Lágrimas e indeleveis lembraças

Pouquíssimas pessoas nesse mundo me conheciam como Nivaldo Camargo, e, pouquíssimas pessoas o conheciam tão bem como eu. Compartilhávamos nossos medos, angustias, expectativas, perplexidades, algumas certezas e muitas incertezas.
Nossa amizade durou 45 anos, interrompida de forma estúpida por sua morte, dia 10 de dezembro de 2013.
Estivemos juntos na Adega Jurerê no dia 28 de novembro, e planejamos uma viagem a Foz do Iguaçu entre o Natal e o Ano Novo, e, também que ele e Carmem iriam nos visitar em Bombinhas na segunda semana de janeiro. Isso tudo ficou apenas nos planos, restando muitas lembranças de coisas que vivemos juntos, desde os 10 anos de idade…
Escrevo essas linhas ouvindo Elton John, o cantor e compositor que ouvimos desde garotos e canções comoWe all fall in Love sometimes, me levam à nossa mítica Barão do Cerro Azul dos anos 70, às nossas calças listradas, aos nossos longos cabelos e às nossas primeiras paixões, ao momento em que trocamos nosso interesse por bola e bicicletas, pela música e por meninas.
Apenas uma vez em nossas vidas gostamos e disputamos a atenção da mesma menina e foi, justamente, a primeira vez que ambos manifestamos esse interesse até então, mantido em segredo.
E não apenas eu e Nivaldo direcionávamos nossos olhos para a linda Rosa, esse era o nome dela, como também Paulo Murara, outro caro amigo.
Rosa era nossa vizinha, morava na esquina da Barão do Cerro Azul, com a Teixeira Soares, onde hoje é a CDI e quase todo dia ia à casa de sua amiga CirleiGuérios, que morava na esquina da João Gualberto com a Castro Alves e dessa forma, ao descer a Barão, passava muito perto de nós que vivíamos boa parte de nossos dias e noites, em frente a casa de Paulo que ficava na Esquina da Barão com a João Gualberto. Rosa ia encontrar Cirlei para irem (a casa de Nivaldo, ou melhor, de Dona Natália, sua mãe, que era costureira das meninas).
Elas passavam por nós e tínhamos a impressão, cada um, que Rosa olhava, um pouquinho, para nós. Enquanto elas iam à casa de Nivaldo, que morava na 1º de maio, pela João Gualberto, nós dávamos a volta no quarteirão pela Costa Carvalho, e, chegávamos à casa de Nivaldo antes delas e nos postávamos encostados no muro para vê-las entrar e depois sair.
Ficamos nisso, nenhum dos três teve coragem sequer de falar com Rosa, que logo depois foi embora e nunca mais a vimos.
Continuo ouvindo Elton John. Agora, depois de já ter escutado Rocket Man, uma das favoritas de Nivaldo e SweerPaintedLady, uma de minhas preferidas, ouço I Don’tLet Sun Go Down on Me, que me remete para a segunda paixão que manifestei. Seu nome era Maristela e ela estudava no Túlio, uma série depois da minha, e, quase toda manhã eu e Nivaldo esperávamos ela e sua amiga Débora saírem e subirem a Manoel Ribas, para seguirmos logo atrás. Agora era diferente, Maristela me olhava e eu a olhava. Eu gostava dela e acho que ela também gostava de mim, o que não sei ao certo porque nunca falei com ela.
Certa manhã como sempre, as seguindo até a esquina da João Gualberto, porque ali nós dobrávamos à esquerda e elas continuavam até a Cruz Machado, elas viraram para trás e vieram em nossa direção, sei lá se para falar conosco ou o que. Apavorado, perguntei a Nivaldo: E agora? Ele disse: Vamos entrar aqui. E entramos em uma ótica que havia na Manoel Ribas entre a Costa Carvalho e a João Gualberto. De rabo de olho as vi passar, enquanto Nivaldo experimentava um relógio, que é claro, nunca comprou. E assim fomos mais alguns meses até que…
Mas antes de falar disso, preciso contar outras duas coisas. As calças listradas a que me referi acima as tínhamos, eu acho que desde os 14 anos, e ali pelos 15, começamos a ficar muito altos e as calças ficaram curtas e nós as amávamos e não queríamos perde-las. Fazer o que? Nivaldo teve a ideia: Vamos emendá-las.
Levamos para sua mãe e pedimos que as cortasse no meio e emendasse com um tecido de outra cor. Escolhemos eu um vermelho e Nivaldo um verde. Dona Natália disse que faria, mas que iria ficar ridículo. Não ficou. Ao contrário ficou bem maneiro.
A outra lembrança é de dezembro de 1973. Nivaldo sempre disse que eu tenho uma memória de elefante e eu ia relembrando essas passagens e ele reavivavasua memória ruim e ríamos muito.
Mas voltando a dezembro de 1973, era mais ou menos essa época e eu iria naquela tarde, com minha mãe, para Pato Branco, onde passaríamos o Natal na casa de meus tios e primas. O ônibus saia, acho que as 2 da tarde. Almocei, peguei meu indefectível rádio de pilha e fui para rua, escutar a então emblemática Rádio Excelsior de São Paulo. Nivaldo já me esperava em frente à minha casa, quando o locutor anunciou o novo hit de Elton John,GoodbyeYellow Brick, que ouço nesse fugaz instante. Entre garotos não havia abraços, nem aperto de mão, dissemos apenas um tchau, mas sabíamos que sentiríamos falta um do outro naqueles dias em que estaríamos distantes.
…Até que, conheci Sônia Carneiro, que seria minha primeira namorada. Num arroubo de coragem, finalmente, aos 16 anos, fui falar com uma menina e com imediata empatia, começamos a namorar. Isso fez com que eu passasse a freqüentar o Bairro São Bernardo, onde Sônia morava. Lá conheci outro de meus mais caros amigos, Edson Mendes e Nivaldo quase sempre ia para lá comigo e acabou conhecendo Mara da Cruz, que seria também, sua primeira namorada. Quando Sônia fez 15 anos, a pedi, oficialmente, em namoro, para seus pais e lá estava Nivaldo a meu lado, me apoiando. Quando Mara fez 15 anos, dois meses depois, foi a vez de Nivaldo oficializar o pedido e lá estava eu ao seu lado.
No momento em que Nivaldo pedia Mara em namoro, um tio da menina, evidentemente, em tom de brincadeira, perguntou quais eram as reais intenções de Nivaldo. Ele deu uma tossida e antes de começar a dizer sei lá o que, saí em sua defesa, dizendo que ele tinha apenas 17 anos e queria apenas estar junto dela, com a permissão dos pais, coisa que ele já havia dito para os pais de Sônia em minha defesa. Indeléveis lembranças.
No início de 1975, eu, Nivaldo, Paulinho Rockembach e Rubio Savi, fundamos o Alucinasom, e tocávamos em festinhas e mais ou menos no final daquele ano, pegamos uma festinha na AAB para tocar. Por motivo que não lembro mais, Rúbio e Paulinho não puderam ir e nós pudemos levar Sônia e Mara, já com a devida autorização de seus pais.
Instalamos o som durante a tarde e à noite fomos à pé buscar as meninas no Bairro São Bernardom que até a ABB era uma senhora caminhada; Estavamos todos felizes. A festinha transcorreu normalmente e já bem em seu final, quando estavam apenas algumas pessoas, nós nos permitimos dançar com nossas namoradas. Tinhamos que ir um de cada vez, enquanto o outro cuidava do som. Fui o primeiro e dancei com Sônia, nove vezes em seguida We all fall in Love sometimes, que ouço neste outro fugaz e triste instante. Aí foi a vez de Nivaldo repetir as mesmas nove vezes, com a mesma canção, que portanto, tocou 18 vezes em seguida. Outra indelével lembrança, assim como tantas outras que vivemos juntos e precisariam muito mais que uma simples crônica para serem narradas.
Termino, agradecendo à Carmem, Felipe, Fernanda e Dona Natalia a honra de poder ter conduzido Nivaldo, irmão que não tive, à sua última morada.
Essas indeléveis lembranças preenchem um pouco do imenso vazio deixado por sua ausência.

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