Em tempos de Lava a jato: moral, amoral e imoral

Justifico a grafia “lava a jato”: Em primeiro lugar, a expressão não quer dizer que é um jato que está sendo lavado, portanto a preposição “a” é necessária; mas temos somente a preposição, e não o artigo “a”, porque jato é palavra masculina, portanto não há acento de crase. No caso de tratar-se do local onde efetivamente se lava um avião, usaríamos o hífen e não a preposição “a”: lava-jato (como em lava-louça para designar a máquina). Mas no caso em questão o termo refere-se à operação da Polícia Federal, cujo apelido foi inspirado por uma rede de postos de combustíveis usada como fachada para operações de evasão de divisas e de lavagem de dinheiro. A expressão significa “lava com rapidez”, e é utilizada para designar o serviço de limpeza de veículos com jato dˈágua. Em segundo lugar, a questão do uso do hífen, que é mais polêmica: O novo Acordo Ortográfico, assinado em 2009 pelos oito países membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), prevê que as palavras compostas que possuem um elemento de ligação não requerem mais o uso de hífen. São exemplos: dia a dia, pé de moleque, fim de semana. Antes do acordo ortográfico, fazia-se distinção entre o uso que se fazia dessas palavras: Sendo usadas como locução (arranjo de vocábulos independentes), não apresentavam hífen, mas havendo a substantivação, ou seja, se o termo fosse usado para designar algo, então usaríamos hífen. Veja a diferença no uso da expressão dia a dia:
Convivemos com dificuldades dia a dia. (dia após dia, é uma locução adverbial)
O dia-a-dia da escola é marcado por muitos desafios. (sinônimo de cotidiano, está sendo usado como substantivo)
Para finalizar, então, escrevo lava a jato, com a preposição e sem hífen, seguindo o novo Acordo Ortográfico, para designar tanto a ação de lavar quanto o local ou a operação, embora seja muito comum que a imprensa utilize a grafia lava-jato.
A Lava a jato dá muito mais o que falar que apenas a forma de escrever seu nome. Ela designa a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro na história do Brasil. No esquema, que dura pelo menos dez anos, grandes empreiteiras pagavam (ou ainda pagam?) propina para altos executivos da Petrobrás e outros agentes públicos, o que, compreensivelmente, deixa muitos brasileiros indignados e desejando que a justiça se cumpra, as operações ilegais sejam encerradas e as pessoas envolvidas sejam punidas.
Além de ser uma questão legal, pois há muita criminalidade envolvida, é também uma questão moral. Mas é uma questão da moral ou do moral? Definitivamente da moral, substantivo feminino. O moral indica o ânimo, o estado de espírito e a disposição para realizar algo, como nos exemplos:
Com tudo o que acontece em nosso país, o moral da população fica baixo.
É tarefa do treinador levantar o moral dos jogadores para que fiquem confiantes.
Já a moral é um conjunto de normas e condutas, ou os princípios que regem os costumes de uma sociedade e que são convencionados como válidos. Pela moral, diferenciamos as intenções e as ações consideradas próprias, legítimas, das impróprias ou inadequadas, sendo o campo da moral mais amplo que o do Direito, pois nem todo conteúdo moral tem também conteúdo jurídico. Não é ilegal, por exemplo, a percepção de auxílio-moradia por parte de políticos e magistrados, mas muitos brasileiros a consideram imoral, pois representa um privilégio a mais para quem já tem muitos à custa dos impostos pagos pela população que muitas vezes é carente. Essa situação aliada a muitas outras tem feito com que a população brasileira reconheça que, para além de uma crise política e econômica, vivemos também uma crise moral.
No dia 26 de setembro de 2017, a Folha Política divulgou que o presidente do PTB, Roberto Jefferson, teria dito que no PT só ficam os imorais e os amorais. Apesar da estratégia ser comum nos discursos políticos, não se trata aqui do uso de dois adjetivos sinônimos, da repetição de palavras-chave para enfatizar o seu tema. Ainda que derivem da mesma palavra, por causa dos sufixos, os dois termos, amoral e imoral, têm diferentes significados. O prefixo i(n) indica negação, ou sentido contrário; já o prefixo a significa ausência, ou falta de.
Imoral, portanto, é o que é contrário à moral ou à decência, sendo desonesto, desleal, algo ou alguém que afronta as convenções morais.
Amoral, por sua vez, é o que não tem senso da moral e não segue os padrões normativos por ignorância ou desconhecimento desses mesmos padrões, sendo indiferente à moral.
As questões sobre o que queremos, podemos ou devemos realizar são nossos dilemas éticos, pelos quais passamos sempre que temos decisões importantes a fazer. E as decisões importantes nas esferas governamentais vêm sendo tomadas, inúmeras vezes, em contextos de amoralidade e, pior ainda, de imoralidade.

 

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