Fim de ano…

Caros leitores, chegada a hora de redigir minha última coluna do ano, eis que me vejo novamente sob o tacão de uma árdua tarefa: qual tema analisar neste espaço tão caro a mim e a todos que me brindam com a honra de sua leitura? Será útil realizar uma retrospectiva dos fatos mais marcantes do último calendário, prestes a ser substituído por um novo conjunto de folhinhas marcadas com pequenos números organizados em grupo de sete? Sendo útil realizar tal retrospectiva, devem ser privilegiados os fatos positivos ou os negativos? Caso me decida pelos positivos, como encontra-los em um dos momentos política e moralmente mais funestos da história deste país? Caso me decida pelos negativos, não estarei passando a meus caros leitores a impressão de um azedume em tudo desagradável, completamente incongruente com o otimismo que deve impulsionar os corações e mentes rumo a uma nova fase em nossa jornada terrena? O que fazer, afinal?
Entre tantas e tão díspares opções, decidi-me por não decidir! Pronto! Em tributo ao árduo trabalho realizado por todos nós ao longo de tão marcantes meses, em respeito a todas as tristezas e alegrias que nos inundaram ao longo das últimas três centenas e meia de dias, antecipando o temor inaudito de um ano que promete ser ainda mais complicado que este que finda, não me decidirei por nenhum caminho a ser seguido nesta nossa última interação de 2017. Preferirei, desta vez, apenas tratar de amenidades. Eis o que farei! Inicio reafirmando que, como os amigos leitores que me acompanham de mais longa data tão bem sabem, não dou muita importância para efemérides tais quais passagem de ano. Vício de historiador. Mudam os anos como mudam os meses, semanas e dias. Nada demais. Como bom cristão valorizo o Natal, oportunidade privilegiada para repassarmos os ensinamentos do Cristo, religiosos, morais e, também, políticos. De fato seus ensinamentos são incrivelmente amplos! Privilegiada também para lembrarmo-nos de que não basta apenas repetir tais ensinamentos, mas sim buscar praticá-los. Ah, e também para nos lembrarmos de que a figura que acabo de mencionar é incrivelmente importante exatamente porque não pregou intolerâncias de qualquer espécie, nem exortou à prática de quaisquer tipos de violências, tampouco deu a ninguém o direito de se afirmar superior a quem quer que seja. Ele é fundamental, isso sim, porque buscou nos ensinar a conviver bem, e em paz. Convivência. Paz. Tolerância. Lembro-me do Brasil, dos dias atuais, do noticiário, das conversas de botequim e dos posts furibundos do Facebook. Não! Eu disse que apenas falaria de amenidades. Voltemos a elas, pois.
Dizia eu que a passagem de ano não me impressiona. Antes me entedia. A televisão fica mais chata à medida em que tenta desesperadamente vender mercadorias das quais simplesmente não preciso. Com ela, as páginas de internet. Irracionalidades sobem à tona sob o mais simpático epíteto “superstição”, provocando a superabundância de roupas brancas, pulinhos em ondas, pobres e inocentes galinhas mortas na encruzilhada mergulhadas em apetitosas farofas e acompanhadas de espirituosas bebidas (com tanta gente sem ter o que comer!), barulhentos e sumamente irritantes fogos de artifício que tanto assustam não apenas meus cachorros, mas todos os animais das redondezas (exceto os operadores dos ditos fogos, que chegam à genialidade de sequer aponta-los para cima, como deveriam, causando a queda dos malfadados artefatos em meu quintal e, por vezes, em meu telhado danificando-o não raramente).
É bem verdade que ultimamente têm surgido “superstições” muito mais úteis e, portanto, racionais, como a realização de doações e trabalhos voluntários em instituições de caridade, a busca e resgate dos pobres animais que fogem assustados, em disparada, dos seus lares por conta dos malditos fogos, as campanhas de doação de sangue… Mas estas ainda são muito raras e pouco percebidas. Deveriam se tornar mais comuns. Quem sabe no dia primeiro? Afinal o ano novo é a oportunidade a cada doze meses renovada de começar tudo de novo. Momento no qual os erros ficam para trás. No qual as faltas são perdoadas e votos de melhor comportamento, mais oportunidades, mais felicidade, um carro novo, a construção da sonhada casa e, claro, dos sempre lembrados quilos a menos são repetidos como um mantra. “Muita paz, amor e felicidade” àquele vizinho até a semana passada odiado. “Tudo de bom” para o colega de trabalho raras vezes cumprimentado. “Prosperidade” para a pessoa que provoca a travessia da rua, por mais movimentada que esteja. E os onipresentes votos de que “o ano novo seja muito melhor para todos”, sem qualquer preocupação em questionar se não seria muito melhor e mais efetivo desejar que todos buscassem ser melhores no novo ano que se inicia.
E assim a vida passa. Os dias se sucedem. Os meses se iniciam. “Nossa, já é agosto!” ouviremos, sobressaltados, apenas daqui a pouco. E outro fim de ano estará próximo. E novos votos serão feitos. E novos fogos serão comprados (não importando se há ou não crise econômica, desemprego ou políticos desonestos afanando as riquezas do país e dando de ombros para as necessidades da população). E novamente todos desejarão um ano melhor, maldizendo o que acabou de terminar (esse mesmo que começará em pouco mais de uma semana). E, provavelmente, mais uma vez intentarei apenas escrever sobre temas do cotidiano sem qualquer importância em nossa última coluna do ano. E, malgrado meu, caso repita esta intenção certamente fracassarei no intento. Exatamente como agora. Pela falha cometida e prontamente reconhecida, só me resta desculpar-me. E desejar sinceramente que cedo possamos nos encontrar novamente nestas páginas, não em um país entrado em um ano melhor, mas sim em uma sociedade formada por pessoas melhores. Quiçá… Até a próxima!

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