Com as Rosas não falei

Se na bela canção de Cartola, as rosas não falam, posso dizer que com as Rosas não falei. E o fiz, ou melhor, não o fiz, por excesso de timidez e por uma profunda insegurança que acometia, creio que, a maioria dos meninos de minha geração, pelo menos meus amigos.
A primeira dessas Rosas foi Rosemarie Deiling. Estudávamos juntos no Externato Santa Terezinha e se minha memória ainda não começa a me trair, em 1968, quando ambos cursávamos o antigo 4° ano primário, certo dia, minha mala mal colocada em um banco caiu e foi juntada por Rosemarie. A única coisa que consegui dizer foi muito obrigado e ouvi um por nada. Esse único diálogo foi o suficiente para que meu coração fosse arrebatado por aquela garotinha de franjinha, para mim a mais linda do colégio. Voltaríamos a nos encontrar alguns anos depois, se não me engano, na 3ª série do ginásio e mais uma vez, nunca nos falaríamos. Nos reencontramos mais de 40 anos depois, relembramos essas histórias. Eu lembrei sua franjinha e ela de um suéter que eu tinha. Belas lembranças.
A segunda dessas Rosas foi Rossandra Monteiro da Cunha, a garotinha da bicicleta verde e de imponente nome.
Rossandra morava nos fundos da Fafi, hoje Unespar, e nos finais de tarde dava voltas na quadra com sua bicicleta e era ansiosamente esperada por mim, Paulo Murara, que morava na esquina das ruas Barão do Cerro Azul e João Gualberto e por Nivaldo Camargo. Nunca comentamos entre nós que a esperavámos, apenas o fazíamos em absoluto silêncio, como que a reverenciar a beleza quase diáfana de Rossandra.
Só fui conversar com ela alguns anos depois, quando eu já estudava no São José, lembro de ter emprestado a ela e a Marilene Cotrim, amiga comum, o compacto de Hermes Aquino, que continha Nuvem Passageira no lado A e Matchu Pitchu, no lado B. Mais uma bonita lembrança.
A terceira das Rosas foi Rosa Marici. Ela morava na esquina da Barão do Cerro Azul, com a Teixeira Soares e quase que diariamente ia à casa de sua amiga Cirlei Guérios, que morava na esquina da João Gualberto com a Castro Alves.
Para ir à casa da amiga ela precisava passar por nós que ficávamos em frente da casa de Paulo a esperá-la. Nunca trocamos uma única palavra com ela, que ia à casa de Nivaldo, pois Dona Natalia, mãe de meu amigo, era a costureira de Rosa. Para ir à casa de Nivaldo ela passava por nossa indefectível esquina e nós dávamos a volta na quadra pela Costa Carvalho e chegávamos à casa de Nivaldo antes dela. Nada dizíamos. Nunca trocamos uma palavra, até que ela sumiu. Presumimos que ela e sua família haviam ido embora de cidade.
Eu conhecia seus irmãos Ananias e Oca e nem sequer sabia seu sobrenome, apenas a admirava a distância.
Muitos anos depois, creio que há uns cinco anos, perguntei dela para Cirlei, que me contou que ela possuía Facebook. Mandei um recado pelo face e uma solicitação de amizade, que ela aceitou, mas ainda não nos falamos. Quem sabe um dia desses…
É mais uma bela lembrança das Rosas que passaram por minha vida, primeiro mudas e hoje minhas amigas, ainda que apenas virtuais, como é o caso de Rosa Marici.

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