Como esquecer…

… Ou como deixar de lembrar de Sol Kasteller, que em uma fria noite de inverno, subiu ao palco da Ceva do Brandina e tomou o microfone, como se ele fosse uma extensão de suas mãos e cantou, Lately, a belíssima canção de Stevie Wonder, na versão feita para Gal Costa. Solé, como eu a chamo, cantou divinamente parecendo ter encarnado a voz da Diva. Solé não tema os inquisidores. Eles jamais a colocarão em suas fogueiras, eu estarei ao seu lado e como o Plácido, me transformarei no Super Plá e a restituirei ao panteão das divas, capazes de enxergar a beleza onde ela existe e também de perceber a feiúra que tenta se insinuar entre nós. Nessa hora espero que os inquisidores estejam amargando a tristeza de sua escolha errada. Que esses inquisidores possam ser acometidos do arrependimento prévio, antes que seja tarde demais.
Como deixar que os inquisidores que se acham ungidos por um ser desprezível que prega a intolerância, insinuem queimar um ser para mim diáfano, etéreo, como Fernandinha Grabowski, que um dia me auxiliou e acreditou que o fazer cultural liberta, nos elava e nos permite ver muito além do jardim. Os inquisidores inspirados pelo símbolo do atraso tentam nos impingir uma moralidade falsa e arcaica, mas que jamais, como diz velha canção, ofuscará a claridade que é um pedaço do luar e que ninguém pode tirar do nosso coração.
Como esquecer Rosa Marici, que um dia povoou meus sonhos de pouco mais que um menino e mesmo sem nos vermos a mais de 40 anos apóia e compartilha de minhas indignações e perplexidades com os inquisidores, que consideram minhas posições como desvarios, em nome de uma pseudo moralidade.
Como esquecer meu amigo Edson Mendes, hoje do lado dos inquisidores e que em passado remoto sentou-se ao meu lado ao redor de uma fogueira e juntos imaginamos e construímos um lugar por nós chamado de Laranja Mecânica, onde sonhávamos começar a erigir uma sociedade libertária, sem preconceitos e utópica para 1975. Meu caro Edson, não se diminui a violência com mais violência. Não se restitui a segurança com opressão e repressão, ainda da tempo de voltar para a Laranja Mecânica.
Como esquecer meu amigo Gilberto Lima, que um dia após centenas de escaramuças, ele com Paulo Afonso Riesemberg e Divanzir de Lima, ao lado de Leonardo Hoff e do falecido Eduardo Senff, insistiam em destruir nosso campo de futebol, construído com nosso suor e defendido com nosso sangue. Em uma noite de agosto de 1975, me chamou quando eu por ele passava, no pátio do Túlio, para me dizer: Augusto soube que vocês estão precisando de caixas de som para tocar uma festa, eu tenho duas, se vocês quiserem. Restabelecemos ali nossa até então conturbada convivência. Gilberto também está do lado dos inquisidores. Mas ainda a tempo de perceber que o que eles pregam é vazio, moralista e intolerante. Você não é assim Gilberto, talvez tenha sido, quando me chamava de cristalino, mas um dia deixou de ser. Não volte atrás.
Como esquecer minha prima Lenita Cordeiro Augusto, menina libertária e liberta de preconceitos, capaz de aos 14 anos enxergar mais longe do que nós aferroados aos grilhões da comodidade ainda não víamos, ou seja, que o mundo em que vivíamos não era o que queríamos. Você já antevia isso, uma sociedade mais libertária e daí sem hipocrisia. Não é possível que aquela garota vanguardista que cresceu e se tornou uma mulher moderna hoje compactue com o ideário reacionário dos inquisidores. Você sempre foi uma transgressora, volte para nosso lado.
Como Leca, era Eli Vrzecionek, que conheci quando ia arrumar meu black power no salão de sua tia, a querida e saudosa, Iracema Kulicheski. Eli era moderna, rock’roll, colorida, alegre e bonita. Ficamos amigos, ela era transgressora e como eu acreditava num amanhã em que não nos sentíssemos estrangeiros, sem hipocrisia e falso moralismo. Hoje ela está com os inquisidores, que querem diminuir nossos direitos na porrada. Eli, ainda dá tempo. Você nunca foi assim e nem nunca será.
Como não mencionar minhas amigas Malu Espanhol, hoje, Longhi, e Desiré Costa, eternas demolidoras de preconceitos, hoje mais libertárias que nunca e que ao meu lado combatem o obscurantismo e as trevas que estão cegando amigos queridos.
Como deixar de mencionar meus amigos Caio e Gessica Moreira, Carlos Alberto, Cintia, Camila e Joana Senkiv, entre tantos outros, que comigo combatem o autoritarismo.
Como não mencionar minha filha Nina Rosa e Clarissa, sua companheira, que foram às ruas de Curitiba, gritar com outras milhares de pessoas, Ele não.
Como não mencionar minha filha Mayara, que da Califórnia tem combatido as posições retrógradas daqueles que representam o símbolo do atraso e disse para meu orgulho, que se orgulhava de minhas posições.
Como não mencionar minha filha Iriana, que de Joinville tem apoiado minhas postagens e saído em não raras vezes, em minha defesa e sempre o fazendo com argumentos próprios, jamais colando frases feitas.
Como não mencionar minha filha Mariana, que embora mais silenciosa nas redes sociais, já declarou não votar naquele que prega a supressão de direitos das minorias.
E, finalmente, como deixar de mencionar minha mulher Margarete, que ao colocar em sua foto do perfil no facebook, Mulheres contra Bolsonaro, foi bombardeada pelos seguidores do arauto do infortúnio, que pela falta de argumentos e pela ausência de consciência histórica, teceram críticas de cunho pessoal e ofensivas. Ela permaneceu firme e embora não seja petista, como eu também não sou jamais votará em Bolsonaro.
Eu ainda acredito que a melhor proposta é a do PSOL, de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara.
Infelizmente, não passamos de 1% e dessa forma a única maneira de preservarmos nossos direitos individuais, de garantirmos a permanência do resultado democrático, de permitirmos que as minorias tenham voz, está nas mãos de Fernando Haddad e Manoela d’Ávila.
Voltar atrás, nunca. Ditadura nunca mais.

 

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