Brindemos, mas não às frases prontas

Dois mil e dezoito está às portas da despedida e ainda estamos perplexos e ressabiados como quem saiu de um tornado e tateia tonto o espaço. Melhor dizendo, o ciberespaço. Entre gregos e troianos, muita gente se machucou: alguns feridos, desavenças familiares, algumas (ciber)amizades desfeitas, decepções de primeira e segunda categoria.
Nesse cenário turbulento de disputas, vimos a palavra elevada à sua máxima potência, servindo ao mesmo tempo de arena e de arma, por mais duvidosa a origem e a qualidade da munição utilizada. Mas isso não deveria ser novidade. Há mais de dois mil anos, Aristóteles (séc III a.C) nos avisou sobre (e demonstrou) os perigos e maravilhas da palavra, quando discutiu Retórica, a arte da argumentação ordenada.
Se em Aristóteles a discussão sobre argumentação foi desenvolvida com afinco, atualmente novos paradigmas no campo da linguagem forçam a abertura para novas construções teóricas que expliquem os novos fenômenos linguageiros. Explica-se. Não mais restrita a polis grega, na qual a argumentação oral era arena de debate, a constante mudança nos meios de produção e distribuição de textos ao longo dos séculos possibilitaram o acesso mais democrático à escrita. Todo aquele que tem à mão um dispositivo com acesso à internet pode publicar, comentar, rebater, se debater e às vezes apenas silenciar e amargar uma discussão cibernética. De vez em quando, ver uma amizade desfeita, ou uma ofençazinha aqui e acolá.
De todo esse turbilhão de palavras, algumas delas, ordenadas cegamente em frases prontas, foram repetidas e repetidas e repetidas e repetidas até chegar ao total esvaziamento de sentido. Em retrospectiva, lembremos do irritante jargão “É melhor já ir se acostumando”, utilizado para rebater qualquer tipo de crítica ao então presidenciável. A palavra aqui serviu como trava, um embargo no diálogo e impedia uma discussão séria.
Expressões como “o choro é livre”; “aceita que dói menos”; “isso é mimimi” apareciam nos “debates” das redes sociais com absurda frequência. Do outro lado dessa linha, muitas expressões também foram repetidas até a exaustão: “ditador”, “fascista”, “nazista” e tantos outros istas, revelando muito da nossa incapacidade de diálogo.
Outra frase corriqueira em uma discussão política foi a máxima imperativa: “Vá para a Venezuela”. Pessoas que talvez não façam ideia de onde fica esse país utilizaram essas frases como escudo, impedindo qualquer elaboração e discussão mais séria e produtiva. “Brasil acima de tudo”, foi outro jargão que seria gracioso não fosse o grande perigo que representa. A famigerada frase, utilizada nas atividades internas das Forças Armadas, caiu no gosto popular e parece patriótica, mas traz em seu bojo a pressuposição de uma pretensa legitimidade. Isso porque passa a ideia de neutralidade e esconde interesses partidários de todas as extirpes, além de deslegitimar qualquer oposição. Trocando em miúdos, faz com que qualquer oposição ao um partido, pareça uma oposição ao país.
A lista é grande, poderíamos escrever um tratado sobre todas as novas palavras e frases prontas utilizadas durante o ano. Elas sinalizam que temos muitas ferramentas, mas conseguimos dialogar muito pouco, embora o número de caracteres e hashtags nos aponte o contrário.
O Natal se aproxima, assim como o Ano Novo. Começamos a renovar nossos votos e esperanças, fazer os habituais e nada inovadores rituais de fim de ano. Tudo bem. Precisamos disso. Mas dentre eles, façamos votos de novo de que em 2019 estejamos propensos a um diálogo mais saudável, menos formatado em recorrências odiosas e cansativas. Portanto, brindemos, mas deixemos as frases prontas de fora.

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