Do balacobaco, ou de como a língua é supimpa

Houve um tempo em que as pequenas felicidades vinham revestidas de outros sabores, de outros sons e, especialmente, de outras palavras. Ao longe, no tempo e na geografia, o som do dolezeiro (ou picolezeiro, que vem rareando) é como um eco que ressoa nas memórias de infância: no tempo em que se comprava dolé de gelo saborizado e a mãe dava um safanão quando a insistêcia para ela comprar era muito grande. Safanão, sopapo, mas nunca tabefe. Era o tempo em que tomar biotônico era uma maneira pouco confiável (mas saborosa) de ficar ativa, sadia e ladina. Tempo em que minha avó dizia que as filhas não iam virar dondocas, nem sirigaitas: queria moças direitas. Por isso, nunca deixava minhas tias andarem de minissaia (quando ainda era escrita com hífen, mini-saia). Miniblusa também era proibido, e elas só podiam usar calça eslaque, ou calça stop, nenhuma peça podia ser pitoca.
Minha avó é aquela pessoa que ainda usa a palavra obséquio e pergunta para as netas e netos sobre os paqueras. Não conhece a palavra crush e não faz ideia de que miniblusa agora se chama cropped. Um dia me perguntou o que era pirigueti. Expliquei que era um jeito pejorativo de se ferir às mulheres e que talvez, na época dela, fosse o mesmo que lambisgoia ou sirigaita. Afinal, as palavras mudam, mas alguns tipos de preconceito não – infelizmente só ganham novas roupagens na língua. Já as roupas mudam muito pouco, apenas se travestem com novos tecidos e cores. A combinação “sapato+verniz”, por exemplo, havia sumido das bocas e das prateleiras das lojas. Mas como a moda vai e volta, o sapato de verniz voltou com tudo, junto com a calça “boca de sino”, que agora é mimosamente chamada de calça flare.
A moda é feita de tendências que comumente se inspiram no passado. Não há nada de errado nisso. Supimpa. Bacana. A língua também passa por modismos: palavras que entram no vocabulário de determinados momentos em função de motivos diversos, como o surgimento de novos eventos, de objetos e de relações antes inexistentes, importação de produtos que trazem juntos estrangeirismos – às vezes inescapáveis como tuite (texto escrito na rede social Twitter); outros, no entanto, substítuíveis, como deletar, que poderia ser banido pelo bom e velho “apagar”.
As relações que se estabelecem pela internet forçaram a criação de expressões que nomeiam novas ações: teclar, por exemplo, que é completamente diferente de datilografar. Enquanto datilograr vem do grego e significa escrever com o dedo, isto é, escrever à máquina datilográfica, teclar é um verbo relativamente recente, derivando-se de tecla, mas seu sentido é menos mecânico. Se datilografar (e digitar) se refere a um ato individual, teclar se refere a um ato de iterlocução, uma conversa por meio de mensagens digitais. Pressupõe a presença de outro. Provavelmente, foi com a ascensão das redes sociais e com a democratização da internet, que esse verbo se tornou mais recorrente.
Dentro e fora do mundo digital, nos últimos anos, a expressão lero-lero deu lugar à expressão mimimi. Não significam a mesma coisa, pois o contexto político mudou (as palavras também), mas ambas usam da repetição de fonemas para indicar uma fala sem credibilidade ou para inescrupulosamente deslegitimar o que alguém diz. Nesse caso, o uso da expressão se torna uma espécie de chacota – outra palavra que perdeu fôlego e deu lugar para palavras com pesos mais densos.
Quando eu era criança, era corriqueiro as crianças fazerem chacota ou caçoarem umas das outras. Hoje existe a expressão “zoar”, que pode ser considerada uma evolução do caçoar. Porém, muito diferente de zoar é fazer bulliyng – esse estrangeirismo que foi importado pelo nosso idioma juntamente com uma preocupação: os limites entre caçoar-zoar e agredir. Fazer bulliyng não é o mesmo que tirar sarro, pois vem revestido de atitudes agressivas, verbais ou físicas, para itimidar e ofender alguém. Nesse caso, não se trata apenas da troca de uma palavra por outra, mas da importação de uma palavra nova para designar atitudes que passaram a ser pensadas por outro ângulo – felizmente.
Camões, o grande poeta renascentista português, escreveu um belo soneto sobre o tempo e as mudanças da vida, avisando-nos que: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança;(…) E afora este mudar-se a cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: que não se muda já como soía.” Com o seu poema, Camões deixaria registrada uma pequena foto da língua, para a qual olhamos com um lapso de quase cinco séculos. Soía, no poema, deriva-se do verbo “soer”, já em desuso, que sigifica “costumava ser, habitualmente era”. O poema de Camões fala sobre a mudança do próprio ser, mas as palavras nele empregadas ilustram também a mudança da língua. Existem mudanças de diversas naturezas e categorias.
Pretendo abordá-las uma a uma nos pŕoximos textos e, com muito apreço, admirar a beleza desse instrumento tão vivo. Tal como as ondas do mar, que ora se agitam, ora viram calmaria, os movimentos da língua são contínuos e, em certa medida, previsíveis. Eles nos contam muito sobre o passado, seja para reavivar memórias da infância, ou nos lembrar de como o mundo muda enquanto o tempo corre. Espero te encontrar novamente aqui, querido leitor, para pensar com olhos curiosos sobre essas mudanças.
Será do balacobaco! Um abraço.

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