Corra!

Bom, aqueles esquemas. O texto a seguir contem spoilers sobre o filme Corra!, de Jordan Peele. Mas só nos parágrafos mais a frente. Vamos as linhas gerais da história. O nosso protagonista Chris está prestes a viajar a um lugar afastado para conhecer os pais da sua namorada, Rose. Chris é negro e Rose (e toda sua família) são brancos ditos liberais. O liberal no caso é demonstrado pela insistência, tanto de Rose quanto dos pais, de afirmar que votariam em Obama novamente. O que é bastante raso e não deixa o namorado mais tranquilo. Inclua-se aí o fato de Rose nunca ter namorado um negro antes. A situação de tensão já vai se armando, ainda que levemente. Tudo isso por si só não diz muita coisa, mas quando você pensa que o filme é classificado por alguns veículos como terror racial, a coisa muda de figura.

Ainda durante a viagem acontece uma daquelas coisas incrivelmente clássicas de filme de terror: o presságio. Rose está dirigindo e conversando com Chris quando acidentalmente atropela um veado. Isso deixa Chris num estado ainda mais introspectivo e de preocupação. Anunciando e enunciando que existe algo em comum entre o protagonista e o animal abatido. A relação entre o acidente e o histórico de vida de Chris vai se desenrolando lentamente ao longo do filme, que parece apontar para vários caminho possíveis de desenlace. Mas o que realmente acontece é relativamente inesperado.

Continuando. Quando chegam ao chalé afastado em que moram os pais de Rose, a primeira coisa a ser notada é que os serviçais são negros. E uso essa palavra não de maneira leve. É aquele tipo de relação paternalista em que o empregador diz que os empregados são como parte da família, para em seguida trata-los como o oposto disso. O pai de Rose ainda tenta justificar, explicando que eles trabalhavam na casa desde a época em que seus pais, avós de Rose, ficaram doentes, e que por isso não teve coragem de manda-los embora. A tensão cresce, pois tanto a governanta quanto o jardineiro se comportam de maneira estranha. Tendo pequenos acessos ou pequenos blecautes de consciência. Em seguida somos apresentados ao irmão de Rose, uma figura mais agressivamente racista, que faz comentários sobre como o corpo negro é mais apto e atlético do que o corpo branco. Para depois ameaçar Chris, um fotógrafo/artista, com golpes de jiu-jitsu. Rose estarrecida e Chris sem poder acreditar que aquilo tudo é real, ainda são surpreendidos uma vez mais, ao descobrir que este final de semana exato também marca uma importante confraternização da família com amigos.

A casa isolada, as personalidades díspares e estranhas de seus moradores, a relação entre os patrões brancos e os empregados negros e, por fim, a chegada de dezenas de casais brancos definem que o protagonista encontra-se num ambiente antagônico. Isso por si só já diria muito. Mas o gênero é terror. Então tudo pode piorar. E piora. A mãe de Rose trabalha com hipnose e mesmo contra a vontade de Chris ela o hipnotiza, numa metáfora clara de dominância racial. Entretanto, o gênero leva metáforas à condição de realidade. Assim, a hipnose resgata em Chris a experiência da morte de sua mãe – atropelada, como o veado do início – e o imobiliza. Aqui, de novo, a metáfora. Uma pessoa branca imobilizando uma pessoa negra, forçada àquele convívio. Ele acorda em sua cama sem lembrar ao certo o que houve.

E possibilidades do que de misterioso acontece na casa começam a se revelar. Hipnose. Os negros que trabalham na casa talvez estejam ali contra sua vontade. O único negro a participar da confraternização dos pais de Rose, além de Chris, parece inadequado em seu próprio corpo. Uma foto desse personagem, que entra em convulsões por causa do flash, revela que ele é um jovem negro desaparecido há meses, fato descoberto pelo melhor amigo de Chris, seu único elo com o mundo real, que parece nada ter a ver com o mundo em que ele se encontra. Mas ao contrário. O ambiente em que Chris é inserido, aonde ele claramente corre perigo e é tratado como diferente o tempo todo é um paralelo racial com o nosso mundo real. Isso fica ainda mais claro quando descobrimos que os brancos fazem uma espécie de leilão silencioso pelo corpo de Chris, enquanto ele tenta convencer Rose de que eles precisam ir embora.

O desfecho é impressionante, porque eleva ainda mais a condição da metáfora e do paralelismo com nosso mundo. Os brancos estão usando corpos negros, tornando-se aqueles corpos, deixando o intelecto e o emocional dos negros presos. Como se a época da escravidão não houvesse sido suficiente, Jordan Peele cria, neste seu filme de estreia como diretor, uma realidade aterradora em que todos os limites da decência são rompidos, em que as tensões raciais se elevam e novamente os corpos negros são utilizados por brancos a seu bel prazer. E nenhum de nós, brancos, encontra redenção na obra-prima de Peele.

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