CAUSAR, verbo intransitivo

Não faz muito tempo, um colega professor me questionou: Karim, o que está acontecendo com o verbo “causar”? Como é que os alunos o estão usando hoje em dia?
O Globo noticia: “Lady Gaga causa com short minúsculo e parte dos seios à mostra”. Normalmente, esse verbo indica que “algo” ou “alguém” causa “alguma coisa”, como em “As chuvas causaram o deslizamento”. Nesse sentido, o verbo “causar” relaciona o causador a algo positivo ou negativo; pode-se causar uma tragédia ou uma comoção, por exemplo. Essa é a interpretação usual, porém ela não dá conta da frase no título da notícia. Nela o verbo “causar” recebe outra interpretação, tem a ver principalmente com “chamar a atenção”, “ser o destaque”, sempre com uma conotação positiva.
Estamos diante de uma mudança semântica, que ainda não está totalmente consolidada, e pode ser, com o tempo, também abandonada. Para firmar-se, a nova interpretação deve ocorrer inúmeras vezes, até que seja percebida como algo usual e não mais como um recurso expressivo empregado em situações específicas. Lembram-se do que aconteceu com o verbo reflexivo “achar-se”? Achar-se bonito ou feio não é o mesmo que achar-se, ponto. Novamente, na primeira interpretação o verbo “achar-se” pode associar-se a algo positivo ou negativo, apresentando uma opinião que se tem de si mesmo; porém na segunda interpretação o significado tem algo de pejorativo ou negativo, pois diz-se que alguém “se acha” quando se acredita que a pessoa na realidade não é o que pensa ou aparenta ser.
Todos nós sabemos que, conforme o tempo passa, e o uso que se faz das palavras, seus valores e suas interpretações mudam. No caso dos verbos mencionados acima, cuja mudança acontece em tempo presente, há algo mais que incomoda o professor e outros simpatizantes do “bom português”: a mudança sintática, nesse caso eliminando a transitividade, parece a criação de uma nova gramática, pois contraria aquela que reconhecemos como nossa.
Outras “novas” formações verbais me incomodam. O Clube Notícia traz a manchete: “Morador acorda e depara com portão e carro cravados de balas”. De tanto ouvir e ler tal construção, cheguei a me perguntar se ainda é legítimo utilizar o pronome reflexivo. Será que seu eu disser que me deparei com alguma coisa, ou que fulano se deparou com algo, estarei pecando por excesso? Ainda posso corrigir a ausência do pronome numa revisão gramatical? Respiro aliviada ao fazer uma pesquisa no Google e verificar que ainda se escreve muito mais com o pronome.
Esta alteração de regência talvez incomode os leitores também: Todos aprendemos na escola que se assiste ao filme; mas é tão esmagadora a maioria das vezes em que ouvimos (e portanto também falamos) a frase sem a preposição, que assistir o filme é muito mais natural e simpático. Esclareço que, nesse sentido, gramaticalmente falando, o verbo ainda é considerado transitivo indireto e necessita da preposição a; o não uso dela acontece no uso corrente da linguagem coloquial.
E o que dizer da declaração do cantor Latino à sua filha no Instagram: “Apesar de você não acreditar, eu lhe amo mais do que você imagina”? (destaque nosso) Amar não é verbo intransitivo, como diz o título da obra do modernista Mário de Andrade, mas também não é transitivo indireto. Amamos algo ou alguém, quando se trata da linguagem culta, embora muito se fale que amamos a Deus, ou aos pais. O mesmo vale para o verbo “perdoar”.
Parece-nos estar convivendo com formas fluidas, ora usadas de um jeito, ora de outro, sem que possamos apontar e adotar, para o nosso conforto, uma forma correta apenas, e descartar todas as outras. Não, feliz ou infelizmente, não é assim que funciona.

Se as formas inovadoras obtiverem vantagens em termos psicológicos e em número de falantes, poderão ao longo do tempo vencer a competição, mesmo em textos escritos. Já não é difícil encontrá-las em manchetes de notícias e em seções de revistas para o público juvenil.

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