Fim de ano… De novo

Fim de ano é sempre a mesma coisa. Confraternizações (muitas vezes entre pessoas que passam o ano inteiro à base de “bom dia” e “boa tarde”), corridas às lojas para as tradicionais compras de presentes, ceia farta, amigo secreto, e promessas para o próximo calendário. Aconteça o que acontecer, o roteiro é o mesmo. Não há crise econômica capaz de alterar o gosto dos seres humanos pelos inúteis e irritantes fogos de artifício ou pela mania de fazer planos nascidos para não serem cumpridos. Eu, o leitor assíduo desta coluna bem o sabe, não compartilho do mesmo gosto. Confraternizo nesta época apenas com quem já confraternizei ao longo do ano. Amigos são amigos, seja março ou dezembro. O mesmo para família. Promessas, não faço. Aliás tenho por hábito ignorar completamente a mudança de calendário. Afinal, que diferença há em comemorar um ano novo ou um mês novo, uma semana nova, um dia novo? Se é para fazer planos, que sejam para o próximo dia, o que os tornaria muito mais facilmente realizáveis, aliás. Promessas anuais são, por definição, um engodo cuja perseguição invariavelmente sucumbe à volta da rotina. Se sobrevivem, não eram promessas. Eram apenas antecipações de planos naturais de voo previamente traçados.
Postas as coisas no âmbito mais geral dos fins de ano da imensa maioria dos sapiens ocidentais, que dizer dos espécimes nascidos e criados na particularidade da sociedade brasileira que se preparam para as festividades do ano que marca o 2019º desde o nascimento de Cristo? Primeiro, o óbvio: que eles as passarão mais divididos do que nunca. Creio ser possível dizer que poucas vezes nas últimas décadas tantas amizades foram desfeitas para dar lugar a novas, pouco tempo antes completamente imprevisíveis. No que toca às famílias, não é raro tomar ciência de planos que preveem ceias, troca de presentes e amigos-secretos que ocorrerão em paralelo, por vezes a poucas casas de distância. Lembro-me de uma ocasião, na infância, em que meu pai teve que aguentar, profundamente contrariado, a seus irmãos o repreendendo por não ter votado em Collor, “o caçador de marajás”, o “salvador da pátria na nova era democrática”. Pudera. Então funcionário do Banco do Brasil, era óbvio que ele não prestaria apoio a um candidato que prometera acabar com seus “privilégios”. Daqui já se vê que imbecilidades ditas em ceias de Natal não serão novidade deste ano. Destes “privilégios” alegados por meus tios nunca senti sequer o cheiro. Afinal, filhos de bancários como eu bem sabem que, já na década de 1980, iam longe os tempos de vacas gordas no então maior banco público do país. Escaldado pela experiência passada, este ano meu pai não passará as festividades com seus irmãos. Claro que trinta anos se passaram e muita coisa mudou, inclusive o relacionamento entre eles. Provavelmente não ceiariam juntos de qualquer modo, com Bozo ou sem Bozo, com petralhas ou sem petralhas. Mas conheço um número realmente razoável de famílias que estarão separadas fisicamente por suas diferenças de cunho ideológico, político e, ouso escrever indiferente a qualquer crítica que possa sobrevir, moral. Bom para o comércio, sem sombra de dúvida. Serão menos numerosos os presentes compartilhados entre tios e, portanto, serão maiores as vendas dos ditos presentes. Toda realidade sempre carrega consigo um lado bom, não importa qual seja.
Por outro lado, e diretamente relacionado a estas ceias mais numerosas que o habitual, neste canto do planeta Terra é justo dizer que as expectativas quanto ao ano novo serão bem díspares. Para uns, a chegada da “nova era” pressagia um período de progresso, desenvolvimento, modernidade, chuvas de maná e floradas de hortências douradas, tudo devidamente acompanhado de mudanças genéticas que farão com que galinhas botem ovos de ouro, e com que todas as crianças nascidas no país a partir de 1º de janeiro sejam loiras, belas, inteligentes e, claro, de direita. Já ouvi relatos impactantes que garantem que até mesmo os buracos da estrada até Matos Costa estão sendo fechados, durante a noite, única e exclusivamente pela influência benéfica do advento do Mito.
Para outros, o início do novo ano marca uma curiosa alteração numérica. Não estaremos entrando, em algumas semanas, em 2019, mas sim em 1964. Perseguições políticas, tanques na rua, truculência, violência sem fim, abolição de direitos, dor, sofrimento. Consta que já na passagem do ano nuvens espessas se formarão sobre todo o país, de dentro das quais sairão cavaleiros amarelos montados em cavalos alados verdes, os primeiros vestidos com uniformes nazistas bordados com símbolos da CBF, os segundos preparados com celas ornadas com as linhas da fachada da sede da Polícia Federal em Curitiba, a ditar as novas regras da sociedade e a separar os petistas dos bons, direcionando os primeiros para a cadeia ou para fora do país. O Sol nunca mais nascerá, e os gritos e gemidos dos torturados serão ouvidos pelos céus de todo o mundo que assistirá, indiferente, ao que se passa neste desventurado pedaço de chão.
Não preciso dizer que, se eu fosse me posicionar entre estes dois extremos, eu me aproximaria mais do segundo. Não que eu acredite em cavaleiros do apocalipse, já que perdi a fé neles um pouco depois que fui convencido de que Papai Noel não existe (embora de vez em quando ainda sonhe com os primeiros, enquanto me acostumei a ignorar solenemente o segundo), mas sim porque eu tenha certeza que assistiremos – na verdade, já estamos assistindo – a retrocessos atrozes e inaceitáveis que nos farão ter saudade dos tempos em que ainda acreditávamos que esta nação poderia fazer parte do rol das sociedades civilizadas do planeta. Se isto é bom ou mal, deixo aos leitores a tarefa de avaliar. De qual ceia participará, quais amigos secretos terá, em qual fakenews acreditará, cabe a cada um decidir. Minha posição já é bastante conhecida. Até a próxima!

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