Crítica à crítica crítica musical hodierna

O discurso dá materialidade à realidade e portanto a constitui em termos simbólicos. A repetição procura sustentar no entanto, a insatisfação. É a intransigência da realidade que leva à comodidade da fantasia, e ela ao narcisismo. A nostalgia é prova disso. A música, por exemplo, tem sofrido ataques variados, mas o ponto comum aponta para o passado, em suma, diz que a atualidade do problema seja um problema atual. Isto é falso. Assim como a massificação não é novidade. Talvez o falante não se dê conta que culpar a sociedade pela música que produz não passa de uma manobra inútil. Seja porque é inócua ao errar o alvo, seja por ter efeito justamente contrário ao pretendido. A lenga lenga da repetição é um gozo, e se pode gozar com qualquer fantasma. A velhice não é cronológica, a atualidade o tem mostrado de modo dramático. Mas o que faz prevalecer no jovem o velho? É sua identificação ao tirano. O narcisismo tem essa forma grupal, etnocêntrica, onde se desfaz o frágil laço que une os insatisfeitos, começam a aparecer as semelhanças, e isto ameaça a existência imaginária da identidade. Então é preciso atacar para demarcar estas linhas que diferenciam os grupos e sujeitos. Voltemos ao tirano. O semblante é efeito, é preciso parecer, para crer, e a inflexibilidade de um personagem se deve justamente à sua verossimilhança. É mais fácil atacar que definir-se. Definir-se é açoite. A música fornece, na verdade, todos os meios para romper estas pequenas miragens de depuração, assim como a palavra. O rock não nasceu aqui, obviamente, mas encontrou um ninho, a aculturação que promoveu negando dialeticamente a música brasileira, ao ponto de figuras emblemáticas fazerem passeatas contra a guitarra elétrica, não parece mais ridículo do que é. Com a tropicália, no entanto, a antropofagia se assume. A música é um meio de incorporação, sobretudo, da diversidade. A massa sonora só é mantida mais ou menos fixa por um custoso trabalho, cujo sustentáculo lembra um topete imerso em gel. É por ter encontrado, numa série de identificações, um amparo contraditório ao senso de si, que ele é compensado em associações a figuras folclóricas, excêntricas, fodas (especialmente na adolescência). A excentricidade delas é uma medida do narcisismo ferido. Por isso que uma avalanche de entusiasmo encontra prontamente um alvo a atacar quando ele destoa, porque este alvo é exatamente o reflexo da parte reclusa do sujeito, que ele desejaria ocultar. É a mesma estratégia na política. Só que na música, não é preciso eleger ninguém, nem um, nem todos. Mas ao fazê-lo, se faz política. Logo, não se trata de uma insatisfação à qualidade da música, posto que isto não serviria de critério, a julgar pela qualidade dada às comparações, mas de medo, de encarar sua parte desprezível, sem bodes. Outras estratégias não ocultam essa parte, mas a elevam, tornando seu invólucro, – a beleza que a faria poética – por assim dizer, ela sim desprezível. Em qualquer dos casos não se pode sair da superfície, onde a fantasia de tirano, de pobre merda, ou de gênio, sustentam o tirano, o merda e o gênio, sem ter entrado nela, antes.

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

 

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