BMW e WO: Entre a lógica e a intuição

Sabemos o que significam as siglas: são as abreviações de Bayerische Motoren Werke, a Fábrica de Motores da Baviera, e de Walkover, que é a atribuição de uma vitória quando o oponente (ou a equipe adversária) está impossibilitado de competir. Mas como fazemos a sua leitura? A importância da escolha dos exemplos está em suas origens estrangeiras, sendo a primeira do alemão e a segunda do inglês. Ambas são lidas letra a letra, e apresentam o W. Como deverá ser pronunciado este, /dáblio/ ou /vê/ [uso as barras inclinadas para indicar que se trata da pronúncia, e não da grafia], agora que a oportunidade de pronunciá-la multiplicou-se extensamente com a implantação da Internet?
Ora, estamos usando os termos enquanto falamos em português, certo? Então usaremos a pronúncia da letra em português, pois a mesma existe em nosso alfabeto: /dáblio/. É o que fazemos ao falarmos WO ou WWW, a sigla para World Wide Web, a Rede Mundial de Computadores. Poderia-se dizer que, vindo do inglês, fica fácil pronunciar /dáblio/, pois o nome da letra em inglês é muito parecido; mas e as letras restantes na sigla? Nós as pronunciamos também em inglês? Parece-me que não seguimos essa lógica, porque dizemos /dáblio-ó/, e não /débliu-ôu/…
É nosso hábito ignorar a origem das siglas estrangeiras e atribuir-lhes leitura nacional. As siglas CD (Compact Disc) e LP (Long Playing), por exemplo, foram acolhidas com a pronúncia de qualquer vocábulo nosso, /cedê/ e /elepê/; não falamos /sidi/ ou /elpi/. Já imaginaram se fôssemos pronunciar KGB (polícia secreta russa) com base em sua origem? Não saberíamos nem por onde começar: КГБ – Комитетгосударственнойбезопасности!
Então não é a lógica da pronúncia estrangeira que seguimos ao pronunciar as letras das siglas. Tampouco seguimos a lógica de pronunciar sempre as letras em português, como atestam as pronúncias de DKW (Dampfkraftwagen – carro de força a vapor) e WC (water-closet – toalete), popularmente pronunciados /decavê/ e /vecê/, em que a letra W é pronunciada /vê/, sendo que uma sigla é do alemão e a outra é do inglês.
Há quem sustente que a pronúncia da sigla do título, BMW, deva ter o W pronunciado /vê/ em fidelidade à pronúncia alemã, da qual se origina. Se assim fosse, pronunciaríamos a segunda letra da sigla /ém/ e não /ême/, não é verdade?
Chego à conclusão de que não há fidelidade linguística na pronúncia das siglas; usa-se conforme o costume, pois é assim que as coisas funcionam. Escolhe-se ou não uma lógica. E num embate como esse, entre a regra e o uso, o uso é sempre vencedor; dança-se a música conforme a maioria, intuitivamente. Cada um escolhe o que mais lhe aprouver, até que, com o tempo, a escolha se consolide pelo uso.
O confronto entre as falas dá-se também apenas em âmbito nacional. Tome-se a sigla da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – OSPA. Pronuncia-se /ôspa/ ou /óspa/? Quem pensou que a segunda opção é melhor porque todos dizem /bósta/ e não /bôsta/ acertou o padrão, ou o que chamamos de default, o parâmetro a ser seguido. Essa priorização segue uma tendência, um padrão dominante nessa configuração fonológica: gosma, losna, amostra, aposta, todas pronunciadas com O aberto. Como as pronúncias com O fechado são minoria, os bons dicionários indicam, entre parênteses, quando esse é o caso; veja-se resma, por exemplo. Quando nada mencionam, as pronúncias são vogais abertas, /é/ ou /ó/.
Voltando ao caso da OSPA, ouve-se o argumento de que o O deve ser fechado /ô/ porque o mesmo refere-se à palavra Orquestra, em que a pronúncia do O também é essa. No entanto, vê-se em siglas corriqueiras que não há, necessariamente, correspondência entre o timbre da vogal da sigla com o da vogal da palavra que ela representa: Em IBOPE o O está para “opinião”; em BO está para “ocorrência”; e em GBOEX o E está para “exército”.
E o que dizer da pronúncia da sigla IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional? Parece que voltamos no tempo, com a língua portuguesa, pois o uso que todas as pessoas ligadas a ele fazem do seu nome consagrou, neste caso, a pronúncia do PH como /f/, e a sigla pronuncia-se /ifã/. Em primeiro lugar, engana-se quem acha que a grafia do PH ou o seu som de F deixaram de existir no Brasil automaticamente por regulamentação legal. Mesmo que seja em nomes estrangeiros, eles circulam por aí com o iPhone, a Philips e a Phebo. Além disso, não se pode desprezar a forma de falar de gerações de pessoas, ou alguém já ouviu chamarem o Instituto de /ipã/?
Uma língua não se encaixa totalmente na moldura do seu tempo. Para além disso, o uso consagra a norma, e não o contrário.

 

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