Bilhete para Pedrinho

Ano XVIII – 04/março/1972 – Número 239

Não me lembro quando o conheci só sei que sempre nos demos muito bem e nossos encontros foram marcados por papos rápidos, pois ambos tínhamos pressa.
Mais tarde soube do seu casamento. Nos primeiros anos você foi feliz e o merecia. Algum tempo depois, soube que sua jovem esposa adoecera. Começou então a sua luta titânica. Lutando, trabalhando, você consumia o que ganhava na doença de sua esposa. Você batalhou como um bravo e como poucos o fazem. E ela não sarava. Mas você é forte e nunca desanimou. E continuava porque já tinha filhos e agora mais do que nunca sua jovem mulher precisava viver.
Os anos foram passando e nada muda na saúde de Walkiria, que também nunca se entregou ao desespero. Finalmente veio o pior, aquilo que chega e ninguém quer.
Mas de uma coisa você deve orgulhar-se: jovem, nunca se entregou ao desespero, à bebida, como fazem os fracos. Você foi um gigante e deu lição para muita gente, lição de esperança, de fé. E o que eu mais admiro foi que você jamais perdeu a fé e revoltou-se contra os desígnios misteriosos de Deus. Nunca se ouviu de sua boca uma palavra em função dos filhos. Jovem ainda, você conheceu a dureza da vida. Mas foi um gigante que lutou com unhas e dentes para salvar a vida de sua jovem esposa, que foi tão fiel no cumprimento do dever de mãe e de esposa, tão heróica em todas as adversidades da vida, foi agora receber a recompensa no céu.
Mas a vida é assim, as ausências se acumulam. Afastadas de nós as imagens de pessoas amadas que partem. Sei que nesta hora por melhor e por mais intencionada que seja a palavra se perde descolorida, contraída, desmerecida no vácuo atormentado. Nestas horas as palavras não existem no momento de sua angústia íntima, silenciosa irrevelada. Palavras não adiantam. Cartas, telegramas seriam como esteiras de gráficos fustigados. Hoje você precisa continuar a ser aquele gigante, por seus filhos. O futuro deles depende da sua coragem, da sua fé. Para sua jovem esposa, guarde um lugar no seu coração, mas não a carregue nos ombros como um peso – ela não gostaria disso tenho certeza. Porque meu caro Pedrinho – eu sei por experiência própria, vivida e sofrida que, se alguém adorado se foi, se nossos planos falharam com a partida dessa pessoa, nada disso deve destruir a nossa fé. Para você restam as crianças, seus filhos, crianças que são o amanhã, resta para você ver a felicidade nos olhos dos seus filhos, resta o ideal, imorredouro de fazer algo de digno como até agora você fez nestes anos que passam tão velozes. Uma vida, meu caro amigo, a despeito de todos os sofrimentos vale realmente alguma coisa se impregnada de fé naquele que é o Senhor do Céu e da Terra e que é o nosso único consolo nas nossas horas tristes e amargas.

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