I – Os algoritmos

Tendo a linguagem chegado ao ápice da exatidão por meio dos algoritmos não havia mais lugar para o erro.
Assim o teatro logrou êxito com o espetáculo do equívoco onde os atores tentavam de todas as formas errar.
A primeira estratégia foi marcar a apresentação para sábado e só aparecer domingo.
Quem foi enganado não voltaria. Mas havia os insistentes. Logo o público compreendeu que a última hora em que a peça ocorreria seria na anunciada, de modo que era preciso ficar vigilante.
Os boatos começaram a rodar a cidade, o que fez a polícia reprimir qualquer alusão às datas e horários.
Pela surdina, contudo, acreditar numa falsidade já era coisa de gente esperta.
Havia quem dissesse ter visto a peça. Poucos desconfiavam, visto que mentir requer imensa espontaneidade.
Ocorre imaginar que a peça estivesse acontecendo fora do teatro.
A partir daí qualquer pequena reunião, duas senhoras conversando, um louco palestrando no farol, já era suficiente.
Mas como saber? Era preciso haver erro.
Só que o louco era demasiado lógico, as senhoras conversando perfeitamente preocupadas com a saúde, os bêbados se sufocando, enfim, tudo era muito verdadeiro.
Às vezes acontecia de dizerem, especialmente nas zonas e bares, que era lá pra cima. Ou então, que era lá pra baixo.
Não mentiam. Diziam o que sabiam.
Numa noite três sujeitos conversavam em fila.
Um deles dizia:
– trouxe? – E o segundo:
– trouxe. – e o primeiro:
– e onde é que tá? – E o segundo:
– tá aqui. – com as duas mãos no bolso da jaqueta. E o terceiro:
– pode ser. – De maneira que podia mesmo ser.
A conversa não deixava entrever absolutamente se aquilo era da ordem da verdade ou da falsidade.
A questão é que não se tratava de falso ou verdadeiro, mas de previsibilidade. Você podia dizer uma mentira a qualquer hora, desde que ela fosse prevista. O dispositivo consistia em nunca errar, levando o erro à previsibilidade do sistema. Assim, poderia ser antevisto e consequentemente interpretado como um novo dado a ser integrado à linguagem. Dessa maneira o erro não era a mentira, que era prevista, mas consistia em burlar o dispositivo de modo que ele não a percebesse como tal.
Na música tinha-se conseguido muito. Era o que diziam. A desafinação ganhou cada vez mais lugar e o improviso tinha sido tão acostumado aos ouvidos que as combinações mais dissonantes jamais eram interpretadas como erros, mas como combinatória. Computadores trabalhavam noite e dia para que nenhum tipo de ruído soasse inovador, e antecipavam-se ao trabalho dos compositores, instalando aqui e ali, nos dispositivos, mensagens sonoras a fim de que fossem educando o ouvinte.
O previsível tinha tornado o humor uma coisa antiquada. Não havia graça numa piada que significava exatamente aquilo que ela significava.
Era preciso romper a barreira do previsível.
A propaganda nunca tinha sido tão eficaz. Com base nos dados dos avatares conseguiam direcionar todo o conteúdo apenas para o perfil selecionado. Muitos recorriam a perfis falsos, só que esses perfis não escondiam os desejos do usuário.
Procurar o erro tornou-se um estilo de vida.
Os serviços à cartomantes eram os mais procurados. Criou-se um verdadeiro fetiche em torno do futuro. Fazer uma previsão, no entanto, era algo que custava caro. Mesmo assim lotava. Consistia em responder, no caso de uma indagação quanto à volta do amor perdido, simplesmente, e sempre, sim. A interpretação ficava por conta do amante.
No dia a dia, era no nível da fala que as chances eram maiores:
– quarta tem show. – Disse um.
– de que? – continuando o assunto.
– de música – respondeu.
– apresentação? – entediado.
– concerto. – animado.
– preciso concertar meu molinete. – tirando o corpo fora.
– uma homenagem? – perguntou.
– quê? – confuso.
– vai concertar a vara? – curioso.
– sim – insurpreso.
– uma homenagem. – concluiu.
– à vara? – perguntou.
– sim. Ao conserto. – indiferente.
– vai levar a vara ao concerto? – imaginando.
– sim. – respondeu.
Na quarta feira em meio a multidão uma vara se erigia. Sem compreender porque seu amigo não apareceu com a sua para fazer-lhe companhia aquilo constratava.
Curioso é que na quarta seguinte houvessem tantas pessoas exibindo uma vara.
Logo começou surgir uma estética.
De outro lado, com o molinete em perfeitas condições, uma aura de suspeita o envolvia.
O amigo jurava que a ideia foi dele, enquanto ele dizia – sim.
Começava aparecer uma pista.
Aí havia erro. E mais, do erro tinha nascido a criação. O público, fiel, passou a adotar um traje típico de pescador. Reformulou seu vocabulário incrementando gírias do tipo: já cevei o lugar. Cansa essa menina antes de tirar. Os shows começaram a produzir novas bandas, que variavam de estilo, desde o peixe morto, mais pesada, até o estilo antropofágico/queer da come a cabeça também.
Os pescadores, lógico, não gostaram.
Então ocorreu que era fácil colocar uma coisa no lugar da outra. Pegou um pedaço de papel e escreveu ver=ouvir. ouvir=falar. falar=ver. Mas logo deu-se conta o quão bobo era um código desses, em vista do que o dispositivo era capaz.
Era preciso então, que não pudesse jamais ser escrito.

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

 

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