Como falar de televisão em época de fascismo

É difícil falar de televisão quando a gente tá vivendo um momento tão sério e dramático na história do nosso país. Domingo tem o primeiro turno das eleições e o modo como essa narrativa foi e está se desenrolando lembra muito essas séries de futuro distópico que viraram moda depois do sucesso de Black Mirror. Nosso momento político poderia ser um episódio da série do Charlie Brooker, aliás. E por falar em futuro distópico e eleições, que analogia melhor do que a que copara as mulheres que apoiam Bolsonaro a Serena Joy de The Handmaid’s Tale?

Estamos em um momento que de Hollywood chegam os comparativos pós denúncias de assédio por parte de dezenas de atrizes, à luz do movimento #metoo. Pois bem, a televisão nos diz e garante que o campo progressista ainda predomina, mas será mesmo? Há que se ter esperança e é perceptível como as temporadas novas de séries como Unbreakable Kimmy Schmidt e BoJack Horseman trabalham suas estórias a partir desse contexto político cultural, trazendo à tona a discussão de machismo e ambientes tóxicos para mulheres. BoJack é, ele próprio, um personagem tóxico. Mas a série usa disso para fazer uma importante autocrítica, trazendo no fictício projeto de televisão estrelado por BoJack o ambiente de produção televisiva, bastante injusto com a representação feminina, na frente e por trás das câmeras.

Apesar disso, o que se vê no campo político é outra coisa. Se aqui temos um sujeito despreparado e que propaga discursos de ódio com conotações fascistóides, lá nos EUA a gente tem um Trump eleito, um outro sujeito claramente misógino e pouco ou nada preocupado com os direitos de minorias sociais e políticas. Se dependesse de Trump ou de Bolsonaro as narrativas de BoJack, de Kimmy e de Handamaid’s Tale provavelmente seriam diferentes. Provavelmente o primeiro beijo entre dois rapazes não teria acontecido nesta semana que passou na Malhação. Não teríamos uma preocupação com representação e representatividade.

Os valores tradicionais podem soar interessantes a uma fatia grande da nossa população. E ok. O conservadorismo pode existir em paralelo ao libertarismo. Mas o estado não deve se envolver nisso, para além do que seja contenção de violência. E é justamente por isso que precisamos discutir gênero nas escolas. É por isso que castração química não resolve o problema do estupro. O maníaco do parque, por exemplo, era impotente e mesmo assim era um estuprador. O estudo de gênero é descontruir o machismo e trabalhar na via da equidade, tratar meninos e meninas como iguais, com direitos iguais. Um programa de governo que se preocupa de fato com seus cidadãos, todos eles, tem que focar em prevenir a violência e propagar o respeito, ao invés de focar em ações punitivas que por muitas vezes são pouco efetivas.

O estado precisa discutir violência, não só na pauta da segurança pública – que é incrivelmente importante – mas também no campo dos discursos de ódio racial, de gênero e sexualidade. Um país violento não precisa de um presidente violento, com um forte discurso de ódio. Um país laico não precisa de discurso religioso. Um país que mata mulheres só por serem mulheres precisa de desconstrução de conceitos e de entendimento sobre o pertencimento do corpo. O Brasil não precisa de um fascista no principal cargo do executivo. E definitivamente o Brasil não precisa e não merece virar uma narrativa sobre futuros distópicos. O antipetismo não pode nem deve ser maior do que os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade que deveríamos propagar. Um discurso violento gera um país cada vez mais violento. Um presidente despreparado aumenta a crise social, econômica e política.

Nós não vivemos um drama de ficção científica até aqui, mesmo com a nossa democracia suspensa. Espero que no mês que vem possamos ainda estar seguros de que não viveremos isso. E acreditem, já estivemos imersos em crise maior e vocês sabem disso. A inflação descontrolada da era Sarney, a fila do leite. E provavelmente já se roubou tanto na história desse país, sim. Nossa história é de roubos e saques, desde o período da colonização. Mas pra falarmos de coisas mais próximas, a gente sabe muito bem que teve muita corrupção e muito desvio de dinheiro durante a ditadura, porém como era uma ditadura nunca ninguém conseguiu investigar. Como a gente também sabe que a construção de Brasília no governo JK, provavelmente, gerou muito mais desvio de dinheiro do que a era PT.

Por outro lado, é óbvio que o PT não é um partido bonzinho e vítima das circunstâncias. Eles fizeram a cama, agora que deitem nela. Que em algum momento surja um mea culpa, um entendimento de que houve muita coisa errada, de que a Dilma não recebeu o Suplicy por diversas vezes, por exemplo. Que o governo PT rifou os movimentos sociais, afastou a militância mais sincera. E em 12 anos não fez uma única ação importante pelo meio ambiente, ao contrário. Talvez por um breve momento, quando a Marina estava no ministério, tenha tido um esforço. Mas nada de significativo.

Tudo isto posto, no segundo turno eu voto em qualquer coisa pra tirar de lá o Coiso. Eu até aceito viver num episódio de Black Mirror, de Handamaid’s Tale, jamais.

 

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