Crítica ao patriotismo de bandeira

Nunca deixarei de me espantar com o nível de incoerência demonstrado repetidas vezes por setores da sociedade brasileira. Suas ações e decisões francamente seriam dignas de riso, não estivéssemos imersos nesta mesma sociedade sujeitos, portanto, às consequências de tais absurdos. Hoje, mais uma vez, a causa do espanto é a completa falta de lógica discursiva, infelizmente levada às raias das decisões práticas. Afinal de contas, alguém em posse de sua sanidade completa pode explicar como podem seres humanos racionais saudar o novo, comemorar a nova era, ansiar pela construção de um novo edifício social reciclando e retomando velhas práticas que, sabidamente e extensamente estudadas pela História, simplesmente não deram certo, para dizer o mínimo? Não consigo deixar de pensar, quando leio sobre certas decisões do governo e escuto certas conversas nas ruas, na imagem do leigo em ciência que, em um laboratório, insiste em realizar o mesmo experimento dezenas de vezes sem mudar absolutamente nada, na esperança cega de que o resultado em algum momento seja diferente. Simplesmente não será. A ciência confirma desde o século XVIII o que a experiência humana já sabe desde as cavernas: ações repetidas não originam resultados diferentes. Nunca. Vamos, então, aos fatos concretos que me levaram a tais considerações.
Enquanto escrevo estas linhas, contam-se apenas poucas horas desde que o governo dos novos tempos, do Mito que tudo pode e tudo muda (menos suas crenças misóginas, homofóbicas e racistas) enviou a todas as escolas do país, através de seu Ministério da Educação capitaneado pelo estrangeiro mais brasileiro que qualquer brasileiro, uma carta (na falta de nome mais apropriado a um documento que não é ofício, não é circular, não é portaria, enfim, é quase um bilhete passado por baixo da mesa) lembrando da obrigatoriedade da execução e acompanhamento do Hino Nacional em frente à bandeira brasileira. Eu mesmo recebi tal bilhete, enviado diretamente pela direção da instituição de ensino na qual ora trabalho. Em entrevistas veiculadas pela mídia, a ministra dos Direitos Humanos (que é mesmo que ela tem a ver com educação? Parece, como tem se mostrado rotina no mítico governo, a figura do joelho tentando pensar para onde o corpo vai, sem que o cérebro sequer tome ciência da decisão) afirmou que este é só o primeiro passo para a retomada de uma agenda “ética e cívica”, na qual está inserida a retomada de velhos esqueletos empoeirados como, por exemplo, as velhas disciplinas voltadas para a “educação moral e cívica”. Eis, aqui, o ponto sobre o qual desejo dissertar brevemente.
Não vivi, é verdade, os tempos das aulas de OSPB e Educação Moral e Cívica. E, devo dizer, creio que foi precisamente este fato que permitiu que ao menos durante vários anos de minha vida eu fosse patriota e efetivamente gostasse do hino e da bandeira. Porque, ouvindo as descrições de tais aulas por parte de meus pais e amigos de mais idade, só consigo sentir profunda aversão à literal doutrinação feita em tais ocasiões, nas quais crianças são obrigadas a, ainda que na aparência, venerar pessoas comuns como heróis sobrenaturais e atos grotescos de genocídio puro e simples (como as expedições bandeirantes, por exemplo) como atos de bravura levados a cabo por uma raça de escolhidos pela divindade. Mas não entrarei neste mérito hoje. Quero me voltar para a questão mais ampla relacionada a tal agenda de “retomada do amor pela pátria, o hino e a bandeira”. A crença quase messiânica, religiosa mesmo e avessa a qualquer espécie de contestação, de que a simples obrigatoriedade de execução do hino e da continência à bandeira seja capaz de criar cidadãos melhores e, consequentemente, uma sociedade melhor. Nada pode ser mais falso. Senão, vejamos.
Sinceramente, sou um fracasso completo em compreender o complexo processo pelo qual o respeito a uma bandeira levaria a um maior amor pela nação, ou pelo qual a decoreba de um hino (cuja letra, aliás, a imensa maioria dos brasileiros sequer consegue compreender, consequência de seu palavreado pedante, típico de uma sociedade que já era elitista em fins do século XIX) levaria a um maior respeito ao próximo. Não estamos em uma sociedade formada por panos e músicas: estamos em uma sociedade formada por seres humanos. Pessoas que têm necessidades reais, desejos reais. Que trabalham (ou querem trabalhar), que querem uma vida digna, que desejam que seus filhos vivam em um mundo cada vez melhor. Pessoas que precisam de bons sistemas de educação e saúde, de uma boa segurança pública. Que não querem sentir-se envergonhadas pelas preciosidades ditas e feitas por seus governantes. Uma sociedade, enfim, como outra qualquer, mas talvez com mais necessidade de um cuidado real e sincero. Não seria muito mais proveitoso se, ao invés de obrigar os colégios a doutrinarem seus estudantes a venerar itens abstratos, os forçarem a incutir, nestes mesmos jovens, o sentimento de amor e responsabilidade por seus vizinhos, colegas, pais, por qualquer ser vivo, ainda que desconhecido? Qual o sentido de venerar a “nação” e, minutos depois, proferir em alto e bom som que determinadas pessoas precisam ser exterminadas? Ou que Gisele Bündchen não é uma “boa brasileira”, porque apresenta ao mundo as mazelas de uma política ambiental voltada para a destruição do meio ambiente? Qual a vantagem de saber de cor o hino, mas nunca visitar uma periferia para conhecer as reais necessidades dos brasileiros que lá vivem? Ou então de vestir uma camisa amarela, mas nunca ir a um presídio para ouvir as histórias daqueles que lá estão pagando por seus crimes, sem deixar de ser tão brasileiros quanto qualquer outra pessoa que, tão aleatoriamente quanto possa ser, simplesmente nasceu dentro desta sociedade, sem qualquer controle sobre isso? Não seria muito mais proveitoso conhecer a sociedade como ela realmente é, estudar pessoas e instituições reais, com todas as suas imperfeições e virtudes, ao invés de doutrinarmos as futuras gerações a venerar símbolos abstratos que, por si mesmos, sem qualquer traço metafísico ou religioso, nacionalista ou patriótico, pouco são?
Como imaginar que será possível construir um novo país revivendo práticas que já foram um fracasso décadas atrás? Afinal, grande parte das pessoas que hoje constituem a sociedade na qual vivemos assistiram a aulas de OSPB e Educação Moral e Cívica e, ainda assim, falharam e falham em construir um país melhor. Auge da incongruência. Se tais aulas tivessem o poder transformador que dizem que possuem, não precisaríamos considerá-las, hoje, como parte de uma agenda de medidas destinadas a aprimorar a sociedade, pois ela já seria muito melhor. E a cereja do bolo. O sacrossanto governo dos novos tempos, mítico por seu líder deificado, faz uso de uma lei já existente para forçar as escolas à execução do hino e hasteamento da bandeira. Esta lei foi promulgada em 2009 por Lula, então presidente. Ontem mesmo eu ouvi a conversa de um conhecido, filiado ao PT. Ele tentava explicar a seu interlocutor, visivelmente emocionado, que forçar as escolas a executar o hino era um ato típico de ditaduras fascistas. Absurdos à direita. Absurdos à esquerda. Brasil sendo Brasil. E só se passaram dois meses desde o início dos “novos tempos”. Não vai ser fácil… Até a próxima!

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