Educação Bilíngue: Porque somente o Português não é mais suficiente

Eu conversava com meu amigo Gabriel, que levantou a questão do ensino bilíngue como algo novo e que, portanto, ainda não se entende bem como funciona. Neste texto procuro responder a algumas questões envolvendo essa forma de ensino-aprendizagem, que aos poucos se começa a oferecer à comunidade.
Por que ensinar também outras línguas? Certamente a condição econômica atual do Brasil não favorece que grande parte dos brasileiros usufrua de viagens internacionais; mesmo assim, a mobilidade internacional vem aumentando, por meio do acesso aos mais diversos programas, vinculados ao estudo ou ao trabalho. Além disso, em virtude dos avanços dos meios virtuais, o conhecimento e a convivência com pessoas de outras partes do mundo têm sido facilitados e incentivados. Nesse contexto a educação bilíngue surge como uma alternativa ou complementação aos cursos de idiomas, visando a ambientar os alunos tanto para o uso fluente das línguas quanto para a participação em exames formais. Quando se trata de educar as crianças e os jovens para que tenham condições de ocupar cargos de destaque e investir em carreiras de ponta nas mais diversas áreas, o domínio de outras línguas (leia-se em especial a língua inglesa) não é mais apenas um diferencial, mas um pré-requisito.
Qual é a diferença entre escola internacional e escola bilíngue? Escolas internacionais, como o Colégio Suíço-Brasileiro em Curitiba, baseiam-se no currículo e na proposta pedagógica de outro país, e dessa forma modificam a forma de aprendizagem. Oferecem aos alunos, também brasileiros, uma experiência internacional e uma formação plurilíngue. São características dessas escolas o perfil internacional da comunidade de pais, alunos e professores, e o interesse em prosseguir estudos fora do Brasil, pois é grande a aceitação de seus alunos em universidades fora do país.
Já nas escolas bilíngues há, necessariamente, dois currículos: o brasileiro e o desenvolvido na segunda língua. Elas também não possuem uma comunidade escolar tão diversa linguisticamente como as escolas internacionais. Essas instituições têm como objetivo ensinar por meio das línguas, ministrando aulas das mais diversas disciplinas na língua-alvo, muitas vezes o Inglês. Portanto, a segunda língua é utilizada também como forma de comunicação, o que se acredita, expandirá os limites de aprendizagem e o conhecimento de novas culturas.
Com que idade deve-se começar a aprender outra língua? A resposta que ouvimos sempre, “Quanto mais cedo melhor”, consiste numa simplificação da questão, pois considerando as condições de aprendizagem, há que se lembrar de que antes da adolescência os alunos ainda possuem algumas limitações cognitivas. É no início da puberdade que a quantidade de matéria cinzenta no cérebro aumenta significativamente e ocorrem inúmeras conexões entre os neurônios.
Há diversas razões para que se incentive a aprendizagem de outras línguas por crianças, entre elas: as crianças aprendem com mais facilidade a pronúncia e deverão falar sem sotaques, pois consolidam com facilidade memórias auditivas; elas são mais propensas a arriscar e tentar falar; e se começarem cedo, possivelmente estarão fluentes no idioma ao final da adolescência. Essas vantagens, porém, relacionam-se a outros fatores, como maior frequência e continuidade de uso da língua. Ou seja: As crianças que têm aulas de Inglês como língua estrangeira nos moldes tradicionais das escolas, contando com uma a duas aulas semanais de 50 minutos, na qual se fala muito Português e apenas palavras soltas, músicas e versinhos na outra língua, terão poucas vantagens em comparação com o aluno de 11 anos que inicia a aprendizagem da língua estrangeira no sexto ano. É nesse sentido que se encontra o diferencial da escola bilíngue, que oferece professores fluentes no Inglês, turmas reduzidas, ambiente adequado para um contato constante com ele, incluindo disponibilidade de materiais e equipamentos adequados, e até dez horas semanais de seu ensino como segunda língua.
Como funciona a metodologia? Numa escola bilíngue a alfabetização pode acontecer de forma tradicional ou ser substituída pelo biletramento. Depois disso, ensina-se o conteúdo das disciplinas específicas, como Matemática e História, através da língua materna e também de uma língua adicional, que passa a ser também meio de instrução, e não apenas uma disciplina avulsa, como acontece tradicionalmente. Ainda não há legislação específica, no Brasil, para escolas bilíngues, portanto elas têm liberdade para organizar o currículo, desde que cumpram as exigências mínimas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).
Afinal, a educação bilíngue vale a pena? Em geral, o custo da educação bilíngue, que não é oferecida normalmente em escolas públicas, é alto. Para aqueles que podem fazer essa escolha, apresentam-se várias vantagens, como: Aceleração do desenvolvimento cognitivo, fluência no idioma estrangeiro e exposição a diferenças interculturais. Ao fazer a escolha da escola, porém, é importante procurar verificar se existe coerência entre o que é propagado e o que realmente acontece na prática, pois o sucesso do que diferencial que se busca dependerá da forma como ocorre o trabalho diário durante anos.

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