Ensaio a uma sociologia brasileira

Propõe-se uma categoria, o ônus obtido pela fé, conceito de uma operação que nega a si mesma ao coadunar em alianças que fariam ascender à posição almejada, opondo-se à condição real. Trata-se de servir-se da própria imagem como degrau, negando-a, e assumindo não só uma projeção imaginativa, no modo de representar-se, portar-se, ou nos objetos comercializáveis desejados, mas principalmente replicando o discurso da classe que representa tal posição social. Ao replicar o discurso da posição que se gostaria de assumir é inevitável que os preconceitos tenham papel importante na negação. Há aí uma ausência de contradição, pois, atacar a imagem, a cultura, e os valores que constituem a classe submissa, faz parte justamente da operação de não pertencer a ela, ao mesmo tempo que, na economia do desejo, dá materialidade ao eu ideal.

A oposição à
condição real
A miséria jamais é invejada. Considerando-se que a necessidade tem objetos distintos dos do campo do desejo, é fácil entender que a imagem se constrói numa dinâmica de trocas simbólicas, onde os atores demonstram sua posse ou não. É da condição humana desejar aquilo que o outro deseja. A posse se materializa portanto em pertences, objetos que adquirem valor. É em relação a estes valores que o sujeito é valorado. O sobrenome é o primeiro objeto desses. Como o nome não pode ser obtido senão pela via parental – o que garante uma linhagem – há desde o início uma compensação, por outros meios. Estes meios procuram estabelecer alguma equidade do ponto de vista do valor. Assim, no jogo dos valores entram em cena os princípios, justamente como elementos a serem apreciados. Desde já não se espera uma igualdade de princípios às duas condições diversas: espera-se que a condição submissa pratique seus princípios como meio de garantia de que eles compensam a ausência de sobrenome. Deste modo, da outra classe, não se exigem os mesmos princípios, pois o sobrenome traz consigo um determinado valor, que não é contraposto ao valor dado aos princípios. Exemplo: de um lado o nascimento e o valor atribuído pelo nome, de outro, a compensação através da vigilância do exercício dos princípios. Temos então a humildade, a honestidade, e a submissão como pilares do que valoram estes princípios. Ora, obviamente que estes princípios são determinados de fora, e não precisam ter qualquer relação com os princípios que ordenam o outro grupo. Tem-se de saída um arranjo estrutural que deixa sempre em vantagem um dos grupos. Os meios de compensação, assim, tornam-se eles mesmos veículos de alienação. É a procura por materialidade que leva, então, ao desejo pelos objetos de posse do outro grupo. Pode-se dizer que, neste sentido, o afeto da inveja é predominante. O sujeito não deseja um nome, mas aquilo que é obtido por ele. A oposição à condição real adquire então uma direção: ela recebe incentivo, como meio de superação, mas também fornece o impulso para a negação da origem. Esta oposição é animada pelo egoísmo. Ela procura uma mudança pessoal, não a de grupos, a princípio. Trata-se então de um julgamento a operação que estabelece, portanto, uma ruptura entre a imagem e a condição antiga, e aquela que os meios de compensação oferecem, dando materialidade à identificação com a imagem dialeticamente oposta. O material mais importante (e instrumento) dessa tomada é a linguagem. O ataque, equivalendo à negação da imagem, se dá pelo empréstimo de um discurso já existente, de onde se balizam os valores. Desse modo, somam-se aos princípios anteriores a vigilância em relação a demarcadores de identidade, que solidificam a ruptura. Estes indicadores nada mais são que os preconceitos, ou na linguagem dominante, os valores. É preciso então, para garantir-se em direção aos valores, apoiá-los e adotá-los. Aqui a fiel observação aos princípios confunde-se à observância aos valores, e a compensação de um se dá pelo outro. Significa que é dada brecha aos princípios anteriormente seguidos, eles são relaxados, caso se cumpram os valores subsequentes. Desse modo o domínio ideológico garante maior vigilância, ao mesmo tempo que ilusiona a imagem do sujeito, pendente ao vir-a-ser, promessa de seu desejo.

A inversão de
posição social
Obviamente tal designação já apresenta os termos de modo a não existir uma terceira via: ou bem se está de um lado ou bem do outro. Assim não é ilegítimo dizer que o eu ideal do grupo submisso, necessariamente, é a imagem oferecida pelos atores do outro grupo. As metáforas sociais são extensas nesse sentido: vencer na vida, ascender socialmente, ficar rico, são expressões que não deixam dúvidas quanto a significação delas. Elas ainda são ratificadas quando se dá publicidade a casos em que isto realmente ocorreu, ao menos, nestes termos. Tudo isso equivale a afirmar que a única maneira de se alcançar tal ideal é pela imitação, primeiro, daqueles que lá já estão, segundo, daqueles que conseguiram tal proeza. Isto fornece então um código de conduta. Este código é uma extensão dos princípios, só que com avançado pragmatismo. Não basta, assim, ao candidato negar sua condição real, mas adotar a conduta que é compatível não com aqueles que seriam seus valores, mas com os valores do grupo seleto. Neste quesito o código é mais ou menos tácito. Embora traga alguma desvantagem em relação ao sujeito, ou a seu grupo de origem, ele deverá sustentá-lo, faz parte do processo de ascensão. Aqui é necessário que os princípios também esvaziem-se, em suma, esta é a prova real de seu desejo. Sua conduta o demonstra. Abandoná-los é, também, a chance de adotar outros, aqueles do grupo ao qual deseja pertencer. No entanto, estes princípios não são claros, deliberadamente, são justamente abstratos para que seu manejo seja maleável. São os princípios de lealdade, confiança, proteção/segurança, que conferem ao grupo certa coesão e vantagem em relação a outros grupos. Temos então, do ponto de vista moral, uma inversão que vai da honestidade, em compensação à ausência de nome, à fidelidade. Pode-se dizer que, em última análise, é oferecido ao sujeito quase todas as vantagens que se poderia alcançar, menos, é claro, o parentesco.

O ônus obtido
pela fé
Naturalmente não é possível que essa ascensão alcance a muitos. De modo que quanto mais eficaz for a inversão da posição social, mais a estrutura é reforçada, de maneira a repetir-se nas gerações seguintes. É um dilema que por esta via só se reforce a permanência da mesma condição, restando como alternativa única. Seu sucesso se deve precisamente em acarretar, quando o mecanismo funciona, justamente a ilusão de ascensão, porém, levando o ônus à geração seguinte. Por fim, não se deve enganar quanto ao ideal do grupo dominante, não se confunde com nenhuma suposta felicidade encontrada na pobreza, seu ideal é conservador, sua mecânica consiste em manter a estrutura sob seu controle.

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

 

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