Crônicas que não rasguei

Ano XVIII – Maio/1971 – Número 204

 

Para o meu sobrinho ler mais tarde

“Não quero que leias hoje esta crônica. Mas sim, quero que leias mais tarde, bem mais tarde. Alfonse Daudet ao escrever Safo, pôs-lhe como dedicatória: “A meus filhos, quando tiverem vinte anos”. Mas eu peço para muito depois, quando te vierem os cabelos brancos e eu for apenas uma lembrança no teu espírito, uma sombra no teu coração. Então Augustinho, toma esta página e lê. Lê aqui o contido carinho, a minha dedicação em pura essência, o perfume que te pude deixar. Que isto, ao menos fique de mim… O que eu quero que em ti persista, que em ti perdure, não sou eu. Quero que em ti fiquem os sentimentos que te pude incutir as idéias que em ti formei, as energias que acendi no teu peito. A fé em Deus, que te ensinei. É isso que eu quero que fique de mim, em teu coração, em tua alma. Porque nós – meu bem amado – não temos importância. Nada valemos. Mas valem em nossos sentimentos a que damos vida, aquilo que realizamos e, também aquilo que fazemos os outros realizar. É isso que não morrer. Segue o caminho que te tracei na incerteza da hora presente e no temos dos dias futuros. Esse caminho que te desejei e desejo coberto de flores e que sei, ficará também juncado de espinhos, por que a vida Augustinho – nunca é aquilo que queremos que seja. Principalmente agora, quando você cresce dentro de um mundo conturbado, quando se executa uma brutal derrubada de preconceitos e onde moralmente, voltamos à idade da pedra lascada. Só desejo que não arranques com violência os espinhos que medrarem na tua rota. Que o teu passo não seja como o das patas do cavalo de Átila. Que nada tires de bom e de nobre que ainda restar no mundo. Mas que adiciones, que aumentes os valores da vida, trazendo de teu, algo puro, de belo, de alto, de nobre: a tua contribuição. Não desejo que sejas famoso, que venças com estardalhaço e de maneira que todos vejam a tua vitória. O triunfo que te desejo é o que terás no fundo do teu coração, quando te consultares e olhares para trás sopesando teus atos, aquilatando tuas intenções e chegares à conclusão de que é um homem de bem, útil a Deus, à Pátria e a Família. Um homem igual ao teu avô – correto, cristão temente a Deus, justo, sábio e humilde. Um verdadeiro homem. Nesse momento Augustinho, talvez te lembres de mim… então poderás ler esta crõnica que te fiz num momento que longe vai… quando completavas 13 anos de feliz existência. Quando entravas na vida, de olhos muito aberto e muito curioso. Que Deus te faça feliz. “E que saibas dar muito de si aos outros, mesmo sem recompensa, para receberes muito do nosso Pai que tudo vê e tudo sabe”. (Lulu)

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