Tristeza, perplexidade e vergonha

Neste domingo o Brasil, ou melhor, os brasileiros, decidem se continuam na rota civilizatória ou retornam à barbárie da Idade Média.
Vejo com tristeza e profunda decepção conhecidos e amigos, muitos dos quais jamais haviam se pronunciado politicamente, sem sequer emitir uma única opinião a respeito dos rumos da política partidária brasileira, agora passar, num piscar de olhos, da alienação para o engajamento, da letargia para um estado de hiperatividade.
Esse engajamento em uma situação de normalidade institucional seria salutar, entretanto empunhar a bandeira de quem prega a tortura e a morte daqueles que se opõe ou se opuseram a ditadura, é inaceitável. Como defender quem prega o racismo, a homofobia e a misoginia, como advogar a causa de um candidato sem o menor preparo intelectual e sem equilíbrio emocional e sem a dimensão da grandeza da posição que poderá ocupar.
Me causa espanto e depois mais decepção, ver amigos que dizem que não votarão no candidato do atraso, mas silenciam nas redes sociais e nas conversas informais. Não sei se o fazem por pura e simples omissão, por covardia por que em seu íntimo são conservadores empedernidos e lhes falta coragem para assumir suas posições retrógradas.
Fico perplexo e, entristecido e envergonhado ao ver pessoas conhecidas que se dizem progressistas, mas que, no entanto, compartilham e propagam postagens homofóbicas elegendo seus bodes expiatórios, como o deputado Jean Wyllys, gay assumido e ativista da causa LGBT.
Volto finalmente, ao que estamos chamando de ausência de consciência histórica, isto é, ignorar por conveniência ou mera alienação, o que vivemos num passado recente, com o golpe militar de 64 que muito além de impor censura aos meios de comunicação, baixou intermináveis atos institucionais, que suprimiram liberdades e aviltaram a normalidade constitucional. Como se isso não bastasse, prenderam, torturam, mataram e sumiram com aqueles que divergiam do regime.
Vejo com muita semelhança os episódios que antecederam o golpe militar a marcha com Deus pela família e outras manifestações de cunho conservador, orquestradas por aqueles que almejam o poder e para a ele chegar, alardearam a tal ameaça comunista, dizendo que nós poderíamos nos tornar uma imensa Cuba.
Hoje a ameaça é a volta do PT e a possibilidade de nos tornarmos uma grande Venezuela.
Em 1964 vivíamos em plena Guerra Fria, com grande interferência do imperialismo norte americano, agora há apenas uma espécie de histeria conservadora que se funda em um moralismo duvidoso que flerta com a hipocrisia.
Como disse outro dia, pessoas que nunca assistiram a uma peça de teatro, nunca foram a uma galeria de arte e poucos livros leram na vida, da noite para o dia, em nome da preservação da moral, dos bons costumes e da tal família brasileira, se tornaram críticos de arte e religiosos convictos.
É preciso também lembrar que foram para as ruas para apoiar o golpe militar, 20 anos depois voltariam às ruas pelo movimento Diretas Já, que pedia o fim da ditadura.
Ainda dá tempo, ou do contrário, só restará o arrependimento.

 

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