Os beats como não poderia deixar de ser eram grandes curtidores do jazz, que surgiu no seio da raça negra, violentamente segregada e reprimida. O jazz da época, ou algumas de suas vertentes, não fazia parte do esquemão comercial, daí também a admiração dos beats, principalmente pelo jazz bop que era quase só improviso, com seus sopros sagrados atingindo verdadeiros paroxismos. A característica mais marcante da prosa beat é a espontaneidade delirante, que muitas vezes assemelha-se à escrita automática do surrealismo.
O poema Kaddish, de Allen Ginsberg, que é um relato fiel da sua loucura e de suas experiências vividas na infância e adolescência, tem certa semelhança com o longo poema Zone, de Apollinaire, que foi um dos grandes influenciadores do movimento surrealista, cujos principais expoentes, Breton, Aragon e Soupault, tinham verdadeira devoção por ele.
Ainda tiveram grande indluência sobre os beats, além de Apollinaire e alguns surrealistas e dadaistas: Rimbaud, Walt Wbitman, Gertrude Stein, Pound e Baudelaire.
Em resumo, os beats contestaram furiosamente o American Way of Life, foram verdadeiros cultores das drogas, da liberalização sexual, do jazz bop e alguns deles como Ginsberg estiveram muito ligados ao Zen-Budismo.
O estilo de Kerouac, que como já disse foi um dos maiores expoentes do movimento, foi definido por Ginsberg como uma prosódia bop espontânea, dentro de um extraordinário projeto que consistia em descobrir o ritmo da mente trabalhando em alta velocidade na prosa, é bem verdade que não comumente, sob o efeito de drogas. O estilo beat, volto a frisar, aproxima-se bastante da escrita automática, que é a pedra fundamental do surrealismo, que por sua vez tentava liberar o inconsciente dos grilhões da razão, do utilitarismo, da lógica formal.
Os primeiros beats surgiram na década de 40, mas era tamanha sua vanguarda, seu posicionamento (se é que formalmente havia algum) que hoje, quase quarenta anos depois, seus textos quer na prosa, como na poesia, não foram amarelados pelo tempo e principalmente aqui no Brasil, numa época de incertezas, transições e busca de afirmações tais textos inconformistas, irreverentes e contestadores e sobretudo transgressores, encontram um campo muito fértil para sua propagação.
Ler beat não significa em absoluto aderir às suas idéias, mas tomar conhecimento de um movimento muito mais que literário, mais que importante na literatura contemporânea como o Roman Noire e o surrealismo não pode passar despercebido.

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