Despedidas são sempre tristes

 

No final da tarde desta segunda-feira  fui dar uma corrida na pista de atletismo do Estádio Municipal. Após percorrer os habituais 4 km, fiz mais alguns exercícios em casa. Tomei um banho, fui jantar e como não corria há seis dias me senti cansado e com sono. Por volta das 21h30, fui para o quarto, coloquei um de meus três colírios e acabei cochilando. Acordei uma hora depois, li um pouco e dormi bem mais cedo do que de costume. Passo por um de meus períodos de insônia e embora nesta noite não tenha acordado de madrugada, despertei um pouco depois das 6 horas. Como não consegui mais dormir, rememorei a conversa que havia tido com Margarete e com Mariana, minha enteada, durante o jantar. Não gosto da palavra enteada, Mariana é bem mais que isso e seu pai, meu amigo Celso, que me perdoe a ousadia, mas Mariana também é minha filha. A conversa que havíamos tido na noite anterior fora sobre o seu desejo de morar sozinha. Como pretendemos nos mudar em breve, Mariana já se organiza para alugar um apartamento e para tanto, tem feito pesquisas na Internet.  Isso tudo me remeteu ao dia em que minhas filhas Nina Rosa e Mayara foram morar com a mãe. Depois de desfeito meu primeiro casamento, minhas filhas ficavam 15 dias comigo e os outros 15 com a mãe. Isso deve ter perdurado por mais ou menos um ano e nos meus 15 dias, elas ainda ficavam alguns dias na casa de minha mãe e tias que as adoravam e por elas eram adoradas.Quando ficavam comigo, Margarete, então minha namorada, vinha passar alguns dias conosco, trazendo suas filhas, Iriana e Mariana. As meninas se davam muito bem e era uma verdadeira festa. Um dia isso acabou, elas foram convencidas pela mãe a morar com ela. Num final de tarde elas foram embora, ajudei-as a colocar suas coisas no carro da mãe, roupas, brinquedos, cadernos, livros, vídeo games. As abracei longamente, esperei elas entrarem no carro e fiquei parado em frente à minha casa, até o último aceno, até o carro desaparecer na esquina. Aguentei firme, mas quando entrei em casa desabei. Esse foi um dos dias mais tristes de minha vida e ainda hoje me entristeço sempre que me lembro dele. Outra despedida que também se transformou em mais um dos dias mais tristes de minha existência, foi quando levei Nina Rosa para morar em Ponta Grossa. Ela havia, com apenas 16 anos, passado no vestibular de Jornalismo da UEPG, superando uma concorrência de mais de 20 por um. Ela morava em Curitiba, gostava de lá, não conhecia Ponta Grossa e nem tinha amigos lá.  Levei-a de carro, fiquei com ela a primeira noite. Acordamos cedo e fui levá-la até a UEPG. Fui buscá-la para almoçar e depois disso fui embora, deixando-a desolada. Fui embora com o coração em frangalhos e me arrependo até hoje dessa decisão. Os pais também cometem equívocos. Nina morou pouco mais de um ano em Ponta Grossa e nesse período fui quase todo mês vê-la e guardo boas lembranças desses breves momentos. Íamos a Pizzaria La Taverne, que além de oferecer um excelente cardápio, tinha um ótimo queijo temperado como entrada. A pizzaria era acoplada a uma vídeo locadora e em não raras vezes assistimos juntos a bons filmes. Quando foi a vez de Mayara estudar fora, foi menos traumático, embora ela tivesse apenas 15 anos, quando foi morar em Curitiba. Ela morava na Avenida Iguaçu, entre as ruas 24 de Maio e Nunes Machado e dividia o apartamento de três quartos com a prima Flávia Muller Brittes e com Natali Pimpão. Ela foi morar em Curitiba em 2002, ano em que fiz meu Mestrado na Universidade Tuiuti do Paraná. Eu ia para Curitiba sempre às 17h, das quintas-feiras e desembarcava apenas uma quadra do apartamento de Mayara que já me esperava pronta. Íamos jantar no Shopping Curitiba e depois íamos ao cinema e nas sextas-feiras eu voltava da Universidade para almoçar com ela em um bom restaurante, bem ao lado de seu apartamento. Isso sem falar que uma vez por mês eu precisava ir nas noites de quarta-feira, após as aulas que dava na UNIUV. Às vezes ia de carro e em outras de ônibus. Quando chegava, por volta das duas da manhã, Mayara ainda estava acordada me esperando, sempre com minha cama já arrumada. Hoje Mayara mora em São Paulo e Nina em Curitiba. Vejo Nina quase todo mês e Mayara de cinco a sete vezes por ano.  Mesmo assim a saudade bate forte e confirma a frase de um velho poema que escrevi há muitos anos: a dor mais doía é a da saudade. Em fevereiro deste ano, mais uma despedida bastante triste, nossa neta Isabela foi morar em Joinville, uma vez que seus pais, Iriana e João Paulo lá foram trabalhar, a ausência de Bela me deixou com mais um vazio a martelar meu já combalido coração. Agora se aproxima a hora de Mariana nos deixar. Acho que chega mesmo um momento em que os filhos precisam seguir seus próprios caminhos e por isso passa o desejo e talvez até a necessidade de morar sozinho. De qualquer forma, embora Mariana não vá morar em outra cidade, perderei aquele convívio diário de uma criatura gentil e amável que faz meu prato, prepara comidinhas gostosas, bebe cerveja comigo e compartilhamos angústias e anseios, como um pai e uma filha e mais que isso, como verdadeiros amigos.  E assim segue a vida, com meu coração, como disse um dia o grande poeta Cacaso,“batendo lento como se fosse um pandeiro, marcando meu sentimento, retendo meu desespero como notícia do vento, passando no meu cabelo, meu coração bate lento, meu coração bate claro, como se fosse um martelo, num rumo sem paralelo, selando meu desamparo”.

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