Breve reflexão sobre traição

Bandidos, mesmo os mais perigosos, seguem um rígido código de honra. Eis um fato bem conhecido e analisado por vários cientistas sociais interessados em compreender este fenômeno tão grave quanto onipresente em todas as sociedades ocidentais – a criminalidade e a existência de pessoas dedicadas a exercer rotineiramente atividades ilícitas. Dentro deste código estão contemplados comportamentos e atos que nenhum membro da irmandade pode cometer, sob pena de incorrer nas mais variadas punições, a depender da falta. São atos que colocariam em risco a existência do próprio grupo ou de seus chefes; que incorreriam no ataque a valores considerados prioritários por seus membros (como a proibição de realizar estupros, por exemplo); ou que minariam o apoio recebido por aqueles que moram nas proximidades das principais áreas de atuação do grupo (é conhecido nas cidades maiores, por exemplo, o adágio segundo o qual os locais mais seguros para viver são precisamente aqueles onde atuam chefes do tráfico de drogas local, por exemplo). Afirmar que os foras da lei não seguem qualquer tipo de regra denuncia uma absoluta ignorância sobre o tema e implica a recusa em compreender um fenômeno social que é rico, complexo e cuja compreensão possui as chaves para a solução de numerosos problemas sociais dos tempos modernos. Implica, também, a enunciação de uma ideia atravessada pelo preconceito, um dos maiores males brasileiros neste início de século XXI. Implica, em suma, a construção de uma imagem mental que precisa ser revista e reavaliada sob a luz de um cuidadoso estudo teórico sobre o tema.
Dentro deste código de honra, a traição é considerada um dos crimes mais hediondos que alguém pode cometer. De fato, mesmo entre os bandidos mais perigosos faltar com a palavra empenhada é um ato digno da mais completa e notável repulsa, razão pela qual são atribuídas àqueles que o cometem as mais severas e cruéis punições. Segundo este pensamento, uma vez que você tenha se comprometido com o grupo e tenha jurado lealdade e fidelidade aos seus membros, passando a gozar dos benefícios de seu convívio, não poderá jamais se desvincular dos laços assim criados. É bem verdade que em algumas facções é possível a saída posterior, mediante um elaborado ritual tão complexo quanto aquele que possibilitou a entrada. Mas mesmo nestes casos extremos (e bastante raros) o ato só pode se dar mediante consentimento prévio da maioria, que cobrará pelos benefícios ofertados durante tanto tempo o preço considerado justo, seja em serviços seja em espécie. Neste contexto, trair sua nova “família” (não é a toa que a palavra é largamente utilizada pela máfia italiana, por exemplo, para referir-se a si mesma) não raro é um erro punido com a morte infamante, considerada (com boa razão) a mais cruel das punições. Para um traidor não há segunda chance. Não há remorso. Não há perdão. Mesmo entre os piores bandidos do mundo ocidental, a traição é o pior ato que um ser humano pode cometer.
Estas informações vieram à minha mente como um raio no exato instante em que abri a página do jornal Folha de S. Paulo, alguns dias atrás. Na primeira página estava estampada a notícia de que os senhores deputados federais haviam impedido, mediante votação em plenário, o início das investigações contra o excelentíssimo senhor presidente da República, aquele mesmo que lá chegou mediante traição pública e notória a seus antigos aliados e que continua governando, para meu completo espanto, com base na realização de promessas e conchavos com seus novos amigos, os quais seguem impedindo criminosa e desavergonhadamente que a justiça cumpra seu papel e que a operação Lava Jato (tão defendida quanto voltada aos membros de uma determinada sigla política mas tão atacada e ignorada quando se volta aos criminosos das demais) chegue a novos nomes e prenda novos bandidos. Logo abaixo, em um link que logo me interessou, estava a informação de que, dentre todos aqueles que votaram pela mágica e miraculosa imunidade investigativa do atual chefe do Poder Executivo nacional (como me envergonho de ainda ter de escrever isso, entrado já o mês de agosto de 2017), nada menos do que 42% estavam, por seu lado, sob a mira do Sistema Judiciário, temendo eles próprios pelos desdobramentos de investigações que, muito provavelmente, os colocarão atrás das grades casos as suspeitas e delações tenham sua veracidade confirmada (concedo, contudo, o benefício da dúvida a todos cujos crimes não tenham sido comprovados no presente momento).
Configura-se, deste modo, uma situação sui generis que talvez nem mesmo o mais dedicado acadêmico conseguirá, um dia, decifrar. Aquela segundo a qual um grupo de pessoas (me furto a utilizar a palavra “bandido” aqui em favor do benefício da dúvida ao qual aludi acima) perdoa o mais grave dos crimes, aquele que mesmo os perigosos mafiosos italianos punem com rigor, em troca da esperança de serem eles mesmos agraciados com o perdão dos seus em um futuro próximo. Uma situação na qual pessoas racionais fazem questão de manter relações com alguém que sabem possuir um histórico de traição e falta à palavra empenhada. Uma situação na qual uma pessoa eleita foi destituída do cargo sob denúncias de corrupção nunca comprovadas, enquanto outra permanece na mesma função com uma torrente muito mais volumosa de delações, indícios e áudios vazados, graças às manobras moralmente questionáveis de outros tantos acusados preocupados única e exclusivamente com seus cargos, e não com a situação presente e futura da nação. Nação, aliás, infeliz, que vê acontecer no centro de sua estrutura governativa negociatas que enojariam mesmo o mais violento dos traficantes dos subúrbios brasileiros. Os quais continuam, contudo, sendo demonizados por uma sociedade que clama incessantemente por sua eliminação física, enquanto assiste, lê e escuta pacientemente os senhores de Brasília humilharem nossa honra e afrontarem nossa honestidade, levando nossos índices de vergonha a níveis nunca antes alcançados.
Alguns dias atrás tive que ouvir, calado, aos comentários de um colega estrangeiro que “estranhou em tons jocosos”, para usar uma expressão mais leve, a recente passividade dos brasileiros perante demonstrações de escárnio de sua classe dirigente que fariam com que muitos outros povos buscassem garantir, do modo que fosse necessário, sua pronta destituição dos cargos públicos ocupados. Esbocei lembra-lo das manifestações populares de 2015… Diante de uma sonora gargalhada claramente audível graças aos modernos meios de comunicação global, resolvi calar-me em definitivo, desviando a conversa para temas menos embaraçosos. Ainda bem que, de acordo com o sr. Presidente da República, a integralidade do povo brasileiro o está apoiando. Isto me desobriga de imaginar como deve estar sendo difícil para seus membros enfrentar os dias que correm, nos quais cidadãos estrangeiros e políticos brasileiros parecem gargalhar de sua desgraçada sorte, completamente alheios aos seus reais interesses e necessidades. Até a próxima!

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