Haver: Verbo Impessoal

Quem está ouvindo percebe a dúvida de quem fala: “Não havia… haviam… muitas pessoas lá”. É como se soubéssemos que a pessoa que fala pergunta a si mesma: “Como posso deixar o verbo no singular se estou falando de muitas pessoas?” Creio que todos aprendemos na escola que neste caso, no sentido de existir, o verbo haver não tem sujeito. Este, no entanto, é um dos diversos casos de uso da língua portuguesa no qual precisamos de reforço, de tempos em tempos, se temos o interesse de utilizá-la em sua variedade culta.
Referir-se a “muitas pessoas” não significa que elas representam o sujeito do verbo haver. No seguinte exemplo: Ela viu muitas pessoas no saguão, ninguém pensaria em usar o verbo no plural: Ela viram muitas pessoas no saguão somente porque ele vem seguido de “muitas pessoas”, que é plural; concordamos o verbo com “ela”, no singular, que é o sujeito do verbo. Ora, quando não há sujeito, o verbo deve manter-se no singular. Assim como quando usamos o verbo haver, “muitas pessoas” exerce a função de objeto direto, e não de sujeito.
Uma possível explicação para a dúvida no uso do verbo haver quando ele possui o sentido de existir é que o verbo existir é pessoal e conjuga-se também no plural. Por exemplo: Se eu sei que é correto dizer Existirão mudanças, penso que, no mesmo sentido, também será correto dizer Haverão mudanças. O sentido pode ser o mesmo, mas os dois verbos conjugam-se de forma diferente porque existir é pessoal e haver é impessoal, permanece invariável.
Talvez a dúvida ainda persista porque vez ou outra vemos o verbo haver sendo usado no plural:
As crianças haviam comido o bolo. Neste primeiro caso, o verbo haver está servindo como auxiliar, e há um verbo principal, comer, que é um verbo pessoal; portanto, o verbo auxiliar conjuga-se como o principal o faria se fosse usado sozinho, assumindo a sua pessoalidade: As crianças comeram o bolo.
Já em Os sentenciados houveram a substituição da pena, o verbo haver está sendo usado no sentido de conseguir, obter.
A questão apresentada hoje nesta coluna refere-se, em especial, ao uso do verbo haver nos sentidos de existir ou realizar-se, e também quando indica decorrência de tempo em relação ao passado. Vejamos alguns exemplos:
Há pessoas de bom coração. – É o mesmo que dizer que “Existem pessoas de bom coração”. Portanto, Havia problemas a resolver (e não “Haviam”); Houve alguns episódios estranhos (e não “Houveram”); Haverá problemas, estou avisando. (e não “Haverão”).
Nesse sentido, o verbo haver é usado no singular, esteja ele no presente, passado ou futuro. O mesmo ocorre nas locuções verbais em que o verbo haver figura com esse mesmo sentido, de existir:
Poderia haver novas oportunidades para os que forem reprovados (e não “Poderiam”);
Costumava haver bailes por toda a região (e não “Costumavam”);
Tem havido sérios problemas de congestionamento (e não “Têm”).
Nos exemplos acima, os verbos auxiliares costumar e ter assumem a impessoalidade do verbo principal haver.
Empregado no sentido de tempo transcorrido, o verbo haver também é impessoal. E nesse sentido usa-se somente no singular, como acontece com o verbo fazer:
Ele chegou há um ano. = Faz um ano que ele chegou.
Havia cinco anos que não nos víamos (e não “Haviam”) = Fazia cinco anos que não nos víamos (e não “Faziam”).
Outra questão que pode estar intrigando o leitor quanto à impessoalidade do verbo haver é o fato dele ser frequentemente flexionado no plural em textos legais. A compreensão desses textos nem sempre é simples, e portanto, pode ser difícil perceber que o verbo haver se usa ali com sentidos diferentes de haver ou existir, e são portanto verbos normais que se conjugam como os outros:
Os descendentes haverão apenas os bens que se encontrarem registrados (significando “receberão).
Os causídicos não se houveram com correção (significando “não se comportaram”; e causídicos são os advogados ou defensores).
Se no futuro houverem filhos um do outro, a doação não poderá ser impugnada (significando “tiverem”).
Para encerrar, lembre-se de que tratamos aqui do uso culto da língua. Assim como numa ocasião adequada você usará terno e gravata, ou vestido formal, porque não quer chamar a atenção de todos sendo o diferente, ao escrever e falar com correção, prefira:
Havia dez interessados, e não Haviam dez interessados;
Aqui houve alterações, e não Aqui houveram alterações;
Haverá sessões contínuas, e não Haverão sessões contínuas.

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