Espelho
Fico a pensar qual é o problema das diferenças? Seja de pele, altura, peso, voz… Pensamos por um segundo: e se por uma distração Deus nos fizesse todos iguais?
Seria bacana? Seria interessante? A beleza não está justamente nas diferenças? Há pouco, assisti a um trailer de um filme que conta a história de um garoto que fez vinte e sete cirurgias plásticas no rosto para voltar a ouvir, falar, enxergar, respirar e, é uma criança que vai à escola usando um capacete para esconder muitas cicatrizes, porém, um dia, resolve tirá-lo e encarar o mundo, é claro que, parte desse mundo, foi cruel com ele. Palavras fortes, xingamentos, batiam direto em seus tímpanos. Com certeza, ele pensou em desistir inúmeras vezes, mas sua família não deixou e ficou ao seu lado.
Eu me pergunto: quem inventou esse tal de padrão de beleza? Penso que parte dessa culpa é das telenovelas e, outra parte das passarelas da moda. Capas de revistas são concluídas com photoshop antes de irem às bancas, e todos sabemos disso, porém, o que eu não entendo é: quem fala ao editor o que é beleza para que ele edite a foto de mulheres ou homens?
Quem padronizou a beleza? Eu tenho um gosto peculiar, acredito, quando me deparo com certas opiniões e atitudes. Quando ouço alguém dizer: que coisa mais feia! Olho e penso: o que ela ou ele acha feio? Será que são as sobrancelhas muito grossas ou finas, ou os lábios nem tão rosados? Ou a pele com alguns sinais da idade? Mas não está justamente neste conjunto a tão falada beleza?
Não está ela na nossa essência? Nas nossas atitudes?
O que é belo para você? É uma mulher loira, alta, cabelos ondulados e compridos, magra e que desfila nas passarelas do mundo? Ou um homem moreno, cabelos lisos e sedosos, olhos brilhantes, dentes brancos e sorriso farto? Ou aquela criança com a pele negra, cabelos encaracolados e de olhos azuis? Ou aquela senhora, com a pele enrugada, mãos cansadas, corpo fora de forma, que empurra o carrinho de mão, vendendo mudas de flores para alimentar seus filhos?
Penso que há muito tempo o mundo tem seus valores invertidos. A beleza deveria ser vista de dentro para fora, por mais cremes que passemos ou plásticas que façamos, um dia a “casa cai” e o que sobrará será apenas a nossa essência, o bem que praticamos, o mal que não fizemos, o próximo que auxiliamos.
Não haverá espelhos ou apontamentos, apenas verdades e o nosso lado mais lindo despertará. E este texto não vem por falta de uma autoestima elevada, ou por me achar “feia” ou frustrada comigo mesma, não. Este texto vem no momento em que a superficialidade grita aos quatro cantos, e nos torna egoístas e apáticos com o próximo, vem em um momento em que relacionamentos não duram mais como antes, porque homens ou mulheres buscam a perfeição física no parceiro e não mais o que ele agregará em sua vida.
Esquecem-se que a beleza externa um dia se vai, que os olhos perderão aquele brilho de outrora, que suas mãos estarão fracas para um aperto de mão, ou seus braços não conseguirão mais levantar muito peso, mas, aquela mesma pessoa, estará com você, seja na tempestade ou no dia ensolarado, quando você estiver disposto ou não. Que é aquela pessoa e seu jeito de ser e tratar você, que irá importar, e não quantas vezes tiveram momentos íntimos.
Há muito a ser pensado e analisado nos dias de hoje. A beleza exterior tem falado mais alto do que qualquer coisa. Recordo-me de uma frase dita pela atriz Fernanda Montenegro: “A beleza só importa nos primeiros quinze minutos, depois você tem que ter algo a mais para oferecer. ”E aí? O que mais você terá a oferecer?
Acreditem, chega um momento, em que apenas a beleza externa, cansa. Chega um momento em que você chegará em casa e só quer alguém para ouvir você, para aconselhar, para amparar, para ser a sua base sólida.
Sem hipocrisias, mas adoro a frase: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”. Sim, pessoas que têm esta frase em sua vida são capazes de enxergar sempre além. A beleza é um conjunto. E não falo em conjunto de seios siliconados, bumbum na nuca, barriga tanquinho, não, falo da essência, daquele brilho no olhar, daquele sorriso fácil e sincero, da generosidade, da humildade, da gratidão, do amparo, falo de amor!
Este amor tão banalizado, tal qual a beleza…
Esses dias li uma reportagem em que a grande estrela do cinema internacional, Sophia Loren, nos seus 82 anos, dizia que não conseguia mais se olhar no espelho. Ela considerada uma das mulheres mais lindas do século, dizia que não aceitava envelhecer, mas que coisa maravilhosa é envelhecer!
Quantas pessoas gostariam de passar por este período natural da vida, mas estão em tratamento por um câncer, ou outra doença…
Quantas pessoas morreram tão jovens que nem a adolescência alcançaram.
Respeito o pensar da Sophia, porém, acredito que tal pensamento é pelo mundo mágico em que ela viveu todos esses anos. Glamour, estrelato, bajulações, e hoje se encontra sozinha em uma casa da Suíça, sem querer se olhar no espelho e encarar que ela é uma vitoriosa, e não simplesmente uma senhora que está morrendo.
Mais uma vez aquela tão falada beleza externa, que a fez esquecer o quanto foi excelente em sua carreira, quantos filmes lindos e marcantes deixou para o mundo.
Somos reféns de uma ditadura silenciosa, que nos manipula e nos faz inverter muito do que temos dentro de nós.
“Porque Narciso acha feio o que não é espelho”, penso que já passou da hora de Narciso quebrar o espelho e olhar em volta.
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